Será que é preciso ser cubano para cometer erros médicos? E, mais importante que isso, já que a maioria dos médicos atuando no Brasil são brasileiros, será que eles erram pelo menos de vez em quando?

 

Em 14 de novembro de 2018 Cuba retirou seus 8.332 profissionais do Programa Mais médicos, deixando em situação precária ou inexistente o atendimento nas regiões mais pobres ou remotas do País. Um dos fatores decisórios para tal ação foram as críticas do presidente recém-eleito Jair Bolsonaro ao regime de contratação e atuação daqueles médicos.

Em novembro de 2018 foi dito que médicos cubanos – segundo Bolsonaro, que deve entender muito de medicina – estariam incorrendo em “verdadeiras barbaridades” nos consultórios de atendimento.  Mas a crítica não surpreende, afinal, já em 2013, no início do Programa Mais Médicos – Bolsonaro, que sempre que pôde menosprezou aqueles profissionais – comparou os médicos cubanos a açougueiros.

O Programa Mais Médicos foi criado pelo PT em 2013 e os primeiros profissionais chegaram ao país em agosto daquele ano. Desde então, os principais opositores que eles encontraram foram justamente seus colegas de jaleco.

Afinal, se temos mais médicos disponíveis as filas de pacientes desesperados por atendimento diminuem. Com clientela menor, o médico é obrigado a, pelo menos, prestar atenção no que o cliente está dizendo antes de prescrever o tratamento. Medicina é um negócio como qualquer outro.

Logo surgiram denuncias contra os cubanos. Eram termos escritos de forma semicerta em solicitações de exames, registros de procedimentos incorretos e toda sorte de críticas.

A principal arma dos médicos brasileiros contra a concorrência nos negócios foi a internet. Criou-se até um blog o “maismedicos.tumblr.com” exclusivamente com a finalidade de expor supostos erros dos cubanos, como se médicos brasileiros não cometessem erros também.

Durante o rigoroso inverno fluminense de 1980, no município de Cabo Frio, Maria e Antonio internaram seus dois filhos Carlos e Moacir*, ambos vítimas do sarampo em um hospital da região. Uma semana depois, Carlos já recuperado obteve alta do hospital ao passo que Moacir deveria seguir internado. No entanto, um erro médico faria com que Moacir fosse mandado para casa no lugar de Carlos.

O sarampo foi descoberto em 1670, por Thomas Sydenham, e é uma doença infectocontagiosa aguda, provocada por um vírus que se espalha por todo o corpo e afeta principalmente o aparelho respiratório. A má alimentação e o contato com a variação de temperaturas podem favorecer o agravamento da doença cujos principais sintomas são: febre, perda de apetite, conjuntivite, tosse e dificuldades respiratórias.

Em alguns casos, conforme mencionado pela revista científica PEBMED, quando coexistem agravantes específicos, como a ocorrência de crupe ou pneumonia, o paciente pode necessitar de suporte ventilatório.

Nosso querido Moacir, devolvido para casa por engano, sem suporte ventilatório e sob um inverno com temperaturas noturnas abaixo dos 10 graus e diurnas acima dos 40 graus, teve complicações respiratórias severas que lhe renderam danos neurológicos irreversíveis. Pelos próximos 38 anos de sua vida vegetativa, Moacir dependeria da família para realizar as mínimas tarefas.

Aí alguém pode dizer que este é um caso isolado. Vejamos os fatos.

Em 2014 uma equipe do Hospital Beneficência Portuguesa, esqueceu uma gaze dentro do abdômen de uma paciente após realização de um procedimento para retirada de apêndice.

O senhor Antonio César teve a perna errada amputada em 2013 por médicos do Hospital Universitário Pedro Ernesto (RJ). Logo após perceber o erro, decidiram amputar também a perna certa.

Em 2010 no Hospital Municipal do Campo Limpo (SP) uma jovem perdeu seu bebê devido à imperícia médica que resultou num ferimento por bisturi no feto durante procedimento cesariano. Neste caso, com o agravante de que a equipe médica tentou adulterar dados referentes às condições da gestação e do óbito.

