Esdras e a criação do texto como objeto sagrado

PorJ. Fagner

Outro dia recebi o link para um artigo do jornalista Rodrigo Casarin. No texto, Casarin falava a respeito de uma moça que havia virado assunto nas redes sociais por ter admitido publicamente que começaria a ler seu primeiro livro depois dos vinte anos de idade.

Houve um estranhamento generalizado. As pessoas não podiam admitir que alguém, aos 20 anos de idade, ainda não tivesse lido um único livro.

O livro, enquanto objeto, parece ter adquirido ares de algo sagrado. Não ler parece ser um sacrilégio, um pecado imperdoável. Como se o comportamento padrão do brasileiro fosse, de fato, o do leitor habitual.

Mas de onde vem essa crença da sacralidade do livro? Como começamos a acreditar que temos a obrigação de ler, mesmo a leitura não sendo natural? Hoje eu vou te contar a história de como tudo isso começou. Venha comigo.

A história começa cerca de cinquenta anos depois que os babilônios invadiram e destruíram Jerusalém e seu Templo, levando muitos judeus como prisioneiros. Os livros de Esdras e Neemias narram as ações de três líderes que tiveram um papel fundamental na reconstrução da cidade e da nação: Zorobabel, Esdras e Neemias. Zorobabel foi o primeiro a voltar para Jerusalém com um grupo de pessoas para reconstruir o Templo. Depois de 60 anos, Esdras chegou com o apoio do rei Ataxerxes para ensinar a Torá aos judeus.

Mas antes de entrarmos nos detalhes desses personagens, vamos entender melhor o contexto histórico em que eles viveram. Tudo começou quando Nabucodonosor II, o rei da Babilônia, conquistou Jerusalém e deportou cerca de quatro mil judeus para o seu império. Lá, eles foram obrigados a se adaptar a uma nova cultura e a uma nova língua. Mas eles não se esqueceram de suas origens e de sua fé. Eles levaram consigo alguns textos sagrados que contavam a história de seu povo, desde a criação do mundo até a saída do Egito. Esses textos eram a base da Torá, a lei dos judeus.

Na Babilônia, os judeus exilados conseguiram se organizar e preservar seus costumes e sua língua. Eles se estabeleceram em uma região chamada Nippur, ao sul da Babilônia, onde tinham certa liberdade religiosa. Alguns deles até trabalharam para o governo babilônico como escribas ou contadores. Esse foi o caso de Esdras, o protagonista do nosso episódio de hoje. Esdras era um escriba e um sacerdote. Ele estudou na escola de escribas e dominava bem o aramaico, a língua oficial do império. Ele trabalhava para os babilônicos como burocrata, mas também tinha um compromisso com o seu povo e com a sua fé. Ele tinha acesso aos textos sagrados que contavam a história de Israel e da dinastia de Davi, que governou Jerusalém antes da invasão babilônica.

A Babilônia era uma cidade muito rica e cosmopolita, onde havia muitas influências culturais e literárias. Os judeus exilados não ficaram alheios a essas influências. Eles aproveitaram para revisar e ampliar os seus textos sagrados, incorporando elementos da cultura babilônica. Por exemplo, a história da criação do mundo no livro do Gênesis foi inspirada em um mito babilônico, assim como a história do dilúvio universal, que tem semelhanças com a epopeia de Gilgamesh. Essas histórias serviam para reforçar a crença de que os judeus eram o povo escolhido por Deus e que Jerusalém era a sua terra prometida.

Esses textos escritos foram fundamentais para manter as tradições judaicas no exílio. Eles eram lidos e ensinados nas sinagogas, que eram as casas de oração dos judeus. Eles também eram copiados e distribuídos entre as comunidades. Esdras foi um dos responsáveis por essa tarefa. Ele era um especialista na Torá e tinha a missão de ensiná-la aos seus irmãos. Ele também tinha um sonho: voltar para Jerusalém e restaurar a glória de Israel. E esse sonho se tornou possível quando um novo império surgiu no cenário mundial: o império persa.

Os persas conquistaram a Babilônia e adotaram uma política mais tolerante em relação aos povos dominados. Eles permitiram que os judeus voltassem para Jerusalém e reconstruíssem o seu Templo. Esse foi o início de um novo capítulo na história dos judeus, como veremos daqui a pouco. Continue comigo!

