A grande farsa

“O realismo mágico está cada vez mais previsível.”

 

Esta é uma publicação do ano de 2020 da editora Comix Zone, que traz num único encadernado as duas histórias produzidas pelo grande roteirista argentino Carlos Trillo e desenhada pelo seu compatriota Domingo Mandrafina. No maior e mais importante festival de quadrinhos do mundo, Festival de Angoulême, na França, A Grande Farsa ganhou o prêmio de melhor roteiro em 1999, e apesar de ter sido escrita no início dos anos 90, ele continua mais atual do que nunca no Brasil.

A história se passa em um país sul-americano genérico, governado por um ditador que se autointitula “Supremo Governante”. Esse ditador, apesar de governar com mãos de ferro, possui receio que a elevada taxa de natalidade do país traga problemas para ele, já que os filhos dos pobres tendem a se revoltar contra a ditadura e a participarem de grupos revolucionários. Sendo assim, pede ajuda a um famoso escritor de fantasia, chamado Meliton Bates, para que ele bole alguma saída a fim de reduzir a natalidade dos mais pobres.

O escritor tem então uma grande ideia: criar um mito em torno da sobrinha do ditador, chamada Malinche Centurion. O plano é criar uma história que ela é uma virgem, intocada por homens, que guarda toda a pureza, e junto a isso é capaz de promover curas milagrosas. Haverá também a propagação de que toda mulher deverá se guardar e evitar o sexo. Desta forma, as mulheres mais pobres e sem estudo acreditarão e deixarão de fazer sexo com os maridos e namorados, evitando assim a gravidez e reduzindo as taxas de natalidade. Mas um fato era muito bem escondido: o ditador e a sua sobrinha eram amantes.

O plano estava indo bem até Malinche trair o ditador e alguém conseguir fotos do ato. Essa pessoa ameaça divulgar as fotos caso não tenha seus pedidos realizados. Celine, então, procura (num bordel de quinta categoria) um antigo policial alcoólatra, chamado Donaldo, para que a ajude resolver a situação. Com a sobrinha sumida, o ditador coloca o seu pior agente da ditadura para procurá-la, o temível Iguana. Esse agente possui a pele parecida com um lagarto, língua bipartida, é tido como imortal e os rumores é que, de tão mal que é, consegue matar apenas com o olhar. A partir de então, a história se transforma em uma perseguição do iguana à Virgem, enquanto ela tenta fugir com a ajuda de Donaldo.

Nada mais atual que essa história de um ditadorzinho que tenta manipular pela fé a população, para que esta acredite que ele é um representante de Deus e irá salvar o país. Nada mais atual também que um ditadorzinho pregar ser o detentor da moral e bons costumes, mas que, na realidade, é um hipócrita imoral, corrupto e que quer manter seu status e da família.

Referência direta a Gabriel Garcia Marques.

O roteiro do Carlos Trillo é muito bem construído, e há bastante semelhanças com dois dos maiores autores da américa latina: Gabriel Garcia Márquez e Jorge Amado. Do primeiro, é evidente a influência do Realismo Fantástico, no qual os elementos da realidade se misturam com a fantasia e sonhos, tendo até uma referência direta proferida pelo personagem escritor Meliton Bates. O maior exemplo disso na obra é o agente Iguana, que possui capacidades sobrenaturais. Do Jorge Amado, são bastante presentes os bordéis, como em Tocaia Grande e Gabriela – Cravo e Canela, e o clima boêmio, triste, mas preocupado de certos personagens como em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água.

Um ponto interessante do roteiro é a forma com que o ditador controla a população. Esse controle ocorre em duas frentes, uma com a figura da Virgem Imaculada, e a outra com a presença do terrível Iguana. Ou seja, o ditador governa o país como bem quer, utilizando a fé e a força, a figura da esperança e a figura do terror. A América Latina já experimentou diversas formas de controle pela força, terror e tortura, e está começando a experimentar o controle pela fé. Incrível como o sistema político do Irã e Afeganistão, países onde há apenas o poder da igreja, está sendo replicado do outro lado do mundo.

A arte do Domingo Mandrafina é muito bonita, com uma riqueza gráfica incrível, digna de mestres das histórias noir. Ele lança mão, de forma bastante eficiente, do branco e preto chapado, bem como de sombras, para criar um clima dúbio, o que deixa a história ainda mais interessante.

A edição traz ainda uma história solo do Iguana, numa espécie de continuação da história principal. Esse personagem é muito importante para a narrativa, pois mostra como o terror age sobre a mente da população, sendo que a simples lembrança de tal agente contribui para o medo da desobediência ao ditador. Imagine então vários Iguanas armados e prontos para torturar e matar quem pensa diferente, espalhados pelo país.

Gostei muito da leitura e, para quem gosta de histórias Noir ou do gênero realismo fantástico, é uma ótima recomendação.

A edição da editora Comix Zone vem com capa dura, miolo em papel off set de alta gramatura, 224 páginas em preto e branco. O preço de capa é de R$ 89,90, mas está esgotado já há algum tempo. Vamos torcer para que a editora faça uma reimpressão, pois vale cada centavo investido.

 

Por Max Vieira

Sobre o autor

Formado em Física, Mestre e Doutor em Engenharia Espacial / Ciência dos Materiais. Fã de J. R. R. Tolkien, José Saramago, Sebastião Salgado e Ansel Adams. Passou a infância e adolescência dividido entre Astronomia, quadrinhos, livros e D&D. Atualmente é professor do IFBA.


4 Replies to “A grande farsa”

  1. Lohan Dias

    Genial. É impressionante como todas as mídias (que se prezem) mostram o qual o fanatismo religioso no meio político é destrutivo, e mesmo assim a grande maioria se mantém cego a isso. São os mesmo que lêem a revolução dos bichos e acha que é um livro sobre fazenda.

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