Quando o Psicólogo do Trabalho entrevista um indivíduo para uma vaga de emprego, ele busca, no espaço de alguns minutos, encontrar subsídios que lhe permitam optar por selecionar ou não aquela pessoa para a vaga em questão.

Trata-se de colocar o tipo certo, no lugar certo.

Ocorre, porém, que aqueles minutos da entrevista permitem conhecer nada mais que apenas um pequeno recorte do sujeito diante do avaliador. E mais que isso, na verdade ele vai manter contato com o recorte que o indivíduo escolheu cuidadosamente apresentar naquele momento. Afinal, por mais tensos que estejamos, nessas horas buscamos sempre apresentar nosso melhor.

Talvez o psicólogo jamais venha a saber dos verdadeiros anseios, dos medos, das facetas que foram ocultadas por meio de frases pensadas horas antes e das transversalidades que nem mesmo os testes padronizados poderão revelar sobre o profissional e tampouco sobre o homem ou mulher que alí está.

Porém, é este quebra cabeças com todas as suas partes que diariamente estará ocupando o lugar e a função para a qual for direcionado.

Todo seu feeling e expertise em entrevistar candidatos podem o auxiliar, mas jamais lhe darão certeza de que está optando pelo mais apto. No fundo, o que ele tem são apenas algumas peças juntas o que não é o mesmo que ter o quebra cabeças montado.

Assim como o psicólogo acima, convivemos diariamente com os recortes daquilo que as circunstâncias, a vontade dos seres e as nossas limitações nos permitem conhecer a respeito daqueles que, de uma forma ou de outra, fazem parte do nosso dia a dia.

Mais ou menos durante os dois anos mais recentes, adquiri o hábito matinal de ir trabalhar ouvindo programas jornalísticos e a versão e recorte dos fatos aos quais aderi foram aqueles apresentados pelo jornalismo da Band News FM.

No último dia 11 de fevereiro de 2019, o principal jornalista envolvido naquela programação, Ricardo Boechat, veio a falecer.

Eu, assim como a maioria dos ouvintes da programação, descobri-me também com saudades de uma pessoa com a qual em momento algum estive face a face e imediatamente me perguntei o porquê daquela inquietação.

Parece que algumas vezes os recortes vão se somando e formando um todo. Um pouco de hoje se junta com outro tanto amanhã e quando nos damos conta os fragmentos já se juntaram, fechando a gestalt dentro de nós.

Boechat facilitou esse processo.

O jornalista era conhecido por comunicar-se com seus ouvintes de forma direta, como se estivessem falando pessoalmente. Quem o assistia na televisão ou ouvia pelo rádio acabava descobrindo que por trás dele havia dona Mercedez,  a “doce Veruska”, as meninas, as listas de amigos que curiosamente sabiam,  desde 2011, o número do celular pessoal do argentino mais carioca do Brasil.

Boechat fazia mais que apresentar opiniões, ele contava coisas do seu dia a dia e por vezes falava de acontecimentos passados na sua juventude.

Quando juntamos os erros e acertos, as brincadeiras, as opiniões com as quais concordamos ou discordamos. Quando mandamos juntos com ele o Malafaia ir “procurar uma rola” ou não. Quando descobrimos através dele próprio que o careca é dependente de antidepressivos (…) aí nos surge o homem.

Parece que algumas vezes os recortes vão se somando e formando um todo,e o todo que é bem mais que a soma das partes.

Então, deixa de ser recorte, uma peça solta e de alguma forma inexplicável completa em nós o quebra cabeças e então alguém totalmente estranho e distante começa a fazer parte de nossa vida.

Jamais o conheceremos plenamente. Mas quem é que se conhece plenamente?

O fato é que um dia ele passou a ser a pessoa certa no lugar e função em que deveria estar, e isso fazia diferença nos nossos dias.