No bloco anterior, nós vimos como os judeus exilados na Babilônia preservaram e desenvolveram os seus textos sagrados, que formaram a base da Torá, a lei dos judeus. Esses textos eram muito diferentes das outras epopeias antigas, como a de Gilgamesh ou a de Homero. Eles eram uma coleção de histórias variadas, que foram reunidas e reformuladas pelos escribas exilados. Esses escribas tinham uma visão particular da história e da fé do seu povo. Eles valorizavam Moisés como o autor do Deuteronômio e como o primeiro escriba da história dos judeus. Eles também imaginavam Deus como um escriba, que escrevia as suas leis em tábuas de pedra e as entregava a Moisés. Eles até criaram um drama em torno da escrita, mostrando como ela podia ser complicada e perigosa quando se tratava de se comunicar com Deus.

Mas o que mais chama a atenção nos textos sagrados dos judeus é o mito da criação do mundo. Esse mito é muito conhecido por todos nós, mas você sabe como ele surgiu? Você sabia que ele foi inspirado em um mito babilônico? Pois é, os judeus exilados não se limitaram a copiar os textos que já tinham. Eles também se inspiraram na cultura e na literatura da Babilônia para criar novas histórias. Uma delas foi a narrativa da criação do mundo no livro do Gênesis.

Nessa história, Deus cria o mundo em seis dias, usando apenas a sua palavra. Ele diz: “Faça-se a luz” e a luz se faz. Ele diz: “Faça-se o firmamento” e o firmamento se faz. E assim por diante, até criar o homem e a mulher à sua imagem e semelhança. No sétimo dia, Deus descansa e abençoa o seu trabalho. Essa é uma história muito bonita e original, mas ela tem algumas semelhanças com um mito babilônico chamado Enuma Elish. Nesse mito, os deuses criam o mundo a partir do caos primordial, usando também a sua palavra. Eles dizem: “Quando no alto o céu não tinha nome” e o céu passa a ter nome. Eles dizem: “Quando abaixo a terra firme não tinha nome” e a terra firme passa a ter nome. E assim por diante, até criar o homem a partir do sangue de um deus rebelde. No final, os deuses também descansam e celebram o seu trabalho.

Você percebeu as semelhanças? Os judeus exilados se inspiraram nesse mito babilônico para criar a sua própria versão da origem do mundo. Mas eles também fizeram algumas mudanças importantes. Eles substituíram os vários deuses por um único Deus, que era o criador de tudo. Eles também deram mais dignidade ao homem, que era feito à imagem de Deus e não de um deus derrotado. Eles também enfatizaram a bondade da criação, que era boa aos olhos de Deus e não fruto de uma guerra entre os deuses.

Essas histórias da criação foram imaginadas por seres humanos acostumados ao trabalho manual. Mas não é assim na abertura do Gênesis. Deus não suja as mãos. Ele não trabalha com elas; com efeito, ele não toca de forma alguma em sua criação. De nenhum lugar em particular, ele simplesmente traz o mundo à existência através do puro poder das palavras. Trata-se de uma criação imaginada por escribas sentados à distância do trabalho manual e cujo trabalho ocorre inteiramente na linguagem (falada) agindo de longe.

Essas mudanças mostram como os judeus exilados adaptaram as histórias que ouviram na Babilônia para expressar a sua fé e a sua identidade. Eles queriam afirmar que havia um só Deus verdadeiro, que era o senhor da história e que tinha escolhido os judeus como o seu povo. Eles queriam afirmar que o mundo era bom e ordenado, e que o homem tinha uma missão especial de cuidar desse mundo. Eles queriam esclarecer que Jerusalém era a sua terra prometida, onde eles poderiam adorar a Deus no seu Templo sagrado.

Essas afirmações se tornaram mais prementes quando os judeus tiveram a oportunidade de voltar para Jerusalém, graças a um novo império que surgiu no cenário mundial: o império persa. Os persas derrotaram os babilônicos e permitiram que os judeus reconstruíssem o seu Templo e a sua nação. Esse foi o início de um novo capítulo na história dos judeus, que vamos contar no próximo bloco. Não saia daí!

No bloco anterior, nós vimos como os judeus exilados na Babilônia se inspiraram nos mitos da criação do mundo para criar a sua própria versão no livro do Gênesis. Nessa versão, Deus cria o mundo com a sua palavra, sem usar as mãos nem tocar na matéria. Essa é uma forma de criar que reflete a experiência dos escribas que escreveram essa história. Eles não trabalhavam com as mãos, mas com as palavras (faladas), que tinham um poder especial para eles.

