A fascinação que temos pelos EUA está, muitas vezes, ligada ao poder do cinema, da TV, dos meios de comunicação de massa em si. Apesar do desenvolvimento científico, das melhores oportunidades e da infraestrutura disponível, é da produção áudio visual que recordamos quando nos lembramos dos irmãos do norte. O modo de vida americano foi exportado para todo o mundo por meio de sua indústria cultural, e esse assunto já foi tema de vários estudos na área de sociologia e comunicação, nenhum deles conseguiu esgotar a temática, sempre muito ampla.

Também sou fascinado por esse universo estadunidense e pelo estilo de vida americano, mas acho curioso o fato de sabermos mais sobre o folclore de origem anglo-saxã do que do nosso. Renegamos nossas origens. Tratamos Portugal como um país de segunda ordem, como se não tivéssemos nada a aprender com eles. Desconsideramos todas as semelhanças dentro da cultura lusófona. Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e outros países lusófonos (falantes do português), não possuem grandes riquezas materiais. No entanto, podemos aprender muito sobre a nossa própria identidade com eles.

Pergunte a um jovem brasileiro qual foi o último livro que ele leu. A grande maioria citará alguma produção norte-americana. São raros aqueles que conhecem autores como José Eduardo Agualusa (angolano), António Lobo Antunes (português) ou Mia Couto (moçambicano). E olha que estou citando apenas as celebridades do mundo literário. A maior parte dos nossos jovens leitores está focada em Dan Brown, Nicholas Sparks e tutti quanti. Não há nada de errado em gostar de autores que escrevem em inglês ou qualquer outro idioma. Mas seria importante conhecer também aquilo que se produz em bom português, incluindo os textos de nossos irmãos africanos e portugueses.

É com a leitura que aperfeiçoamos o domínio da língua, e é assim que desenvolvemos melhor a capacidade de raciocínio. Não dá para ter noção de como pensa um americano se você não domina bem o inglês. O máximo que se pode conseguir é um arremedo de segunda mão, legado pelas traduções a que temos acesso.

Se não temos capacidade de competir com Hollywood, a produção literária em língua portuguesa, por sua vez, não faz feio. Temos bons escritores em estilos variados. Temos reflexões sobre a nossa realidade, com temáticas mais próximas da nossa realidade.

Quer ter noção do quanto precisa conhecer melhor seu próprio idioma? Comece a ler uma obra do Lobo Antunes. Comece por As Naus ou Os Cus de Judas. No primeiro você encontrará uma poética e profunda reflexão sobre a atual situação de Portugal e de sua relação para com as ex-colônias, além da desconstrução de heróis históricos; no segundo tomamos contato com a trajetória de um soldado português que vai servir o exército colonial em Angola. Vemos aí toda a transformação de valores pela qual passa esse indivíduo. Dois livros muito importante para compreender o lugar de fala dos lusófonos, nós inclusos.

Não estou pedindo que abandone suas leituras habituais, sejam elas quais forem. Estou apenas sugerindo que complemente sua lista e aumente seu repertório. Compreenda quais fatores nos trouxeram até aqui. Reconheça o esforço daqueles que vieram antes de nós. Tome posse da sua herança cultural. Você pode descobrir que ela é tão interessante quanto qualquer outra.

 

José Fagner Alves Santos

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