Resenha: Dylan Dog – Retorno ao Crepúsculo

Resenha: Dylan Dog – Retorno ao Crepúsculo

08/19/2021 0 Por Maxson Vieira

Publicada originalmente na Itália em 1991, essa edição foi lançada no mercado brasileiro em 2017 pela editora Lorentez numa tentativa de reintroduzir o personagem no país

Para quem ainda não conhece o personagem, Dylan Dog é um ex-policial de Londres que resolveu largar o emprego e se dedicar a investigar crimes que envolvem o sobrenatural, daí o seu apelido “Detetive do Pesadelo”. Sua publicação teve início no final da década de 1980, na Itália, e alcançou enorme sucesso, batendo recordes de venda. Na década de 1990, chegou a vender mensalmente mais um milhão de exemplares somente em seu país de origem.

Esse volume possui roteiro de Tiziano Sclavi e arte de Giuseppe Montanari com Ernesto Grassani, e é uma das melhores histórias que li do personagem. As primeiras 30 páginas são fantásticas, sendo que o autor nos apresenta um conceito chamado mesmerismo. Mesmerismo é uma teoria sobre o magnetismo animal, e hipoteticamente usado para hipnotizar as pessoas no instante da sua morte e fazê-la esquecer de que morreu.

A história começa mostrando Dylan Dog relembrando um caso de alguns anos antes. Envolve um pseudocientista que usa o mesmerismo para manter as pessoas numa espécie de “sobrevida”, mesmo após a morte. Nesse flashback, é mostrado uma cidade constituída somente por pessoas mesmerizadas, em que elas vivem o mesmo dia repetidamente, sempre fazendo as mesmas coisas e vivendo as mesmas situações, exatamente como o dia anterior. Dylan tem essa lembrança, pois foi procurado por uma figura misteriosa que queria saber um pouco mais sobre essa cidade. Ao final do misterioso encontro, Dylan descobre que essa pessoa é filha do professor Hicks, um de seus maiores inimigos.

Mesmo com muitos receios, Dylan procura o professor Hicks para conversar e descobre que a sua filha tem um grave problema de saúde. O corpo da garota se degrada velozmente com o tempo e ela precisa que Dylan a leve para a cidade dos mesmerizados. Nesta cidade, os mortos-vivos têm seus corpos constantemente recuperados pelo suposto cientista. Ele usa um soro que conserva os corpos por um tempo e reaplica o produto de tempos em tempos.

Dylan aceita levar a mulher até lá, mas dispensa o pagamento. Após chegar à cidade, eles caem num redemoinho temporal que faz os dois viajarem através do tempo e espaço até um lugar chamado Zona do Crepúsculo. Após longa discussão com o suposto cientista, que envolve até a figura do Allan Poe, Dylan consegue voltar para a sua realidade, num final que deixa várias possibilidades.

O tema principal dessa história é o mesmo que tortura a humanidade há séculos: Como enganar a morte. As lendas que giram em torno da busca da imortalidade são contadas desde séculos anteriores à Era Comum, como no conto de Gilgamesh, e vêm sendo recicladas desde então. Na Idade Média, os alquimistas procuravam a “pedra filosofal” que poderia dar origem ao elixir da vida eterna. Outros mitos que prometem a vida eterna são amplamente divulgados no nosso tempo, sendo que o mais popular deles gira em torno do fantasma de um Judeu morto há dois mil anos. Esse fantasma irá levar para o paraíso as pessoas que seguem determinadas regras. Mais recentemente, devido à popularização de pseudociências, existe a crença de que a humanidade alcançará a imortalidade ao transferir a sua consciência para o mundo virtual. Mais voltado para a ficção científica que para a realidade, essa teoria faz mais sucesso entre amantes de séries de TV do que entre os cientistas. Outra teoria que não percorre os caminhos da ciência é o “mesmerismo”. Criada no século XVIII pelo alemão Franz Mesmer, essa teoria afirma que todos os seres vivos possuem uma espécie de “força invisível” que pode se manifestar fisicamente e até promover a cura.

O mesmerismo caiu por terra após os estudos sistemáticos dos fenômenos magnéticos e elétricos. Após o surgimento do eletromagnetismo como área de estudo e da evolução da medicina, houve a descoberta de que os nervos dos seres vivos são controlados por impulsos elétricos. Apesar do fato destas descobertas terem ocorrido por volta de 150 anos atrás, o mesmerismo sempre volta à tona através de grupos com “jovens místicos” em busca de unir ciência e misticismo. Um colega de profissão sempre brinca sobre este fato, falando que essas pessoas são graduadas na faculdade de “Ciências Ocultas e Letras Apagadas”. E não custa lembrar os perigos da não crença na ciência, que levou à morte quase meio milhão de brasileiros (esta resenha foi escrita em Junho de 2021).

No início dessa leitura, fiquei com a impressão de que esta seria a melhor das histórias que, até então, já tinha lido da Editora Bonelli. O roteiro e os desenhos nas primeiras 30 páginas são completamente fora de série. Mas o autor se perde um pouco na questão do redemoinho temporal, das realidades paralelas, e o roteiro se torna um tanto confuso. Nos momentos finais da história, o autor consegue retomar o caminho, mas fiquei com a sensação de desperdício de um bom roteiro.

Os desenhos, feitos por Giuseppe Montanari, com Ernesto Grassani, são espetaculares. Os artistas conseguem criar uma impressionante tensão ao desenhar os cenários, que lembram muito um jogo do PlayStation 1 chamado Sillent Hill. Nesse jogo, toda a cidade está envolta por uma névoa que dificulta a visualização do cenário. Esse mesmo efeito é encontrado em várias páginas dessa história.

Essa edição teve uma tiragem bastante limitada, comercializada somente em bancas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, e está esgotada há alguns anos. Resta a torcida para que a editora Mythos, atual detentora dos direitos de publicação do personagem, a reimprima.

Para quem gosta de histórias de mistério e terror, é um prato cheio e recomendo muito a sua procura em sebos.

 

Por Maxson Vieira