Quem é você quando as cortinas se fecham? Essa é uma dúvida que muita gente não consegue responder

Muita gente pareceu irritada quando Umberto Eco disse que as redes sociais deram voz a uma “legião de imbecis”. Pareciam crer que o filósofo italiano pretendia censurar ou calar a população. Boa parte das pessoas, no entanto, compreendeu corretamente aquela afirmação. O ganho que se teve com essas plataformas é inegável, mas é preciso assumir que essa é uma faca de dois gumes.

Se por um lado elas deram voz àqueles menos favorecidos, por outro, esses mesmos indivíduos – por falta de melhor instrução – servem de propagadores de preconceitos, dogmatismos, calunias, difamações, argumentos anticientíficos ou qualquer outra inverdade que caiba dentro daquilo que atualmente chamamos fakenews.

E aqui eu preciso fazer um mea culpa. Este irresponsável que vos escreve já propagou inverdades, já compartilhou boatos, já alardeou mentiras e serviu de assessor de imprensa para pautas fraudulentas. É claro que nada disso foi feito de forma consciente. Fui enganado diversas vezes, comprei as versões que me apresentaram sem fazer a necessária checagem. Nunca repasso uma informação em que eu não acredite, isso não significa que ela seja verdadeira.

Com o tempo a gente vai aprendendo, filtrando melhor, errando menos, ficando mais cético, sendo mais cuidadoso, mesmo assim eu ainda caio em algum engodo vez por outra. É comum querermos compartilhar a descoberta que acabamos de fazer, é compreensível a nossa ansiedade e o nosso desejo de ser o primeiro a mostrar aquela nova informação. O problema são as consequências. Sempre existe algum interesse por trás, mesmo quando a informação é verdadeira.

O quanto disso estaria relacionado à nossa necessidade de manter uma máscara social? Queremos posar de descolados, bem informados, inteligentes. Mas a grande verdade é que a maior parte da população tem acesso às mesmas ferramentas que eu. Internet, Whatsapp, Twitter, Facebook, são termos muito comuns na maioria das conversas hoje em dia. Jornalistas têm fontes privilegiadas, mas usuários de redes sociais só possuem acesso ao que todo mundo vê.

E tudo isso nos leva à questão dos julgamentos. Somos muito bons em criticar o comportamento alheio, dificilmente tentamos imaginar o que faríamos se estivéssemos na mesma situação.

Todo mundo é herói até que seja colocado à prova. É muito fácil julgar quando não estamos diretamente envolvidos com a situação. Mas, diante da necessidade emergencial, percebemos o quanto somo humanos, “demasiado humanos”, como diria Nietzsche. O que mais dói, no entanto, não é reconhecer sua própria fraqueza, mas perceber que a máscara caiu, que não conseguimos mais sustentar o personagem.

Fica explícito o quanto nossa hipocrisia afeta todo o nosso modo de ser. Nossos preconceitos e crenças não possuem a fundamentação que gostamos de alarmar. Na verdade, tudo é perfumaria do personagem que representamos de modo canhestro.

E é importante lembrar que esse personagem canhestro costuma se apresentar, com recursos de pirotecnia, diariamente nas redes sociais. É ali a nova ágora, a nova praça de reuniões e debates, o local em que todos são extremamente bonitos, sábios, bem informados e lacradores. Mas, como diria Emmanuel Carrère,

“Mesmo os mais seguros dentre nós, penso, percebem com angústia a discrepância entre a imagem que bem ou mal tentamos transmitir ao outro e aquela que temos de nós mesmos, na insônia e na depressão, quando tudo vacila e agarramos a cabeça com as mãos, sentados no vaso.”

Seria bom se conseguíssemos nos concentrar em transformar o eu real, em vez de perdemos tempo com as aparências, mas a segunda opção é muito mais fácil.

José Fagner Alves Santos

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