“…e quando chegamos lá, ninguém acreditou no que estava diante dos nossos olhos.”

Entre cotoveladas e empurra e empurra, por pouco um de nós não foi conhecer as profundezas do abismo pela primeira vez na história. Cada qual lutava com as armas que tinha para poder se maravilhar com aquele espetáculo que se descortinou diante dos nossos olhos.

Ainda era uma pequena janela miserável entre a paisagem, mas já foi o suficiente para cada um de nós se encantar diante de tamanha beleza.

Aquilo nem parecia real e, mesmo com o tempo apresentando uma bruma que cobria parte do horizonte, assim mesmo, a gente pode se dar conta que estávamos diante de um dos maiores espetáculos de montanhas do Brasil.

Ali estava ela: Toda a Reserva Ecológica da Jureia diante dos nos pés, com toda as suas matas, seus bichos, seus rios e suas praias selvagens, um dos maiores patrimônios da Humanidade.

A sudoeste, ainda meio escondido entra as nuvens, o gigante Dedo de Deus Paulista e toda a sua cadeia de montanha com espigões de pedras espetados acima da floresta.

Do nosso lado esquerdo, quase já fora da nossa visão, o PICO SUDESTE (1.389 m), justamente aquele que poderia ser o cume da serra, se por acaso viesse a ter alguma torre rochosa em seu cume, do qual a carta não podia nos mostrar. Era visivelmente bem mais baixo, com seu topo coberto de floresta. Quase sem nenhuma elevação proeminente e essa visão completa desse outro pico mudava todo o rumo daquela expedição.

Nós três estávamos em êxtase, mas sabíamos que ainda faltava uma janela maior, que nos desse a condição de fazermos umas fotos e uns registros melhores e ainda sabíamos que as condições meteorológicas pela manhã são muito melhores que na parte da tarde. Decidimos então que iríamos acampar no cume para procurar, no dia seguinte, outras janelas, amassar os bambuzinhos, abaixar alguns galhos e brotos que nos fechavam ainda parte da visão.

“…estávamos diante de um dos maiores espetáculos de montanhas do Brasil”

O dia já ia findando, mas a gente ainda não havia localizado nenhuma área propícia para acamparmos. Pensamos em descer e tentar algo mais abaixo, mas depois decidimos que seria muito mais cômodo ficarmos no cume, onde pretendíamos, no dia seguinte, fazer a medição com os 3 equipamentos de GPS e também abrir uma janela maior que nos desse uma tomada de 180 graus de toda a Juréia.

Como estávamos com redes, a única coisa que precisávamos fazer era amassarmos os bambuzinhos e limpar os cipós para liberarmos uma área entre três árvores. Fizemos um ótimo trabalho e em mais cinco minutos pendurei a minha rede, enquanto os meninos, mais uma vez, ficaram umas duas horas brincando de montar tendinha (rsrsrrs).

Nos reunimos para fazer a janta e para discutirmos o rumo da expedição. Estava bem claro que o tal Pico Sudeste não passava de uma colina perto do Pico Desmoronado.

Além de visivelmente mais baixo, não havia nada nele que justificasse mais um dia de caminhada e vara-mato num inferno de bambus e cipós. Poderíamos apenas, no outro dia, nos dedicar as contemplações e a abrir uma nova e boa janela que nos desce o máximo de visão possível de toda aquela serra espetacular.

Depois de uma janta de gala, todos nos recolhemos antes das nove da noite e quando o sol nasceu, trazendo um novo dia, o Potenza e o Natan se encarregaram de fazer uma foto legal e, depois disso, eles mesmos voltaram para a ”cama” novamente e só acordamos muito tempo depois, quando o galo já estava roco de tanto cantar.

Foi uma noite tranquila, muito diferente da noite anterior, passada no “Selado”. Nosso primeiro passo, logo pela manhã, foi de instalar uma cápsula que iria conter nosso Livro de Cume, onde se um dia alguém também ascender a esse cume novamente, poderá ler os registros da conquista e também deixar seu recado para as gerações futuras.

Aproveitamos para fazer a medição da altitude, claro, é uma medição prévia, talvez um pouco mais, talvez um pouco menos, mas chegamos a um consenso de que por hora aquela seria uma medição bem próxima da realidade.

Juntos, os nosso três GPS nos deram em média uma altitude de 1.425 metros.  Aí estava a prova de que realmente tudo havia batido, tanto as cartas, quanto as medições por mapas de satélite e os nossos equipamentos.

Estava estabelecido o novo cume da SERRA DOS ITATINS-JURÉIA, o Pico DESMORONADO (1.425 metros) agora era, oficialmente, o topo de toda a serra e estava entre um dos pontos mais altos de toda a Serra do Mar Paulista.

Os três GPS deram a altitude média de 1.425 metros, o maior da Serra dos Itatins e do Litoral Paulista

Enquanto o Natan e o Potenza seguiam para a direita do cume, tomei o caminho contrário, tentando achar uma nova janela, mas vi logo que a crista que desce para outro selado, entre o Desmoronado e o Pico Sudeste, também não daria passagem nem para um mamute assustado por causa da vegetação entrelaçada. Quando desisti de tentar essa rota e voltei para onde estavam os dois companheiros, já os encontrei com os serviços adiantados. Já haviam amassado toda uma grande moita de capim elefante, como também já tinham retirado todo os cipós e bambuzinhos que pudesse impedir a nossa vista. E dali para frente, a visão daquela serra com o tempo totalmente aberto, nos arrebatou a alma.

