Resenha: Dylan Dog – Mater Morbi

Resenha: Dylan Dog – Mater Morbi

09/16/2021 0 Por Maxson Vieira

“Os seres humanos são criaturas estranhas e às vezes gostam das coisas mais impensadas… até o sofrimento ou a morte têm seus apreciadores. Mas a doença… dessa ninguém gosta. Diga, já escreveram alguma poesia sobre você? A Morte e a Guerra têm uma coleção inteira…”

Capa da edição da Lorentz à esquerda, e da editora Mythos à direita.

Com roteiros de Roberto Recchioni e arte de Massimo Carnevale, essa história foi publicada originalmente em DD 280, na Itália, no ano de 2010. No Brasil, a editora Lorentz publicou em 2017 e a editora Mythos em 2021, em formatos distintos.

Para quem ainda não conhece o personagem, Dylan Dog é um ex-policial de Londres, que resolveu largar o emprego e se dedicar a investigar crimes que envolvem o sobrenatural, daí o seu apelido “Detetive do Pesadelo”. Sua publicação teve início no final da década de 1980, na Itália, e alcançou enorme sucesso, batendo recordes de venda. Na década de 1990 chegou a vender mais um milhão de exemplares somente no seu país de origem.

Esse volume traz uma história com uma das melhores premissas que já li nos quadrinhos. A antropomorfização da doença.

Introdução à história da edição da Mythos

A história começa com o Dylan Dog adoecendo repentinamente e sendo levado ao hospital por uma ambulância. Ao chegar lá, ele logo é internado e, após alguns exames, descobre que possui uma massa negra dentro do seu corpo. A partir deste momento, Dylan alterna entre delírios, pesadelos e a realidade. Nos momentos de delírios, ele é levado a uma espécie de limbo, para onde vão todas as pessoas com doenças graves ou em fase terminal. Nesse local, o Detetive do Pesadelo conhece um garoto chamado Vincent, que há anos é acometido de uma grave doença e constantemente visita este “outro mundo”. Com a ajuda de Vincent, Dylan aprende como funciona esse lugar, que é governado por Mater Morbi.

Mater Morbi é a mãe de todas as doenças e logo se mostra atraída por Dylan. Durante a trama, é revelado que ela tem um pacto com os médicos desde a época de Hipócrates. Neste acordo, ela criaria doenças e em determinados momentos permitiria a descoberta da cura, gerando fama e fortuna aos médicos; em contrapartida, os médicos prolongariam a vida e sofrimento dos enfermos, assim estes serviriam como brinquedo para Mater Morbi.

Após perceber onde está e ao fim de várias discussões com a “mãe das doenças”, Dylan percebe o quanto ela é solitária. Poetas e músicos escreveram obras ao amor, à morte, à guerra, mas ninguém nunca escreveu nem adorou a doença. Surge então uma paixão entre os dois que dura por toda a vida do Dylan. O final da história é bastante comovente ao mostrar o contraste do final de Dylan e do garoto Vincent.

 

Dylan Dog no reino da Mater Morbi

Essa talvez seja a melhor história que já li da Bonelli. Excepcional. Deveria servir de modelo para roteiristas de quadrinhos e filmes de todo o mundo.

O roteiro de Mater Morbi tem clara inspiração na obra de Sandman, do autor inglês Neil Gaiman. Para quem nunca leu Sandman, aqui temos a personificação de alguns aspectos inerentes ao universo. Eles são chamados de “Perpétuos” e compostos por: Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio. Cada um destes seres tem plenos poderes sobre tudo aquilo que representa, e as histórias presentes na obra ocorrem entorno de Sonho, também chamado de Morpheus ou Sandman. Nessa edição do Dylan Dog, somos apresentados àquela que poderia ser a oitava integrante dos Perpétuos: a Mater Morbi, a Mãe de Todas as Doenças.

Mater Morbi é retratada como uma criatura bastante vaidosa e que adora se divertir vendo pessoas sofrerem. Por várias passagens, ela demostra ter um comportamento sadomasoquista, inclusive levando Dylan para a “Sala dos Chicotes”. Apesar de possuir personalidade forte, o Detetive do Pesadelo descobre o seu ponto fraco, a solidão. E esta é uma das melhores sacadas do roteiro.

Se pararmos pra pensar, facilmente lembraremos poesias ou músicas que de uma forma ou outra exaltam o amor, a morte, a paz, a guerra, o desejo, a felicidade…, mas nunca a doença. Mesmo pessoas em graves quadros de depressão podem desejar a morte para acabar com o sofrimento, mas nunca a doença. Todas as pessoas amam a felicidade e o desejo e todos adoram seus sonhos e alguma dose de delírio, mas ninguém ama nem deseja a doença, e buscam viver longe dela. Nessa história, Dylan consegue, de forma bastante sensível, perceber a solidão de Mater Morbi, e compreende que todo o seu sadismo e maldade são reflexos desse sentimento de rejeição. E se apaixona por ela.

Em uma passagem, quando uma violenta tempestade está para cair sobre Dylan e Vincent, o garoto pergunta se ele não tem guarda-chuvas. O detetive responde que nunca teve um, dando a entender que nunca teve medo dos pesadelos e que não precisa ou não quer se proteger da Mãe das Doenças.

Os desenhos são muito bem feitos. Temos a impressão que Massimo Carnevale é fortemente inspirado no uruguaio Alberto Breccia. A utilização das sombras, que em vários momentos se assimila à do Breccia em “Mort Cinder” é espetacular. Para quem nunca leu, Mort Cinder é um quadrinho argentino publicado originalmente entre os anos 1962 e 64. Em Mater Morbi, a arte possui plena harmonia com o roteiro, o que deixa a história ainda mais carregada de emoções angustiantes.

Exemplo de como a arte do Massimo Carnevale se parece com a utilizada por Alberto Breccia em Mort Cinder

Para quem gosta de ler uma boa história, esta é um prato cheio.

O final

A edição da editora Lorentz é inteira em preto e branco e possui formato 15,5×21 cm. A edição da editora Mythos é um pouco maior, com formato 21×29,5 cm, 104 páginas, com algumas coloridas, capa dura com preço de 74,90, mas pode ser facilmente encontrada com bom desconto no site da editora ou em lojas especializadas.

 

Por Maxson Vieira