Características formativas do lugar que abriga à Serra da Barriga

Aqui estou mais uma vez. Agora apresento às características de um lugar inspirador.

Poucas vezes paramos para refletir sobre o significado dos espaços e pessoas que nos levaram a tomada de consciência. Talvez o processo de conscientização sobre os direitos que tenho como cidadã brasileira, tenha iniciado durante o trajeto escolar. A partir, inicialmente, da influência de professores e professoras da Educação Básica. Foram muitos os professores e professoras que colaboraram com a minha formação. Agora recordo de Assunção. Ela foi uma personagem importante em minha trajetória. Leitores do meu primeiro livro monográfico (Silva, 2021), nunca saberiam, sem passar por aqui, que a mantinha em meus pensamentos, quando concluía o último capítulo deste, e aludia ao poema “Cidadezinha Qualquer”, de Carlos Drummond de Andrade. Ela foi uma das minhas alfabetizadoras. Durante o quarto ano do Ensino Fundamental, pagou algumas aulas de reforço das quais precisava para ingressar no universo letrado. Assim marcou, sem intencionalidade, a minha vida.

Isso também fizeram docentes da Escola Normal, quando me ajudaram a acreditar que o meu futuro poderia ser diferente do presente. Sempre aparecem em recordações, as suas atitudes éticas e a manifestação de respeito direcionada aos colegas de trabalho e a categoria discente. O poeta e professor Gilmar me vem ao pensamento quando pego em um texto literário. As suas aulas, na mesma instituição, faziam mais leve o estudo da Língua Portuguesa, e levavam-me a entender o significado da escrita. Na Universidade Estadual de Alagoas (UNEAL), quando um professor de literatura falava sobre o carinho sentido pela profissão exercida, era deles que eu lembrava. O último repetia em algumas aulas de Literatura Brasileira: “-venho até aqui para fazer o que amo, e ainda recebo por isso”. Sim, eu me constituí docente e pessoa, nesse espaço e com esse modelo professoral. Essa é a minha origem. São os retratos do meu interior. Um interior que hoje tenho estudado para entender a contribuição de pessoas comuns e públicas, vinculadas à docência. Como não recordar dos docentes que marcaram positivamente a minha trajetória formativa?

A docência exige a mobilização de muitas dimensões. Quem nos forma docentes, precisa ajudar-nos a perceber, pelo exemplo, como essas dimensões são mobilizadas. Parece repetitivo rememorar Paulo Freire agora, mas sempre o recebo em mente, quando recordo dos professores que me formaram na Educação Básica, assim como dos colegas de profissão que também percebem a docência como espaço para transformações sociais. Não existe docência sem ética, e não existe postura ética que passe por despercebido nos espaços de formação. Graças a essa ética, muitos, como eu, persistiram na crença de que a formação era o único caminho. O único recurso a se utilizar para a conquista de uma vida menos difícil. Por meio dela, passei a me perceber uma pessoa. Recordei de tais eventualidades, há poucos dias, quando, inesperadamente, reencontrei com uma professora do Ensino Fundamental, e dialogamos sobre as memórias que ela tinha da profissão e do meu trajeto quando estudante da escola básica.

É claro que às reflexões também permitiram-me pensar sobre os dados levantados por meio da pesquisa histórico educacional que venho desenvolvendo desde a graduação. Recordei das meninas desvalidas do século passado, noticiadas no Correio da Manhã: “Tendo este congresso que fazer entrega, por intermédio de sua caixa de caridade, de diversos donativos a órfãs de seus associados, até 12 annos de edade, de accordo com os seus estatutos e instituidos por diversos diretores” (Santos, 14 maio. 1910). As meninas que a tudo perdiam, passavam a depender da caridade política, em seus lugares de origem: “O prefeito mandou preencher as vagas existentes no Instituto Profissional Feminino, admitindo as seguintes meninas, orphãs de pae e mãe: Bernadette de Lourdes, Caetana, Durvalina, Josephina, Regina e Georgia” (Collegio […], 17 mar. 1911). Meninas que também eram afetadas pelos contextos pandêmicos, de seus tempos, e que, mais que isso, viviam imersas na eterna crise provocada pelas desigualdades sociais e econômicas.

Curiosamente, Karl Marx (1996, p. 356) ao dizer da Europa Ocidental do final dos séculos XV e XVI, mostrava que tudo tem uma origem estrutural: “[…] os que foram bruscamente arrancados de seu modo costumeiro de vida não conseguiam enquadrar-se de maneira igualmente súbita na disciplina da nova condição. Eles se converteram em massas de esmoleiros, assaltantes, vagabundos”. Cheguei a localizar, entre jornais, às meninas órfãs, que eram enviadas para as escolas femininas na década de 1910, anunciadas como ocupantes de cargos subalternos, em décadas posteriores. Me questionei inúmeras vezes sobre a persistência dessas desigualdades. Uma desigualdade que também aparece na escrita íntima de Carolina Maria de Jesus (2020, p. 37), em 17 de maio de 1958: “Levantei nervosa. Com vontade de morrer. Já que os pobres estão mal colocados, para que viver? Será que os pobres de outro País sofrem igual aos pobres do Brasil?”. Sempre me fiz as mesmas perguntas que ela. A trajetória da estudante Norte Americana Stephanie Land (2019, p. 4), responde à pergunta de Carolina: “Às vezes limpava chãos e banheiros de casas de pessoas próximas, amigos que ouviam dizer que eu estava desesperada por dinheiro”. A precarização da existência, ilustrava-se por meio do corpo: “As minhas poucas fotos mostravam praticamente outra pessoa, talvez a versão mais magra de toda a minha vida” (Ibidem).

