Foi na madrugada gelada de início de inverno que aquele titã rosnou…

Acampados naquele úmido e congelante local, três homens se espremem em suas redes e são testemunhas do grito do gigante que lhes assombra até a alma.

Eles estão a poucas horas de alcançar a maior montanha da Serra dos Itatins e uma das maiores de toda a parte litorânea da Serra do Mar Paulista.

O vento uivava no cume do DESMORONADO…

O barulho fazia estremecer a montanha e era como se o monstro tivesse a nos dizer que não se entregaria facilmente…

O Garoçá vai mostrar toda a trajetória e os detalhes que levaram os três aventureiros ao topo da Juréia

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Foi no início dos anos 2.000 que eu tive o privilégio de botar os olhos naquela cadeia de montanhas.

Estava acompanhado de um primo tentando realizar a travessia pelas praias selvagens da Juréia.

Havíamos partidos de Peruíbe com destino à Iguape e já, naquela época, era preciso enfrentar a fiscalização ferrenha que fecha a passagem pelas praias.

Na Praia do Una, vi meu queixo cair diante daquela cadeia rochosa que cercava todo aquele paraíso, em uma das áreas mais preservadas e fantásticas do planeta.

Naquela época, não existiam mapas de satélite e eu não sabia como se chamavam aqueles monstros rochosos que se erguiam no meio da grande floresta paulista.

Foi preciso que se passassem 15 anos para que meus olhos se voltassem novamente para aquele lugar.

Em 2015, juntamente com outros exploradores, tivemos a honra de reabrir a trilha que levava ao Dedo de Deus e outra expedição inédita ascendeu ao cume do MORRO DAS TRÊS PONTAS, aonde alcançamos pela primeira vez o topo do Pico Motchaka, mas uma coisa sempre me intrigou: O Dedo de Deus Paulista era uma montanha lendária, mas seus 1.333 metros estavam longe de ser realmente o cume da Serra dos Itatins. Muito porque as cartas topográficas mostravam que existiam picos gigantes que poderiam passar de 1.400 metros de altitude…

Pico Motchaka, no Morro das Três Pontas

Comecei então a devassar toda a internet à procura de mais informações, mas como internet é uma coisa recente, também procurei me informar com outros exploradores das antigas, conhecedores da região.

Debulhei materiais antigos e revistas do gênero, pesquisei em mapas de tudo que é lugar, me enfiei de cabeça em tudo que era artigo relacionado àquela serra e, para minha surpresa, foi como se praticamente aqueles cumes nunca existissem…

Já vinha me dedicando há vários meses àquele ofício paciente de pesquisas e observações de mapas de satélites, quando senti minhas pernas tremerem ao perceber que aquele cume perdido poderia ser um dos maiores cumes de toda a faixa litorânea do Estado de são Paulo.

Diante de toda essa informação, não havia mais nada o que fazer. Era hora de montar uma expedição de gente grande e ir lá naquele fim de mundo tirar a dúvida.

Comecei a me concentrar nas pesquisas específicas: Primeiramente, encontrei nas cartas dois possíveis picos que poderiam se tornar o cume da Serra. Um deles já me dizia que estava acima de 1.400 metros, enquanto o outro estava muito próximo disso. Só um porém: Naquela região, vários picos contam com torres rochosas nos seus cumes e infelizmente a carta topográfica não consegue identificar esses espigões de pedra. O próprio Dedo de Deus Paulista não passa de 1.100 metros, tanto na carta, quanto no satélite, e todo mundo sabe que ele é 200 metros mais alto que isso. Diante do exposto, tínhamos que montar uma estratégia para escalarmos os dois picos, caso nos deparássemos com esse tipo de torre no pico mais à sudeste, a uns 2 km do primeiro.

Outro fato, que é necessário relatar, é que esses picos não pareciam oferecer importância para atrair qualquer montanhista e talvez esse fosse um dos grandes motivos de ter se mantido virgem até aquele momento.

Quem, em sã consciência, se meteria a enfrentar um vara-mato por dias para chegar ao seu cume e não enxergar coisa alguma?

Pois é, esse também era o grande problema para atrair mais alguma trouxa (ops, montanhista) que pudesse acreditar naquele projeto. Aí é que veio o pulo do gato! Nos estudos do mapa de satélite, localizei um grande desmoronamento que rasgava a montanha por uns 200 metros bem ao lado do cume, o que, na minha cabeça, era visual certo de todo a parte sul da serra, justamente a que nos daria vistas para todos os grandes picos e do litoral de toda a Juréia.