Mas os escribas não se limitaram a escrever histórias sobre a origem do mundo. Eles também escreveram textos que tinham uma grande importância para a comunidade dos judeus, que sonhava em voltar para a terra dos seus antepassados. Esses textos eram as leis e os rituais que definiam a identidade e a fé do povo judeu. Eles eram a base da Torá, a lei dos judeus. Os cinco primeiros livros da Bíblia.

Um dos escribas que teve um papel fundamental nesse processo foi Esdras. Ele foi o líder de um grupo de judeus que decidiu deixar a Babilônia e migrar para a terra ancestral, no ano de 458 a.C. Ele convocou os seus companheiros de exílio para essa jornada perigosa, sem soldados para protegê-los. Eu gostaria de dizer que era por confiar no seu Deus, Iahweh, mas ele tinha um salvo conduto do rei Ataxerxes.

Em resumo, Esdras levava consigo algo que poderia lhe dar segurança: uma carta do rei da Pérsia, Artaxerxes. O rei persa havia derrotado o rei babilônico e dominado todo o Oriente Médio. Ele tinha interesse em manter a paz e a ordem na região, e por isso apoiava os judeus que queriam voltar para Jerusalém. Ele mandou Esdras investigar a situação na Judeia e garantir que os judeus seguissem as suas leis e adorassem o seu Deus no Templo sagrado.

Esdras e seus companheiros viajaram por mais de 1300 quilômetros, atravessando desertos e rios, até chegarem à terra prometida. Mas o que eles encontraram lá não foi o que esperavam. A terra estava desolada e abandonada. Não havia cidades nem fortalezas, apenas camponeses pobres e oprimidos. Esses camponeses eram descendentes dos judeus que haviam ficado na Judeia quando os babilônios levaram os outros para o exílio. Eles falavam um dialeto diferente e não seguiam as leis e os rituais que Esdras trazia consigo. Eles viviam misturados com outras tribos e adoravam outros deuses além de Iahweh.

E Jerusalém, a cidade santa dos judeus? Ela estava em ruínas. Seus muros e portões estavam destruídos. Seus bairros estavam vazios ou em péssimas condições. Jerusalém era uma sombra do que fora no passado, quando era governada por reis poderosos e abrigava o Templo de Iahweh. Esdras e seus seguidores ficaram chocados com o que viram. Como eles poderiam reconstruir a sua nação nesse lugar? Como eles poderiam restaurar a sua fé nesse lugar? Como eles poderiam cumprir a sua missão nesse lugar?

Essas foram as perguntas que Esdras se fez quando chegou à Jerusalém. E ele encontrou algumas respostas nos textos que ele trazia consigo: os textos sagrados dos judeus, que continham as leis e os rituais de Iahweh. Esses textos se tornaram a base para uma reforma religiosa e social que Esdras liderou na Judeia. Essa reforma mudou a história dos judeus e deu origem ao judaísmo como conhecemos hoje. No próximo bloco, vamos contar como foi essa reforma e quais foram as suas consequências. Não perca!

No bloco anterior, nós vimos como Esdras liderou um grupo de judeus que saiu da Babilônia e voltou para a terra dos seus antepassados. Eles queriam reconstruir a sua nação e a sua fé em Jerusalém, a cidade santa dos judeus. Mas eles se decepcionaram com o que encontraram lá: uma terra devastada e abandonada, um povo que não seguia as leis e os rituais de Iahweh.

Esdras ficou chocado e indignado com essa situação. Ele se sentiu traído pelo povo da terra, que havia se misturado com outras tribos e adorado outros deuses. Ele se sentiu responsável por restaurar a pureza e a santidade dos judeus, que haviam sido escolhidos por Iahweh para serem o seu povo. Ele se sentiu inspirado pelos textos sagrados que trazia consigo: os textos que continham as leis e os rituais de Iahweh, que ele e seus companheiros haviam preservado no exílio.

Esses textos eram a base da Torá. Eram esses textos que diferenciava os judeus dos outros povos. Eram eles que garantiam a aliança entre os judeus e Iahweh. Eram eles que davam sentido à história dos judeus, desde a criação do mundo até o exílio na Babilônia. Eles eram o que orientava a vida dos judeus, em todos os aspectos: moral, social, religioso, político.

Esdras decidiu que era hora de apresentar esses textos ao povo de Jerusalém. Ele queria que eles conhecessem a Torá, que eles entendessem a Torá, que eles obedecessem à Torá. Ele queria que eles se arrependessem dos seus pecados e se comprometessem com uma nova aliança com Iahweh. Ele queria que eles se separassem dos estrangeiros e formassem uma comunidade pura e fiel.

