Antes de pensar em fazer sucesso deveríamos focar naquilo que a literatura tem para nos oferecer, no quanto podemos amadurecer com a sua ajuda.

Algo bem comum nas oficinas de escrita criativa é aquele chato que pretende criar uma saga cósmica ou uma trilogia medieval. Invariavelmente são fãs de Star War e similares, tudo aquilo que se convencionou chamar de cultura pop.

Eu entendo bem a empolgação. Nos tempos em que eu colecionava histórias em quadrinhos, criava meus próprios super-heróis e sonhava em vê-los publicados. Eram sempre cópias do material que eu costumava ler. Ainda não havia me dado conta de que os quadrinhos são uma mídia poderosa e que vão muito além do universo nerd. Na verdade, à época, tudo o que me interessava era esse universo.

Sonhávamos, meus amigos e eu, em desenhar tão bem quanto o Jim Lee, Greg Capullo, e tutti quanti. Achávamos que seria possível chegar lá copiando os desenhos desses artistas. Demorou um pouco até que eu percebesse que seria preciso desenhar utilizando fotografias e modelos vivos como referências. Copiar exclusivamente os desenhos estilizados deixaria o meu traço cheio de cacoetes.

Algo semelhante aconteceu com a música. Durante a adolescência, como boa parte dos meus amigos, resolvi montar uma banda de rock. O som era horrível. A sorte é que nunca tivemos grandes pretensões. Queríamos apenas nos divertir. Como todos os adolescentes, nós tínhamos nossas roqueiros favoritas e isso refletia no tipo de música que fazíamos. Certo dia, ao ouvir algumas gravações que havíamos feito em estúdio, um amigo perguntou: “Que banda é essa? Legião Rural?”.

Aquele deboche me fez perceber o quanto estávamos nos esforçando para copiar algo que considerávamos de valor. Não havia nenhuma originalidade no que estávamos fazendo.

Na escrita tive um pouco mais de sorte. Talvez pelo fato de os meus referenciais virem do jornalismo literário e não da literatura. Eu nunca quis escrever ficção espacial ou histórias de fantasia no estilo medieval. Livros como O senhor dos anéis nunca fizeram minha cabeça. Dentro do universo ficcional me interessavam mais as crônicas do Rubem Braga, os contos do Fonseca, os romances do Machado e do Lima Barreto.

No entanto, eu também os copiava. Não copiava as histórias ou as tramas, mas alguns detalhes técnicos que ia percebendo com muito esforço. O humor ácido de Lima Barreto e Machado de Assis, as notas de rodapé do David Foster Wallace, o estilo ensaístico de Karl Ove Knausgård, os temas regionais de Euclides Neto e Jorge Amado. Do jornalismo literário eu copiava o senso de observação e o cuidado com os detalhes que percebia no texto do Gay Talese, a prosa cortante da Joan Didion, a narrativa estruturada do Truman Capote, as onomatopeias do Tom Wolfe.

Se não sou um escritor melhor a culpa é da minha falta de talento. Meus referenciais foram muito bons e muito variados. Tentei beber em fontes diferentes, aprender um pouco com cada um, ter a realidade como matéria prima – mesmo se estiver escrevendo ficção espacial. Alguns jovens escritores parecem não perceber que são as analogias ao real e a tudo que é humano que fazem o diferencial das grandes obras, não importa o estilo. Focam apenas na perfumaria, nos detalhes sobrenaturais, na ficção científica. Tudo isso, da forma que entendo, deveria servir de ferramenta para contar uma boa história, uma que falasse de valores e interesses humanos.

Mas, lemos muito mal. Lemos pouco e quase sempre histórias muito parecidas. Não há preocupação com a multiplicidade de formas e estilos. Não há preocupação com o simples desenvolvimento da linguagem. O que muitos aspirantes a escritores desejam é fazer sucesso. O caminho escolhido é copiar quem fez sucesso.

Assim como muitas bandas de garagem perecem por sua irrelevância, assim como muitas histórias em quadrinhos mofam esquecidas em gavetas, as criações literárias desses autores nunca verão a luz do dia. Talvez eles não tenham entendido que o mais importante da literatura é saber o que ela pode fazer por você, o quanto ela pode te mudar, te fazer amadurecer. Você não precisa ser um escritor de sucesso. Pode escrever para si mesmo ou para meia dúzia de amigos. O importante é que esse exercício te faça compreender melhor o mundo que nos cerca. Viver da escrita seria um acidente, como ganhar na Mega-Sena acumulada.

O importante é aperfeiçoar aquilo que você realmente é. Mas essa é uma lição que não interessa a muitos. É bem mais excitante correr atrás do sucesso mundial, mesmo que suas chances não sejam lá muito significativas.

 

José Fagner Alves Santos

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