Fonte: Arquivo pessoal da autora.

Essa divisão dos corpos em espaços cabíveis a classe, também aparece na escrita do intelectual camaronês Achille Mbembe (2016, p. 138), quando, inspirado em Michel Foucault, ele discorre sobre a Necropolítica da modernidade: “a população sitiada é privada de seus meios de renda. Às execuções a céu aberto somam-se matanças invisíveis”. O conceito de Necropolitica é analítico ao poder que se expressa pela promoção da morte, ao tempo que se identifica como organizador da vida. Na política de morte, existem os corpos que merecem viver e os corpos matáveis. É possível dizer que o lugar que nos origina, também nos destina a alguns tipos de mortes. A morte dos sonhos é menos perceptível que outras, mas está lá, como podemos recordar por meio da leitura ao texto publicado anteriormente. Sobre o sonho de viver. De permanecer na vida. De viver dignamente.

Essas foram indagações que ocuparam a minha memória, quando pensava sobre o meu lugar. Sobre os desafios enfrentados até aqui. Sobre os dias de resistência. Sobre os dias de avanços e retrocessos. Sobre inocências pisadas.

Fonte: Arquivo pessoal da autora.

Falo de um lugar conhecido pela trajetória de resistência. Um cenário de luta pela liberdade. De alegrias e de tristezas. Falo de União dos Palmares. Cresci olhando para a Serra da Barriga diariamente. Ouvia às Histórias contadas e registradas sobre os eventos que ocorreram naquele espaço. A História de Zumbi, de Dandara, de Aquatune. A História marcada pela maldade de Domingo Jorge Velho, conhecido pela invasão e destruição do quilombo dos palmares. Já no hino local, que cantávamos em todas as manhãs na escola primária, a história ia sendo memorizada sem compreensão, até dado tempo, do significado que tinha.

“Eu vou contar uma história sofrida,

Uma história de séculos passados,

Que se passou lá na Serra da Barriga,

O grande “Quilombo dos Palmares”.

 

E eram palavras que ficavam na memória como partes dos nossos dias. Ora pelo significado atribuído ao personagem Zumbi, outrora pela simbologia de um refúgio culminante em liberdade. Eu costumava ir a Serra, e ouvia a História de lá também. Pelos guias ou por professores de História Palmarina. Por muito tempo desconheci a significação que aquele lugar tinha para os demais pontos do planeta. Eu gostava de estar por lá. Gostava da paz que a Serra da Barriga trazia. De algum modo, ia até a Serra sempre que sentia a necessidade de fortalecer a esperança. Eu levava sempre na memória as poéticas palavras de Jorge de Lima, com seus textos ilustrativos da cultura local. Aquele lugar sempre foi tão repleto de poesia.

 

“Zumbi, Zumbi, teu grito de liberdade foi tão grande,

Que ecoou pelo Brasil mais tarde libertou teus semelhantes.

Os negros refugiaram-se lá na serra,

E fundaram uma republica poderosa,

Vinte mil negros lutaram com afinco,

Pela liberdade gloriosa”

Foi na Serra que vivenciei momentos múltiplos. Momentos de reflexões. De dores. De alegrias. Recordo ainda, que fui à Serra da Barriga durante a semana que antecedeu à prova do ENEM de 2015. Prova que me permitiu ingressar no Ensino Superior. Eu pensava sobre o futuro ao tempo que olhava para Irôco (árvore gameleira). Irôco está no mesmo lugar desde que tudo ocorreu. Ela viu a História que hoje nos é contada e, por esse motivo é a simbologia do tempo. Irôco me remete a sabedoria que apenas o tempo pode trazer.

Fonte: Arquivo pessoal da autora.

É dela que deriva a sombra refletida na Lagoa Encantada. Ambas formam o lugar destinado à purificação da vida.

Fonte: Arquivo pessoal da autora.

As cidades interioranas, como União dos Palmares, possuem muito a nos dizer. Elas abrigam às pessoas subalternizadas. Às pessoas que nem sempre participaram de grandes eventualidades, mas que ainda se fazem resistentes aos problemas causados pelas injustiças sociais. Às pessoas que sobrevivem. É um lugar que forma e transforma pelo que é.

 

Referências

COLLEGIO Abilio. – P. de Botafogo, 374 (casa Matriz) – Exames em março. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 17 mar. 1911.

JESUS, C. M. de. Quarto de despejo: diário de uma favelada. 1. ed. São Paulo: Ática, 2020.

LAND, S. Superação: Trabalho duro, salário baixo e o dever de uma mãe solo. Tradução de Maíra Meyer. Rio de Janeiro: Alta Life, 2019.

MARX, K. O Capital: critica da economia política. São Paulo: Editora Nova Cultura, 1996.

MBEMBE, A. Necropolítica. Arte & Ensaios, n. 32. Tradução: Renata Santini, 2016, p. 122-151. Disponível em: . Acesso em: 26 dez. 2022.

SANTOS, J. F. Congresso Beneficente Campos Salles. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 14 maio 1910.

SILVA, H. P da. Uma década de prosa: impressos e impressões da professora e jornalista Maria Mariá (1953-1959). Fortaleza: EdUECE, 2021.

Sobre o autor

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É Pedagoga, Mestra em Educação e autora da obra "Uma década de PROSA". Busca desenvolver, por meio desta coluna, reflexões majoritariamente autobiográficas sobre as condições de vida das pessoas de origem interiorana, especificamente do interior de Alagoas. Escreve, comumente, crônicas e artigos de opinião, mas também utiliza-se da linguagem poética, quando pertinente à temática destacada.


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