Há aproximadamente um ano voltei a ler histórias em quadrinhos. Confesso que não consigo me reaproximar do gênero de super-heróis e derivados, mas – entre as revistas seriadas – sou capaz de ler Tex (o caubói italiano) e alguns outros títulos similares.

Em decorrência do estresse que me foi causado pelo mestrado, procurei algum tipo de leitura que fosse mais leve, mais descompromissada, que pudesse ler numa única sessão. Os heróis de collant fizeram parte da minha infância e adolescência, mas hoje, a temática me soa muito pueril. Fiz esforço para reler algo. Comprei relançamentos de algumas histórias que eu gostava muito no tempo de criança, tentei ler. Fracasso total. Já não é mais para o meu gosto.

Tenho plena noção de que o ranger produzido pela Bonelli Editore também tem sua dose de simplificação e puerilidade, mas que ao meu gosto pareceram menos agressivas. No entanto, basta prestar um pouco mais de atenção ao mercado editorial de quadrinhos para perceber que existe um leque de opções muito variadas.

Produções como Maus, de Art Spiegelman, Fax De Sarajevo, de Joe Kubert ou Transubstanciação, do Lourenço Mutarelli – só para ficar nos primeiros exemplos que me vieram à mente – provam de que as histórias em quadrinhos não precisam ser coisa de nerd. Na verdade, um filhote panda morre toda vez que alguém diz que gosta de “quadrinhos e todas essas coisas de nerd”.

Sempre enxerguei as histórias em quadrinhos como um gênero narrativo, como o cinema, o conto, o romance, a novela, o ensaio, a crônica e tantas outras formas. Você pode produzir conteúdo voltado ao público nerd usando esse recurso, mas também é possível produzir qualquer outro tipo de narrativa. Veja o exemplo do cinema.

Compartilhei aqui um vídeo sobre o quadrinho independente no Brasil, produzido pelo canal Papo Zine. Vi muitas das minhas ideias expostas ali. O mercado editorial brasileiro está passando por uma forte crise, muita coisa precisa ser repensada e discutida. Atualmente nós temos iniciativas como a UGRA PRESS, mesmo assim ainda estamos muito carentes. Precisamos de vários outros projetos semelhantes. Mas será que existe espaço para isso? Será que o público tem interesse? Ou será que ainda é necessário criar um público consumidor?

Nós sabemos que o quadrinista independente no Brasil dificilmente consegue sobreviver do seu trabalho. Continua fazendo porque sente que precisa fazer. Assim como muitos escritores, pintores, músicos e outros tipos de artistas. As produções marginais são um bálsamo para quem está cansado do mainstream, além de uma opção viável para os artistas mais autorais.

Precisamos produzir quadrinhos com outra pegada. Precisamos nos lembrar que estamos muito mais próximos do estilo narrativo europeu do que dos comics americanos.

José Fagner Alves Santos