É dito que já existia música entre os homens das cavernas, os quais tentavam imitar sons de animais e da natureza como um todo. Quedas d’água, folhas ao vento ou o atrito de uma rocha na outra constituíram os primeiros sons para os homens primitivos tentarem primeiramente imitar e posteriormente ritmar.

Com o passar do tempo, aos poucos, foram incorporando palavras a estes sons da natureza e outros sons produzidos e experimentados por eles. Esses sons ritmados, com ou sem palavras, chamamos de música.

Toda música, mesmo quando composta apenas de melodia, está prenhe de uma mensagem. Pode transmitir tristeza, como em Send in the claws na versão do Frank Sinatra; redenção como em Now we are free interpretado por Lisa Gerard; força e determinação como na Marselhesa; ou propagar calmaria como Minha Tranquilidade do Nando Cordel.

A mesma música que emociona, no templo religioso, evoca energias nos rituais místicos, dá brilho do ritual matrimonial ao rito na loja maçônica. Está presente desde as brincadeiras de criança de ontem até o samba de roda tradicional em algum chão de terra do Nordeste Brasileiro.

Ecoando santidade pelas paredes da Capela Sistina ou incitando libidinosidades num pagodão ou funk nalguma viela de um bairro pobre qualquer, a música, fruto da inspiração de alguém ,serve de inspirações para outros alguéns.

Mas. se a música, fruto dos moveres internos da alma humana, é capaz de mover os indivíduos que a ouvem a sentir e pensar situações e coisas, a quê a música brasileira contemporânea nos move?

De acordo com os sites que disponibilizam listas de músicas mais tocadas, é possível dizer que de uma perspectiva geral os brasileiros têm gasto seu tempo ouvindo basicamente dois tipos de música, que são o sertanejo e suas vertentes atuais das quais predomina o sertanejo universitário e o funk e seus derivados e aproximações.

Derivado do sertanejo tradicional, o sertanejo universitário, que a cada dia se aproxima mais do forró elétrico, versa basicamente sobre amar, ser traído e tomar cerveja na balada. Igualmente ao funk que a cada dia faz parcerias e se aproxima do pagodão¹, resume sua “poesia” a não mais que meia dúzia de palavras e um refrão sugestivo, geralmente falando de sexo da forma mais vil possível, sobre cerveja e rebolado.

Aos poucos, tanto o sertanejo moderno como o funk e suas vertentes e coligações têm correspondido ao que poderíamos chamar de a verdadeira “música popular brasileira”. Ou seja, a música que a maioria do populacho ouve para relaxar ou animar seus encontros e festas.

Diariamente sujando o cérebro com mediocridades, divertindo-se ao som de músicas como “Que tiro foi esse”, “Corpo sensual” e “Várias novinhas”, o povão não imagina que possa existir um mundo onde haja coisas mais importantes que transar, beber cerveja e trocar corno.

Uma rápida verificada no ranking do Spotify permite afirmar que existem aqueles que buscam conteúdos mais diversificados, mas mesmo esse público não deixa de fora as duas principais linhas musicais do momento.

Não se trata de sugerir que seria necessário ouvir músicas de décadas passadas. Afinal, hoje existem boas músicas para todos os gostos – indo de Maria Bethania a Jorge Vercillo, passando por Djavan, Nana Caymmi, Diogo Nogueira e tantos outros. Além disso, músicas com letras de conteúdo vulgar não são nenhuma novidade. Nas décadas passadas tivemos “Gimme o Anel”, “Fogão Dako”, “Robocop Gay”, “Rala o Pinto” e muito mais.

Não deixaremos de mencionar aqui que um dos singles brasileiros mais vendidos de todos os tempos é “Conga, conga, conga”, que nada mais é que algumas palavras desconexas somadas a uma centena de gritos e gemidos.

Portanto, música de gosto duvidoso sempre existiu. E como um ponto de vendas de drogas, elas existem e se mantém por que persistem aqueles que as consomem. Se não houvesse aqueles que consomem o lixo musical, seja comprando cd’s ou lotando casas de shows, eles deixariam de existir.

A maioria das pessoas ouve esse tipo de música porque ela não exige reflexão. A letra é breve e geralmente divertida. Isso basta!

Isso revela uma maioria que não quer se envolver com questões mais elevadas. Que prefere deixar tais questões para algum herói que vai surgir e fazer tudo por elas, que faz voto de protesto sem ponderar as consequências de tal voto irracional. Que até na hora de ler jornal (quando raramente o fazem) optam pelos mais vulgares, geralmente no pior do estilo tabloide.

Hoje vivemos dias em que quase ninguém para pra ouvir o álbum de algum cantor por completo. Geralmente ouve apenas um ou dois hits ignorando o resto, geralmente por falta de tempo ou paciência.

Da mesma forma, não deixamos nossos pares concluírem suas falas, no meio da fala presumimos já ter tudo compreendido, já temos a resposta e já a estamos cuspindo no outro sem muito ou nada refletir antes.

São dias em que tudo deve ser “objetivo”. Tudo começa sem compromisso e termina porque a fila anda. Tudo tem de ser divertido, às vezes parece que estamos querendo viver sob efeito de LSD vinte e quatro horas e aquilo que não nos cause esse êxtase não presta.

Música ruim sempre existiu e sempre existirá. Ela é consequência da preguiça de quem compôs, em não buscar harmonias e poesias mais complexas. Ela pode também ser reflexo da limitação de uma sociedade que não lê quase nada. Que diante de tantos estímulos não se preocupa em selecionar, mas apenas em consumir, tendo como objeto apenas a satisfação efêmera.

As músicas que embalam o dia a dia de um povo molda o comportamento desse povo, mas também é reflexo de suas aspirações. Através do que ouvem as pessoas dizem se querem ser respeitadas ou tratadas como objetos de prazer descartável. Se possuem alguma preocupação com seu futuro ou apenas estão contentes com a água e o capim que aqueles que olham de cima lhes está permitindo experienciar.

Ao que tudo indica, para a maioria não importa se vive numa ditadura disfarçada de democracia, num socialismo hipócrita e utópico ou num liberalismo desmedido que lhes conduza à escravidão. Vivendo não muito acima das bestas, o que lhes importa é comer, beber e procriar.

Tal modo de vida deve equivaler às sinfonias dos mais profundos infernos.

 

  ¹ Pagodão é um tipo de música surgida nos anos 1990, na Bahia,  e que mistura kuduru, cavaquinho, recursos eletrônicos,  e em suas letras predominam referencias ao ato sexual. Por vezes é chamado também de swingueira ou pagode baiano. Atualmente é exportado para outros estados, principalmente através do pagofunk, uma mistura do pagodão com o funk.