Vidas arquivadas: aprendendo com hemerotecas

Hoje decidi escrever sobre as vivências nos acervos consultados durante a pesquisa histórico educacional desenvolvida durante os anos de Graduação e Mestrado.

Hoje estive a pensar sobre o lugar que as hemerotecas, digitais e físicas, ocupam em minha trajetória durante esses 6 anos dedicados a pesquisa em História da Educação. Foram anos inicialmente entre jornais, depois entre: pessoas, iconografias, imagens, manuscritos. Tudo o que me levava a viver e a pensar sobre as configurações do século XX. Foi um século com muitas contradições. Um século repleto de conquistas e retrocessos. Nele, espalhados pelos variados países e continentes, estavam pessoas comuns e públicas. Elas se transformavam ao tempo que transformavam as suas localidades. Algumas dessas, sobreviveram pelos registros que foram dizendo das suas existências. Elas apareciam nos ritmos das cidades. Ritmos estudados ou categorizados por Henri Lefebvre.

De fato, as cidades possuem peculiares maneiras de expressão. E os humanos transformam-se ao tempo que as constroem. Os jornais, com seus incontáveis flagrantes, acabam por mostrar detalhes dessa ritmologia. E eles se apresentaram lá, no silêncio barulhento das hemerotecas. E muito dizem do tempo para o qual foram produzidos. O Jornal A imprensa, por exemplo, em 16 de maio de 1860, anunciava a obra que divulgava o talento da escritora e professora maranhense, Maria Firmina dos Reis (Imagem 1). A obra Ursula, hoje reconhecida como clássico romance brasileiro.

Imagem 1 – AnúnciosFonte: 150:000… (1860).

Como Firmina, estavam demais mulheres do mesmo século e de outros. Elas sobreviviam ao passar do tempo, porque deixaram ideias escritas ou comentadas ali, em páginas jornalísticas. Os acervos são esses lugares que armazenam acumuladas memórias e histórias. Silenciosos e, algumas vezes, escuros (Imagem 2), os acervos ajudam a ativar a memória. Simbolizam o que foram algumas existências. Mostram que a escrita faz reviver o que o tempo pode tentar apagar dos pensamentos.

Nem sempre essa vida deixada e encontrada nos acervos está apresentada como de fato aconteceu. Ela está afetada pelo que os personagens que a produziram, desejavam deixar ver. Como dito por Jacques Le Goff (1996), a memória Histórica é um grande e misterioso monumento. A memória é, de fato, uma personagem que ganha espaço no presente, pelo que pensamos dela. Pelo que parece ser. Ela é uma performar-se assim como os que a ela produziram, sobretudo quando pública.

Os acervos são intimidadores porque fazem um convite misterioso a quem deseja continuar em busca de mais e mais mistérios. O mistério da escuridão, da invisibilidade, da imagem pública, da morte em meio a vida e da vida no meio da morte. Os blocos de jornais convidam ao trabalho detetivesco, guiado pela sensibilidade e pelo instinto, como lembrado por Carlo Ginzburg (1989).

Eu ainda lembro de como eram os meus dias na Hemeroteca do IHGAL. Dos o horários limitados de consulta. Das pessoas com as quais socializava em dias com alto número de pesquisadores. Lembro também do barulho provocado pela movimentação presente no centro da cidade. Um centro que também leva em sua estrutura parte dos monumentos históricos presentes na cidade de Maceió. O centro que, por sua vez, fazia História no momento das minhas garimpagens, fazia-me companhia quando o acervo estava escuro e vazio. O som confuso da multidão que pelas calçadas passava, competia com o silêncio.

Imagem 2 – IHGAL.Fonte: arquivo pessoal da autora (2022).

Em contrapartida, estava a Biblioteca Pública Graciliano Ramos, com a sua luminosidade. Também localizada no centro da capital Alagoana. Nela, o corredor repleto de jornais, parecia indicar o caminho do olhar para a parte externa ao prédio. Convidava a para um cenário subdividido entre o passado e o presente, que se movimentavam ao tempo que aconteciam.

Imagem 3 – Hemeroteca da Biblioteca Pública Graciliano Ramos.Fonte: arquivo pessoal da autora (2022).

Nessa última, o tempo de consulta ao acervo era maior. Por vezes, lá também estavam outros documentos que dividiam a minha atenção. Estavam livros raros em uma biblioteca com espaço para leituras. Por aqueles corredores locomovia-me a busca pelos variados blocos de jornais (Imagem 4).

Imagem 4 – Blocos de jornais.Fonte: arquivo pessoal da autora (2021).