Não. Não são casos isolados. De acordo com dados apresentados no segundo Anuário da Segurança Assistencial Hospitalar deste ano em São Paulo, por hora morrem 06 pessoas no Brasil, vítimas de erros médicos.

Segundo o relatório apresentado, só em 2017 foram mais de 54 mil pessoas vítimas dos chamados eventos adversos graves.

Evento adverso grave é o termo bonito para disfarçar o fato de que um médico errou e causou a morte de um paciente. Como é habitual entre os brasileiros, gostamos de criar termos ambíguos para encobrir o real significado das coisas.

Mas talvez os dados sejam ainda piores, pois, como são os próprios médicos que emitem a declaração de óbito, certamente muitos “eventos adversos graves” devem ser registrados como “parada respiratória”, “parada cardíaca” ou “falência múltipla de órgãos”.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2016 pela UFMG, o problema pode ser ainda maior. Os dados da pesquisa indicaram que, por ano morrem mais pacientes vitimados por erros de dosagem de medicamentos, uso incorreto de equipamentos e infecção hospitalar do que em razão de doenças cardiovasculares e do câncer.

Mas, e os médicos cubanos?

Por incrível que pareça, já existia desde 1997 um parecer do Conselho Federal de Medicina tratando da questão da atuação de médicos cubanos no Brasil. No parecer emitido pelo setor jurídico em 18/09/1997 observa-se diversos pontos limitantes para a atuação dos profissionais, bem, como é mencionado diversas vezes, quanto à possibilidade de punições diante da ocorrência de erros ou extrapolações dos objetivos da cooperação Brasil/Cuba.

Em 1999 o CRM de Tocantins conseguiu, por meio de uma liminar, impedir e por consequência expulsar um grupo de médicos cubanos que atuavam no Programa Saúde da Família (PSF) em 48 cidades, sob a alegação de que sua prática assemelhava ao curandeirismo.

O mais curioso é que, se pesquisarmos, tanto relatos oficiais daquela época quanto os relatos do momento recente, não encontramos registros de “eventos adversos graves” envolvendo médicos cubanos.

Não é o caso de eles não serem monitorados. Desde o retro mencionado parecer emitido em 1997, os atos médicos dos profissionais cubanos, conforme o documento deixa claro, estão sujeitos à supervisão de profissionais brasileiros.

Ainda assim não pesa contra os cubanos um registro oficial de erros, e erros graves fatais tampouco. O que sugere que os erros repassados nas redes sociais superestimavam as ocorrências.

Fica claro, portanto, duas coisas: primeiro, os médicos brasileiros não estavam preocupados com a preservação do bem-estar dos clientes brasileiros. Estavam preocupados, sim, em manter o mercado aquecido, com filas de espera de preferência. Quanto mais gente desesperada por atendimento, melhor para o profissional que comercializa seus serviços; segundo, é tendenciosa e maldosa a afirmação ou suposição de que aqueles profissionais estão despreparados em comparação aos profissionais brasileiros. Isso porque, em novembro de 2019, uma série de universidades e faculdades de medicina anteciparam suas colações de grau objetivando colocar seus médicos novatos no mercado para substituir os cubanos expulsos.

Seria inocência demasiada acreditar que os meninos e meninas saindo dos cueiros do aprendizado venham a cometer menos erros que médicos já experientes sejam de Cuba ou de onde for. Com sorte pesquisarão no Google para não lançar o CID errado num atestado ou prescrever Haldol para combater parasitos.

Além do mais, o Programa Mais Médicos atendia principalmente comunidades pobres com demandas de saúde comuns entre os mais pobres. A maioria dos meninos brasileiros que estuda medicina nunca viu um pobre de perto, exceto nos ambulatórios da faculdade. Já os cubanos, nem precisamos falar.

Ninguém discorda que errar é humano. Mas, médicos não gostam de serem vistos como tais, portanto, que pelo menos admitam que para cometer erros não é necessário ser cubano, basta não serem os semideuses que sugerem ser.

*Os nomes foram trocados, mas os fatos são reais.