Para isso, ele organizou uma cerimônia pública na porta das Águas, uma das entradas da cidade. Ele construiu um palanque de madeira para ficar mais alto do que o povo. Ele convidou doze homens para ficarem ao seu lado, representando as doze tribos de Israel. Ele abriu o livro da Torá diante de todos e começou a ler em voz alta. Ele leu desde o amanhecer até o meio-dia, sem parar. Ele explicou o significado das palavras para o povo, que ouvia atentamente.

O povo ficou impressionado com as palavras de Esdras. Eles perceberam a importância da Torá para a sua identidade e para a sua fé. Eles se emocionaram com as histórias dos seus antepassados e com as promessas de Iahweh. Eles se entristeceram com as suas transgressões e com as consequências do seu afastamento de sua divindade. Eles choraram e se lamentaram pelos seus erros.

Esdras então os consolou e os encorajou a celebrar aquele dia como um dia sagrado para Iahweh. Ele os convidou a fazer um juramento de fidelidade à Torá e a cumprir todos os seus mandamentos. Ele os convenceu a se desfazer das suas esposas e filhos estrangeiros, que eram uma ameaça à pureza da sua comunidade. Ele os persuadiu a se tornarem um povo santo, separado dos outros povos, dedicado exclusivamente a Iahweh.

Essa foi a reforma religiosa e social que Esdras promoveu na Judeia. Essa reforma mudou radicalmente a forma como os judeus entendiam a si mesmos e ao seu Deus. Essa reforma deu origem ao judaísmo como conhecemos hoje. No próximo e último bloco, vamos analisar as consequências dessa reforma e as suas implicações para a história dos judeus e das outras religiões. Eu volto já!

No bloco anterior, nós vimos como Esdras fez uma cerimônia pública na qual ele leu e explicou os textos sagrados dos judeus para o povo de Jerusalém. Essa cerimônia marcou o início da reforma religiosa e social que ele promoveu na Judeia. Essa reforma elevou os textos sagrados dos judeus à condição de objeto de adoração. Essa reforma transformou os textos sagrados dos judeus na base da sua religião. Essa reforma deu origem ao judaísmo como conhecemos hoje.

Mas essa reforma também gerou conflitos e resistências. Esdras era um sacerdote, mas ele agiu como um escriba. Ele usou os textos sagrados para desafiar o poder e a autoridade dos sacerdotes que controlavam o templo. Ele usou os textos sagrados para mudar o modo como os judeus adoravam Iahweh. Ele usou os textos sagrados para criar uma nova aliança entre Iahweh e o seu povo.

Esses conflitos entre sacerdotes e escribas se prolongaram por séculos. Eles se intensificaram quando Jerusalém foi invadida por outros impérios, como o de Alexandre, o Grande, e o de Roma. Eles se agravaram quando o templo foi destruído novamente pelos romanos, no ano 70 da nossa era. Sem templo, sem sacerdotes, sem sacrifícios, sem rituais, o que restava aos judeus?

Restavam os textos sagrados. Os textos que Esdras tinha lido e explicado para o povo. Os textos que continham as leis e as histórias de Iahweh e dos seus antepassados. Os textos que podiam ser levados para qualquer lugar, para qualquer exílio. Os textos que podiam ser lidos e interpretados por qualquer um, por qualquer escriba. Os textos que se tornaram a Torá, a lei dos judeus.

A decisão de Esdras de transformar a escritura portátil em meio para adorar Iahweh foi crucial para a sobrevivência dos judeus. Foi essa decisão que permitiu que os judeus se adaptassem às novas circunstâncias históricas e culturais. Foi essa decisão que permitiu que os judeus se organizassem em torno das sinagogas e dos rabinos, os sucessores dos escribas. Foi essa decisão que permitiu que os judeus se mantivessem fiéis à sua identidade e à sua fé.

Essa foi a história de como Esdras inventou o judaísmo. Uma história fascinante e surpreendente, que nos mostra como um texto pode mudar a vida de um povo. Uma história que nos mostra como um texto pode se tornar sagrado, poderoso e eterno. Esperamos que você tenha gostado desse podcast e que tenha aprendido algo novo com ele. Obrigado pela sua audiência e até a próxima!

Comece a ouvir o programa e deixe seu comentário.

Assine o nosso Feed.

Ouça também no 

Sobre o autor

 | Website

José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação, Doutor em Literatura. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Últimas publicações