Empoeirados e com algumas características provocadas pelo passar dos anos, décadas e séculos, eles encontram-se unidos. Cada bloco com jornais socializados a cada quatro meses. As vezes me pergunto como consegui analisar 48 desses blocos, para fotografar as 57 publicações da professora Maria Mariá, atualmente disponíveis na obra Uma década de prosa. Algumas situações são mesmo inexplicáveis. Penso que existe uma força interna que move os sonhos e nos permite realizar o que parece impossível. O meu desejo e necessidade de ingressar no Mestrado parecia superar as minhas limitações físicas, de fato. Recordo da quantidade de dias que fui até a Biblioteca Pública Graciliano Ramos sem dinheiro algum para almoçar ou fazer um lanche. Foram meses entrando as 9h e saindo as 17h daquele lugar. As vezes a limitação física e mental levava a registros inusitados (Imagem 5). Registros que dizem de como foi o dia. Que captam o que uma fotografia comum não mostraria. Fazem e não fazem sentido ao mesmo tempo. Registros que fizeram parte da minha História.

Imagem 5 – Registro feito acidentalmente.Fonte: arquivo pessoal da autora (2019).

É no labirinto dessas memórias de pesquisa, que tais fatalidades aparecem. Essas memórias incertas. Ora individuais, ora coletivas. Memória que guardei e que guardaram de outros e de mim. Dos outros que existem em mim. Dos meus reflexos nos outros. Confundem-se memória de um passado distante, de um quase presente. Essas memórias mostram a captura do que poderia ser pouco importante. Mostram como estavam as mãos no fim de cada dia.

Imagem 6 – O fim de um dia de investigação.

Fonte: arquivo pessoal da autora (2018).

Acontecimentos que interagem com o que as fontes de informação consultadas, traziam. Dizem de como essas fontes são preservadas. De como encontram-se organizados os acervos. Dizem das vivencias de quem pesquisa. Das condições efetivas que perpassam o trabalho historiográfico.

Para interpretação dos fatos específicos, mostra-se necessária a interação com os fenômenos globais. Alguns desses que marcaram a memória coletiva brasileira, durante o século XX: “Na manhã do sábado de Carnaval de 1956, dois oficiais da Aeronáutica, o major Haroldo Veloso e o capitão José Chaves Lameirão, chegaram cedo à Base Aérea dos Afonsos, no Rio de Janeiro” (SCHWAECZ e STARLING, 2018, p. 412). As memórias intermitentes ao golpe de 1964: “[…] veneravam Carlos Lacerda, estavam indignados com a vitória ‘getulista’ nas eleições presidenciais de outubro de 1955 e pretendiam levar a cabo um plano alucinado: montar um foco de sedição no Brasil Central e dar início à guerra civil” (Idem, grifos meus). Memórias das quais saímos e entramos, por vezes, percebemos e deixamos. Elas são confusas e frias, como são os lugares que as arquivaram. Parecem um labirinto repleto de idas e voltas: “O Sr. Plínio Salgado quer acabar com os banhos de mar, porque as pernas das mulheres se descobrem neles” (RAMOS, 2013, p. 161). Como colocado em texto dissertativo recentemente defendido, em alguns momentos, durante a pesquisa, me senti como a personagem literária G.H., criada por Clarice Lispector. Eu não sabia o que fazer com as informações presentes no que vivia e encontrava. Passei um tempo perdida entre documentos. Bem no início da investigação, quando aprendia a escrever, eles pareciam me guiar por um caminho incerto e repleto de curvas e desafios. Aprendi, com as hemerotecas, sobre a importância de ressignificar a vida e o que dela sai e permanece. Aprendi a questionar as certezas e as dúvidas. A ida aos arquivos, como parte do trabalho historiográfico, são parte da construção autoral, porque as seleções decorrem de um olhar seletivo ancorado em objetivos previamente formulados por pessoas do tempo presente.

 

Referência:

150:000 RS. A imprensa. São Luiz, 16 maio. 1860. Disponível em: <http://memoria.bn.br/docreader/035156/1060>. Acesso em: 9 maio 2021.

GINZBURG, C. Mitos, emblemas, sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das letras, 1989.

LE GOFF, J. História e memória. Tradução de Bernardo Leitão et. al. 4. ed. Campinas: Editora UNICAMP, 1996.

RAMOS, G. “Mulheres…”. Vamos ler!, Rio de Janeiro, ano, n. 65. 2 out. 1937. In.: ________. Garranchos. Organização de Thiago Mio Salla. 2 ed. Rio de Janeiro, 2013, p. 160-163.

SCHWAECZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das letras, 2018.

Sobre o autor

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É Pedagoga, Mestra em Educação e autora da obra "Uma década de PROSA". Busca desenvolver, por meio desta coluna, reflexões majoritariamente autobiográficas sobre as condições de vida das pessoas de origem interiorana, especificamente do interior de Alagoas. Escreve, comumente, crônicas e artigos de opinião, mas também utiliza-se da linguagem poética, quando pertinente à temática destacada.


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