Se você quer desenvolver o seu texto, é preciso ler. Leia tudo que tiver acesso, mas dê prioridade para a leitura que mais se assemelha ao tipo de texto que você quer produzir

Para fugir dos resultados entediantes, escritores costumam variar as estruturas dos seus textos. Quanto mais bem elaborada for a escrita, melhor deverá ser o leitor que irá fruir dela. A produção jornalística – apesar de todo o esforço feito pelos comunicadores – é o setor mais preso às estruturas pré-estabelecidas. É claro que o bom jornalista está sempre tentando desenvolver uma redação menos técnica, mais leve e pessoal. Suas limitações, no entanto, são sempre maiores que a de um ficcionista. Mesmo assim, jovens aspirantes reclamam da imensa dificuldade em desenvolver esse tipo de texto, mesmo tendo uma estrutura pré-estabelecida para servir de base.

O maior problema, a meu ver, é a falta de leitura ou a falta de variedades naquilo que se lê. Tem um monte de novos redatores que não gosta de ler. Informam-se pelos telejornais ou pelos programas de rádio. Seus exercícios de leitura limitam-se a algum romancista da moda, quando muito.

Devorar o jornal escrito diariamente pode fazer toda a diferença entre um texto bom e um ruim.A leitura diária serve de lastro para o alargamento de nossa cosmovisão, para melhorar nossa capacidade de articulação e consequentemente de escrita. É comum perceber como aprendemos a escrever determinadas estruturas frasais apenas por vê-la grafada várias vezes, mesmo sem o conhecimento gramatical adequado. É muito mais fácil compreender as regras gramaticais depois que elas já foram internalizadas.

É também por meio da leitura que tomamos contato com estruturas de pensamento mais bem elaboradas, argumentos que seriam difíceis de se trabalhar no rádio ou na TV. O texto escrito estimula o desenvolvimento do nosso senso crítico e fomenta em nós a necessidade de buscar sempre a melhor forma de dizer algo, de formular conceitos, de estruturar argumentos.

A decodificação dos sinais gráficos vai se tornando mais fácil a cada novo exercício. Com o tempo nossa leitura se torna mais rápido, mais ágil, mais certeira. Somos capazes de entender o que está escrito nas entrelinhas, aquilo que o autor não disse explicitamente, mas está ali.

Diante de tudo isso, é natural que tenhamos melhor embasamento para o desenvolvimento de nossos próprios textos, principalmente com o auxílio das estruturas textuais pré-estabelecidas. Aquilo que era dificuldade no início passa a ser um recurso norteador com o desenvolvimento da experiência.

É preciso, no entanto, deixar claro que nada disso vem da noite para o dia. Tanto a leitura quanto a escrita são atividades que exigem tempo significativo de treinamento. Não adianta se iludir. Só com muita prática e perseverança pode-se chegar a um nível razoável de proficiência. Dedicar-se por anos a essas duas atividades deveria ser obrigação de todo cidadão que quer participar ativamente da sociedade, não só daqueles que vivem da escrita.

Apesar disso, o que temos é um país de pessoas que terminaram a faculdade, mas que são incapazes de compreender um texto maior que três parágrafos. Pessoas incapazes de redigir uma argumentação coerente ou descrever um acontecimento qualquer. Tudo isso seria sanado com um pouco de leitura diária. Se você pretende seguir no jornalismo, é importante que leia jornais. Não basta acompanhar a versão televisiva, é preciso ler. Se você pretende ser um romancista, leia os clássicos, não fique preso apenas àquele autor que você gosta. Se você é estudante, leia tudo que tiver acesso. Esse exercício fará toda a diferença lá na frente.

Tudo que vale a pena leva tempo para ser construído. Não caia no engodo de achar que depois você lê, que depois você estuda. A vida passa rápido e não há como retroagir. Mas você também pode abrir mão de tudo. Só não reclame das consequências.

 

Post scriptum: Concluo aqui os textos publicados para os alunos do nono ano da Escola Estadual Jacques Maritain. Na próxima quinta-feira, dia 30, teremos uma oficina sobre jornalismo na qual fecharemos a primeira edição do jornal O Berro de Helipa, publicação desenvolvida pelos discentes.

José Fagner Alves Santos

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