De 11 a 14 de outubro aconteceu, na Cidade de Cachoeira na Bahia, a já tradicional Festa Literária Internacional de Cachoeira (FLICA). Como amante dos livros que sou, decidi, juntamente com minha esposa, visitar o evento.

Gostamos de comparecer às feiras porque elas geralmente representam a oportunidade de estarmos em contato com grandes quantidades e variedades de objetos do nosso interesse, sejam eles carros, modelos de negócios, artesanatos, animais ou até mesmo livros.

Independentemente do objetivo central desses eventos, eles são oportunidade para traçar contatos, fazer amizades, conhecer novidades e, é claro, adquirir produtos e ideias por preços convidativos.

Determinados a conhecer um pouco da cidade, chegamos mais de três horas antes do início do evento, de modo que pudéssemos dar umas voltas pelos arredores e conhecer locais interessantes como a ponte sobre o Rio Paraguassú, que liga Cachoeira à cidade de São Félix, à casa onde nasceu o jornalista Ernesto Simões Filho, uma convidativa feira de artesanato e o Mercado Municipal.

Salão do Convento de Nossa Senhora do Carmo.

A programação do evento teve inicio mais ou menos às dez horas da manhã. Pelos arredores do Convento Nossa Senhora do Carmo, que abriga as palestras e a feira principal de livros, ocorriam diversas ações complementares e que deram brilho especial ao evento: voltada para o público infantil, tivemos sessões de teatro, performances de palhaços, contadores de histórias, espaços públicos de descanso decorados com almofadas, pufs e tatames. Destaque para o palhaço Mandioca, integrante do ônibus literário da Fundação Pedro Calmon. Essa foi a Fliquinha – apaixonante!

Já nós, os adultos, pudemos encontrar nos arredores do evento alguns restaurantes que possibilitaram conhecer um pouco da culinária local, havia alguns grupos de samba, pontos históricos para quem estivesse disposto a andar e, em determinado local, era possível retirar livros gratuitamente.

Aí você me pergunta: – E a FLICA?

A FLICA, enquanto feira literária internacional, a meu ver, ficou aquém do esperado. Primeiro porque eram bem poucos os livros de literatura estrangeira – em sua maioria se limitava às obras da Sylvia Day (logo na entrada), George Martin e Victoria Aveyard.

Quanto às obras de autores nacionais era possível encontrar grandes nomes, como o sociólogo Jessé Souza, o poeta Paulo Leminski e o jornalista Germano Machado. Além disso, também estava disponível conteúdo de gosto duvidoso, produzido por nomes como Kéfera, Authentic Games (Marco Túlio) e Marcos Mion.

Outro ponto que chamou a atenção positivamente foi o fato de estarem presentes, no evento, diversas prateleiras de editoras não muito conhecidas como a Humanidades e Solisluna, bem como a EDUFBA e a EDUNEB, ambas representando Universidades Públicas por meio de suas produções.

Conteúdos ativistas e os altos preços marcaram a FLICA 2018.

Decepcionou-me, todavia, os seguintes fatos: a maioria dos livros estava com o valor muito acima daquele que costumo encontrar em livrarias da Capital baiana. Um livro do Martin, que custa cerca R$ 40,00 em Salvador, custava R$ 69,90 na FLICA. Outro exemplo são os livros da série Harry Potter, que são encontrados nas livrarias pelo preço de R$ 29,90 a 39,90 e que no evento custavam R$ 59,50 cada. Esses são apenas dois exemplos daquilo que observamos prateleira por prateleira – valores superfaturados.

A feira decepcionou também quanto à variedade esperada dos temas oferecidos. Em sua maioria, as obras tratavam de temas ligados às religiões de matrizes africana e temas relacionados ao feminismo e ao racismo. Não que os temas não sejam relevantes, mas parece-me que empobrecemos um evento se damos demasiada ênfase aos ativismos, torna-se um “mais do mesmo” e sugere que só sabemos falar dessas contemporaneidades em detrimento de outras tantas que se fazem tanto prementes quanto estas.

Outro ponto negativo, a meu ver, foi o uso do evento para militância política. Não bastasse o explícito partidarismo político presente no discurso de alguns palestrantes, por todo o evento eram distribuídos adesivos da campanha de determinado candidato à Presidência da República, o que não parece correto considerando que a feira recebe incentivos do Governo Estadual e, portanto, dinheiro público.

De todo modo, concluímos que esta edição da FLICA foi vantajosa pelo ambiente e pela possibilidade de contato com pessoas que possuem interesses culturais afins. Foi atraente, não pela feira em si, mas pelos eventos que ocorreram nos arredores, ligados a ela. Quanto ao resto, não passou (na nossa percepção) de mais do mesmo, como estar num Campus da UNEB ou UFBA no dia a dia, pois os conteúdos das discussões provocadas por determinados grupos são previsíveis.

Correndo o risco de ser injusto e talvez exagerado posso dizer que visitar a FLICA foi algo como ir para o carnaval, sair no mesmo bloco, com a mesma banda, ano após ano. Ou seja: ver mais do mesmo.

Imagens: Ana Silva