Recordações brasilienses: encontros com histórias locais

Um texto para lembrar das memórias deixadas por um lugar.

Dizem que a escrita nos leva a reviver. Ler o que se escreve. Escrever para após um tempo ler. Para experienciar novamente o que se passou há alguns anos. Para repensar o viver. A escrita eterniza o que passou rapidamente. Ela ajuda a formular novas maneiras de estar na e para a vida. Pode ser esse o objetivo dessa crônica. Agora, passados 7 anos, voltei aquela aeronave. Voltei a cidade que tem formato de um avião (Imagem 1). Foram tantas memórias e Histórias contatadas nessa breve ida e vinda. A vida mostrou-se mesmo surpreendente. O meu olhar para o lugar parecia outro. Brasília me deixou marcas profundas, antes e agora. Foi como entrar em um túnel do tempo. Tantas pessoas fizeram parte dos momentos bons por lá. Foram dias de formação. Tardes de construção e noites às margens do Lago Paranoá. Foi importante lembrar. Lembrar de que somos um pingo no oceano, entre todos os demais. Pensar ao caminhar em meio ao vazio das ruas popularmente conhecidas (Imagem 2).

Imagem 1 – Brasília visualizada da Torre de TV.Fonte: arquivo pessoal da autora.

Já quando estava indo, encontrei com quem discutir literatura. Indicações de novos livros, debates. O prazer de estar com quem nos acrescenta. Com quem tem o que dizer de positivo. Essa é a melhor sensação quem os lugares podem deixar dentro de nós. A indicação de leitura foi uma biografia. Mais uma biografia para a minha lista. Fazia tempo que não discutia textos com pessoas desconhecidas. Mas o que chamava a atenção em tudo, era a generosidade presente na partilha do saber. Que saudade ações como essas me faziam. Logo ao chegar na cidade, o contato com pessoas me apresentou o ambiente. Falamos sobre a vida e sobre as possibilidades de futuro na sociedade que temos. Um diálogo com vestígios de sabedoria.

Imagem 2 – Em meio ao nada.Fonte: arquivo pessoal da autora.

No transporte local, eu fui descobrindo, aos poucos, o ritmo da cidade. Em uma conversa breve, me foi apresentada a História da cidade de um ângulo por mim, desconhecido. A História lendária. Eu me surpreendi ao saber que o Lago Paranoá, na etapa de construção, levou JK a ser comparado ao Faraó Aquenáton, pela semelhança de seus projetos e histórias: projetaram cidades em formato de aves; fundaram a capital dos seus países; construíram um lago na cidade que projetaram; ambos morreram no 16º ano posterior a fundação da cidade que projetaram. De acordo com a lenda, JK foi um grande visionário por acreditar que o Lago Paranoá, que atualmente passa de um lado a outro da cidade, se tornaria realidade. Ao passar por baixo de uma das pontes locais (Imagem 3), em passeio ofertado como atração turística no Pontão do Lago Sul, foi indicado que todos fizessem três pedidos, com o intuito de os concretizar.

Imagem 3 – O Lago Paranoá e a ponte Honestino Guimarães.Fonte: arquivo pessoal da autora.

O nome da ponte foi colocado em homenagem ao personagem histórico Honestino Guimarães, um estudante da UnB que lutou contra o Regime Militar, e foi preso por quatro vezes desde 1964. Ele desapareceu quando exercia a função de presidente da UNE. O nome na ponte ajuda a preservar a memória coletiva sobre o ocorrido. Além disso, cabe recordar que essa ponte foi mais um dos projetos de Oscar Niemeyer na cidade, e simula o pouso de uma andorinha que toca a água. Uma das atrações turísticas locais indica que na passagem por baixo dessa ponte, devemos fazer três pedidos que seriam concretizados em pouco tempo. Na cidade vemos o cenário de vários filmes. Um lugar pelo qual passaram muitas multidões, no dia da minha visita, esteve deserto.  

Imagem 4 – Exposição no Museu Nacional da República.Fonte: arquivo pessoal da autora.

No Museu Nacional da República, uma exposição presente no segundo piso, objetivava rememorar a conhecida “Operação Camanducaia” (Imagem 4), um entre vários dos casos de violação dos direitos humanos, marco invisibilizado na memória coletiva do país. Esse caso passou-se na década de 1970 e já foi estudado e apresentado sob a ótica do escritor José Louzeiro, na obra “Infância dos Mortos”. Parecia que todos os ambientes pelos quais passava, durante aquela rápida viagem, apresentavam uma mensagem necessária ao momento. Ao aproximar-me da saída do museu, visualizei rapidamente a obra “Tudo aquilo que eu não disse”, de Maria Pontes (Imagem 5). Por alguns minutos ali me mantive em observação.

Imagem 5 – Obra de uma exposição no Museu Nacional da República.Fonte: arquivo pessoal da autora.

Talvez aquela tenha sido a última mensagem do dia. Talvez ela tenha inspirado essa crônica. Tenha inspirado escritos anteriores. Sim, aqui está o que me faltava dizer sobre Brasília. Dos sentimentos por ela deixados.

Sobre o autor

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É Pedagoga, Mestra em Educação e autora da obra "Uma década de PROSA". Busca desenvolver, por meio desta coluna, reflexões majoritariamente autobiográficas sobre as condições de vida das pessoas de origem interiorana, especificamente do interior de Alagoas. Escreve, comumente, crônicas e artigos de opinião, mas também utiliza-se da linguagem poética, quando pertinente à temática destacada.


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