Resenha: Dylan Dog – Memórias do Invisível

Resenha: Dylan Dog – Memórias do Invisível

07/22/2021 1 Por Maxson Vieira

“O que está acontecendo com o mundo? Parece que todos somos invisíveis uns para os outros”

Essa é uma publicação da editora Conrad, de março de 2002. No final de 2001 a editora lançou uma minissérie em seis volumes do personagem italiano no intuito de pesquisar o mercado brasileiro para publicações regulares do Dylan Dog.

Para quem ainda não conhece o personagem, Dylan Dog é um ex-policial de Londres, que resolveu largar o emprego e se dedicar a investigar crimes que envolvem o sobrenatural, daí o seu apelido “Detetive do Pesadelo”. Sua publicação teve início no final da década de 1980, na Itália, alcançando enorme sucesso e batendo recordes de venda. Na década de 1990, chegou a vender mensalmente mais 1 milhão de exemplares, somente em seu país de origem.

Com roteiro de Tiziano Sclavi, arte de Giampiero Casertano e capa do Mike Mingola, “Memórias do invisível” é uma das melhores histórias do Dylan Dog, apresentando várias camadas para discussão.

A história começa mostrando um “homem invisível”. Ninguém o vê, ninguém o nota, ninguém sabe que ele está lá. Nem a sua mãe, nem os colegas e professores na antiga escola e nem os atuais colegas de trabalho. Somente sua vizinha do andar de baixo, a prostituta Aileen. Ela, inclusive, uma vez até sorriu para ele. Mas Aileen é morta a facadas depois de atender um cliente, e o “homem invisível” se desespera. Após o descaso da polícia, uma amiga de Aileen, a também prostituta de nome Bree contrata Dylan Dog para investigar o caso.

Momento de um dos crimes, motivado por ideais religiosos

A polícia é cobrada, por um único jornalista, a solucionar o caso, mas aparentemente não faz muito esforço para tal e logo, mais garotas de programa são assassinadas. As autoridades demostram estarem cada vez mais desinteressadas pelo caso, e apenas Dylan e o “homem invisível” estão preocupados com esses crimes. Após o início das investigações, o próprio assassino se entrega e confessa que matou 29 mulheres e sem nenhum motivo.

Após o caso estar solucionado e o assassino preso, novas prostitutas são mortas a facadas, mas o assassino é morto por Dylan quando estava prestes a matar Bree. Pensando que os assassinatos de mulheres tiveram um fim, Dylan viaja com Grouxo, mas novamente aparece um assassino matando mulheres. Desta vez ele é impedido pelo homem invisível, que também morre.

Momento em que Dylan salva uma das vítimas

Essa é uma das melhores histórias do personagem. Apesar de ter sodo originalmente publicada no ano de 1988, ela continua cada vez mais atual devido aos temas trabalhados.

O que primeiro chama a atenção é a violência contra a mulher e a sua “normalização”. Na história, algumas mulheres são violentamente assassinadas e a polícia pouco se movimenta, mas quando o assassino se entrega, outro assume o seu lugar. E quando achamos que os crimes acabaram, outro assassino de mulheres aparece. Infelizmente, isso não é exclusivo das histórias em quadrinhos. Todos os dias mulheres são violentadas e mortas, e por mais que os culpados sejam punidos, mais criminosos surgem numa constância terrível. Muito longe de ter uma solução, estes crimes têm sua origem no machismo, que coloca a mulher como um objeto que pode ser punido sempre que o bandido achar que teve “a honra ou moral” ferida.

Paralelo ao assassinato das mulheres, e também ligado ao machismo, está a questão da indiferença a certas classes de trabalhadores. Na história, as prostitutas são mortas e ninguém se preocupa. A própria polícia só inicia as investigações após o caso ser publicado nos jornais. Esse é apenas mais um reflexo da nossa sociedade que pune pessoas consideradas “moralmente desvirtuadas”. O preconceito com prostitutas é um problema que está intimamente ligado ao machismo presente nas religiões, que frequentemente demonizam o sexo. Infelizmente, esse preconceito está enraizado nas mais profundas camadas da sociedade que, infelizmente, foi formada com ideais da cultura judaico/cristã.

Um fato bastante curioso na história envolve o “homem invisível”. Ele é o único personagem, exceto o Dylan Dog, que se preocupa com a violência e assassinatos das mulheres. Não apenas se preocupa, mas combate e literalmente morre tentando impedir uma mulher de ser violentada. E mesmo assim, era ignorado até pelas mulheres que ajudou. Este fato me remete a algumas extremistas do movimento feminista que tratam os homens apenas como “inimigos” e potenciais agressores, não conseguindo enxergar os homens que se preocupam com a violência contra a mulher. E esse tipo de militante extremista é muito mais comum do que as próprias pessoas do movimento se permitem admitir.

Há alguns anos, presenciei um fato um tanto peculiar. Um professor de artes marciais abriu uma turma gratuita de “Defesa Pessoal para Mulheres” numa universidade da cidade onde moro. Uma das mulheres matriculadas na turma, uma militante do movimento feminista, reclamou publicamente numa rede social falando que “Um curso de defesa pessoal para mulheres nunca deveria ser ofertado por um homem”. O professor estava dispondo do seu tempo livre, sem ganhar nada, para ajudar mulheres e uma extremista não conseguiu enxergar que ele queria apenas ajudar. Engraçado que reclamou, mas continuou fazendo o curso.

Já presenciei também professores sérios que se esforçam para escrever projetos e conseguir bolsas de estudos para alunas, especialmente para alunas em situação de vulnerabilidade, serem taxados de “macho escroto” apenas por não concordar com atitudes de militantes extremistas. As ideias e os comportamentos extremistas são prejudiciais ao próprio movimento e não deixam algumas pessoas enxergarem outras que querem ajudar. Criam “homens invisíveis” como o dessa história. O problema pode ainda ser maior, pois estes que ajudam podem, em algum momento, desistir e abandonar pessoas que realmente precisam de apoio.

O roteiro desenvolvido pelo Tiziano Sclavi é muito bom e bem trabalhado. As 100 páginas que formam essa história podem ser lidas em pouco menos de uma hora, tamanha fluidez da narrativa. A arte é muito bonita, e o desenhista demonstra grande habilidade para o trabalho do sombreamento e detalhes do espaço negativo. A narrativa gráfica desenvolvida neste volume é incrível e em nenhum momento causa cansaço acompanhar os personagens durante a trama.

Essa edição, infelizmente, está esgotada há muito tempo no Brasil e pode ser encontrada apenas em sebos. A editora Mythos atualmente possui os direitos de publicação do personagem e seria uma ótima escolha se republicassem essa história.

Se alguém encontrar à vends, recomendo a compra e leitura.

 

Por Maxson Vieira