Escolhido o grupo a dedo, geralmente os mesmos retardados de sempre que se metem nessas enrascadas, havia chegado a hora de entrarmos em um consenso de onde partiríamos.

Já era nítido e notório que partir lá do litoral era coisa impensável, não só pela logística quase impossível, mas também porque jamais conseguiríamos uma autorização da administração da Juréia.

Decidimos então que a expedição deveria partir de Pedro de Toledo, cidade mais perto do acesso norte da montanha, longe da reserva e sem as necessidades burocráticas.

Montada a estratégia, escolhemos o feriado de junho, mas, quando esse dia chegou, os possíveis integrantes começaram a debandar um a um, alguns por motivos de trabalho, outros por motivos ignorados e alguns, talvez, não tivessem convictos de que essa expedição pudesse valer a pena.

No fim, acabaram sobrando apenas eu e o Natan Sanches, número insuficiente para pôr em pratica tamanha grandeza expedicionária. Foi aí que, de última hora, arrumamos mais um sem noção para encarar o gigante de frente. Paulo Potenza se juntou a nós e o grupo se completou, não com o que tinha de melhor, mas com o que tinha disponível…

Os três aventureiros que toparam realizar a expedição rumo ao cume…

Parti de ônibus para capital Paulista onde esperaria no terminal rodoviário do Tietê pelo carro do Natan.

O local combinado era a boca do lixo da rodoviária, onde transeuntes, prostitutas, pinguços, travestis, nóias, drogados, mendigos, ladrões e outros vagabundos faziam do local seus lares, enquanto eu, menino vindo do interior, fui apresentado à anti-sala do inferno. Foi bom para eu ir me acostumando com o que estava por vir. Logo que o carro chegou, pedi licença ao capeta e me retirei daquele antro em direção à Pedro de Toledo.

O Natan sentou a bota no acelerador e, rapidinho, já nos vimos passando em frente à entrada da cidadezinha do Vale do Ribeira.

Passamos pela pracinha do vilarejo de Três Barras e depois pela famosa Estrada do Despraiado.

Passamos na ponte do Rio do Peixe e estacionamos em um recuo da estrada, bem em frente da fazenda que havíamos marcado no mapa, com a ajuda do traklog previamente traçado.

Já passava das 2 horas da manhã e é claro que nós não iríamos incomodar os moradores da fazenda àquela hora da noite, na tentativa de obtemos uma autorização para passar. O jeito foi nos acomodar dentro do carro mesmo até que o galo cantasse, nos avisando que mais um dia havia nascido.

Estávamos ali, bem em frente à Fazenda Primavera e o que mais nos alegrava era que se tratava de um lugar extremamente simples, até pobre, se comparado a outras entradas que havíamos passado: Havia, apenas, uma tosca ponte de tronco sobre um pequeno afluente do Rio do Peixe.

Levantamos juntos com o sol e, assim que o relógio marcou sete horas, atravessamos a ponte e fomos tentar mendigar uma autorização para passar.

Atravessamos a pontinha de troncos e nos deparamos com um galpão aberto e uma casa simples, onde um cão preguiçoso nos olhava com cara de poucos amigos.

Vimos logo que seus moradores ainda dormiam. Adiantamos-nos até outro casebre, onde um senhor negro e sem calças se apressou para se recompor diante da nossa inesperada aparição. Fomos recebidos pelo seu Osvaldo, caboclo local que residia naquele lugar a mais de 25 anos.

Contamos-lhe nossas intenções, mas o nativo pouco entendeu o que pretendíamos fazer. Ele coçou a cabeça, pensou, pensou, quis perguntar algo, mas deixou quieto. Disse que a estrada de 3,5 km que pretendíamos usar  estava totalmente interditada para carros e hoje não passava de uma trilha um pouco mais aberta.

Para nós não importava, claro que se pudéssemos economizar duas ou três horas de caminhada dura seria muito melhor, mas o grande objetivo para o sucesso daquela expedição era conseguirmos a autorização para seguir e isso acabava de ser dada. A primeira etapa do projeto foi efetuada com sucesso.

Guardamos o veículo junto ao galpão, jogamos as mochilas nas costas e partimos…

continua…

No próximo capítulo, saiba quais foram as dificuldades enfrentadas pelos três guerreiros, únicos, que se tem notícias, a subirem o pico mais alto do Itatins…

Não perca

 

Após conseguirem a autorização, era a hora de começar a trilhar morro acima, conforme o combinado

 

Texto e Fotos: Divanei Góes de Paula

Adaptação e Edição: Márcio Ribeiro

Postagem: O Garoçá

Apoio: Aventurebox.com

Contato: ogaroca@bol.com.br

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