Optando pela PEDAGOGIA HISTÓRICO-CRÍTICA: memórias de um TRABALHO DOCENTE

Ao ministrar aulas durante um tempo de estagio na Universidade Federal da Paraíba, decidi ancorar-me nas orientações dadas pela Pedagogia Histórico-Crítica. Decidi compartilhar algumas das memórias desse momento, por meio de um breve relato.

Autora: Hebelyanne Pimentel da Silva.

Ofertada como componente curricular obrigatório, no segundo período do curso de Pedagogia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a disciplina intitulada História da Educação II, ministrada por diferentes docentes, no decorrer dos semestres, apresenta como ementa: “História e produção do conhecimento. A História da Educação e da Pedagogia após o século XIX no contexto brasileiro e paraibano”. Partindo desta, mantém por objetivo: “Possibilitar uma visão crítico-reflexiva de momentos do processo histórico educacional após o século XIX”, além de “instigar a compreensão das principais tendências e movimentos pedagógicos, da política educacional, da formação docente, da organização do ensino e da prática educacional brasileira”. O conteúdo selecionado e distribuido em três unidades, ao ser trabalhado, durante um semestre, possibilita uma viagem no tempo, iniciada na República e finalizada nos anos repressivos da Ditadura Militar brasileira. Atentos a distintos eixos temáticos: Instituições escolares, intelectuais, legislação, projetos educacionais, profissão docente. Entre os autores selecionados para mediação dos debates, destaco a presença de: Alessandra Schueler, Diana Vidal, Dermeval Saviani, José Sanfelice, Afonso Scocuglia. Autores que marcaram a minha trajetória como estudante do curso de pedagogia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL). Fiz, por meio deles, não apenas uma viagem ao passado da educação brasileira, mas ao tempo no qual cursei Pedagogia.

Na regência, busquei seguir os passos propostos pela Pedagogia Histórico-crítica. Iniciava as aulas com um diálogo capaz de remeter as vivências estudantis, fazendo pensar sobre o lugar que ocupam dentro de uma organização social capitalista. Logo em seguida, fazia uma exposição dialogada e, no fim da exposição, voltava a recordar os principais pontos do conteúdo explorado. Em primeira atividade, discutimos o “Manifesto dos Educadores”, publicado em 1959, por meio de um texto escrito pelo professor José Luís Sanfelice. Optei por iniciar a aula com uma breve rememoração das discussões realizadas em encontros anteriores. Primeiro estimulei os estudantes para que colocassem as suas memórias, depois apresentei o que haviam colocado em reflexões escritas, e, posteriormente, apresentei uma breve cronologia dos acontecimentos histórico-educacionais estudados, indo da fundação da A.B.E. (1924), até o tempo de efetivação do suicídio de Getúlio Vargas (1954). Foi uma reflexão dialogada. Após esse primeiro momento, que funcionou, para mim, como diagnóstico, passei a apresentar os fatos da década de 1950, que levaram a construção do Manifesto dos Educadores.

(reflexões que já fiz durante a obra “Uma década de PROSA”)

 

 Falei, brevemente sobre a atuação de Carlos Lacerda e posteriormente fui apresentando os presidentes da república do período. Mostrei como os projetos escolanovistas estavam marginalizados durante a Ditadura de Estado, e como foram sendo reestabelecidos durante a década em destaque. Dispus os principais elementos do manifesto e, logo em seguida, apresentei a crítica que José Luís Sanfelice, fez em texto. Finalizada a aula, recordei os principais pontos da discussão, com a colaboração dos estudantes e assim fiz, sem o dizer, a avaliação do que havia sido assimilado por toda a turma.

Em uma outra aula, pensamos sobre O Legado Educacional do Regime Militar, por meio de um texto escrito por Dermeval Saviani. Iniciei apresentando a trajetória de vida do autor do texto discutido, e solicitei que alguns dos estudantes falassem um pouco sobre suas histórias de busca pela formação, que poderiam ser ou não parecidas com as experiencias do autor do artigo. Partindo desse diálogo inicial, apresentei memórias da aula sobre Educação Popular, que se pautava no reconhecimento das trajetórias de vida e fui entrando, aos poucos, nas reflexões propostas para esse encontro. Novamente rememorei, cronologicamente, o que foi estudado, com o auxílio de uma linha do tempo posta em slides, e fui apresentando os projetos educacionais da década de 1960, anteriores e concomitantes a Ditadura. Fiz uma breve exploração aos pontos que definem a Educação Crítica, e fui mostrando como o Regime Militar tentou negá-la, sobretudo a partir do Ato Institucional de número 5. Apresentei os projetos de formação sugeridos para o período de repressão, e fui mostrando ações que resistiram a eles. As Universidades Públicas exemplificavam a resistência. O próprio Dermeval Saviani, autor estudado, escreveu uma tese subversiva durante o período: “Educação Brasileira: estrutura e sistema”.

(Sobre Dermeval Saviani)

Em um primeiro momento da disciplina, foi feita, por mim, uma avaliação diagnostica. A partir da observação à turma, fui notando: o modo como compreendem os textos lidos, as formas de expressão, as posturas. Isso foi, aos poucos me preparando para planejar as aulas que ficariam sob minha responsabilidade, a partir de um dado momento. Na docente preceptora, observei pontos que também foram fundamentais ao preparo: modo de organizar os momentos da aula, maneira de tratar as pessoas (estudantes e quem chegava na sala), forma de perceber o Ensino da História, as atitudes diante de perguntas que sabia e que não sabia responder. Foi uma introdução minha nas atividades. No segundo momento, quando passei a ministrar aulas, sempre fazia autoavaliações ao fim de cada tarde de trabalho. Elas serviam para tornar perceptíveis os meus acertos e equívocos, e colaboravam com o planejamento das ações seguintes. Ao mesmo tempo, avaliava, durante essas aulas, a postura discente e a postura docente, que me ajudavam a pensar e repensar ações posteriores.

Em todos os dias, com seus acertos e erros, estava, sem perceber, construindo-me docente. Notei que não é algo simples. É uma construção repleta de contradições. Como tudo, o estágio foi repleto de muitas sensações e impressões. Prevaleceu a alegria de trocar ideias com pessoas. Penso que foi um produtivo momento. Finalizei essa etapa sentindo-me uma pessoa e estudante melhor.

Sobre o autor

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É Pedagoga, Mestra em Educação e autora da obra "Uma década de PROSA". Busca desenvolver, por meio desta coluna, reflexões majoritariamente autobiográficas sobre as condições de vida das pessoas de origem interiorana, especificamente do interior de Alagoas. Escreve, comumente, crônicas e artigos de opinião, mas também utiliza-se da linguagem poética, quando pertinente à temática destacada.


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