Toda a comemoração que faltara no dia anterior aconteceu ali, naquele espaço minúsculo e apertado.

Os gritos de felicidade ecoaram e se espalharam por toda aquela serra, vazia de homens e cheia de encantos.

Mais uma vez cada um queria lutar pelo seu espaço, cada um querendo tirar uma foto mais espetacular que o outro e os ângulos eram tantos e tão diversos que ninguém queria mais arredar os pés dali.

O Dedo de Deus Paulista agora reinava soberano no horizonte e essa era a primeira vez que ele seria fotografado a partir do cume da serra.

Também a sudoeste todo o espigão do Boa Vista com sua antena característica. À nossa frente, os grandes abismos e os picos pontudos e rochosos transformavam aquela serra numa espécie de Serra dos Órgãos Paulista.

A nossa esquerda e a nossa frente se estendiam uma floresta intocada, com destaque para os Rios Una e Verde, bem como toda a extensão do Maciço da Jureia. Antecedendo a grande ponta da Juréia, as Praias do Una e, logo após ela, a Praia do Grajaúna. Para finalizar a descrição dos principais atrativos, bem ali aos nossos pés estava o Pico Pogoçá, também conhecido como Nariz de Palhaço.

Até o Pico do Pogoçá se rende ao Pico do Desmoronado

Nós ficamos ali até o meio dia, inebriados pelo cenário. Era muito provável que a linha que delimita toda a Reserva Ecológica Juréia – Itatins passasse bem encima daquela cumeada toda, então sabíamos que aquela grande parede serviria de barreira natural para proteger uma das reservas ambientais mais importantes do mundo. Tudo aquilo que estava à nossa frente era área intangível, totalmente proibida para pés humanos e ficamos felizes de pelo menos podermos olhar tudo aquilo de cima, um privilégio até agora de três exploradores.

Como eu disse, o dia já ia pela metade, então nos apressamos, desmontamos tudo rapidamente e partimos, deixando aquele pico selvagem novamente largado a sua solidão eterna.

Ao chegarmos novamente ao fundo do vale, colhemos um pouco de água e usamos o próprio rio para ganharmos distancia, passamos pela prainha de areia, viramos à direita e fomos pulando de tronco em tronco para não empapar nossas botas no brejo.

Sem desgrudar o olho do GPS, mais uma vez nossa vida se resumiu a varar mato sem fim, mas dessa vez, com as mochilas bem mais leve, imprimimos uma velocidade duas vezes maior que a da ida.

Subimos a primeira montanha, descemos pela rampa da serpente e novamente nos enfiamos em direção ao selado, mas novamente, sem percebermos, a vegetação foi nos empurrando para fora da rota e, quando vimos, já estávamos perdidos em um vale qualquer.

o Natan perdeu o equilíbrio e foi conhecer a dureza da rocha com sua fuça

O Natan corrigiu a rota, mas já havíamos perdido um tempo precioso e logo percebemos que havíamos saído bem do outro lado do deslizamento de rocha. Fomos obrigados a usar a descida da rocha como caminho onde, por uma bobeira, o Natan perdeu o equilíbrio e foi conhecer a dureza da rocha com sua fuça.

Por sorte foi só um susto! Paramos imediatamente para um descanso, mas eu, na minha ingenuidade, ainda sonhava em conseguir pelo menos voltar até a noite para o rancho abandonado e fazer dele nosso lar por um dia, mas os meninos não estavam de acordo com essa correria toda não, já vieram com aquela conversinha de que seria melhor acampar novamente no selado e então fui facilmente persuadido por eles e a decisão foi essa.

Já que estávamos bem perto do tal selado, ao invés de voltar a varar mato, decidimos desescalar aquela parede rochosa até atingirmos o fundo do vale e, através dele, subir até a área de acampamento. Feito isso, em meia hora estávamos de volta onde tínhamos passado a primeira noite, foi como retornar para casa novamente.

Ainda era cedo, mas decidimos começar logo a nos dedicar às montagens das redes e do abrigo e a colher água para o jantar. Ali no selado, a noite cai rápido e quando a escuridão chegou, nossos fogareiros já ronronavam fazia tempo. Arroz, atum, bacon, frango desidratado, queijo ralado e suco de laranja foram o nosso cardápio e uma boa comida quente tem sempre potencial para elevar o moral da equipe mas, diferentemente da primeira noite que passamos ali, agora estava uma temperatura agradável e nem se ouvia o barulho do vento.

Como estávamos bem descansados, depois do jantar e iluminados pelas luzes das nossas lanternas, ficamos até tarde da noite nos dedicando a contar causos de aventuras passadas, de experiências vividas do mundo das montanhas e das trilhas, enfim, jogar conversa fora até que o sono viesse a nos carregar para dentro das nossas redes.

Quando o dia nasceu, nos levantamos, desmontamos tudo e partirmos. Mas dessa vez iríamos mudar nossa rota e apontamos nossa bussola para o cume da montanha, queríamos evitar assim passar pelo mesmo lugar que enfrentamos na vinda, onde ficamos travados na vegetação encima da curva de nível lateral.

Nos agarrando como deu, subimos o paredão que se apresentou à nossa frente. Duzentos metros de parede nos levaram direto para umas “moitas monstro” de bambus e taquaras, onde rastejar era o que tinha para aquele momento. Logo percebemos que, infelizmente, estávamos novamente caminhando por outra linha lateral, ziguezagueando novamente a uns 200 metros do cume e o pior é que a vegetação não nos deixava passar e nem ganhar altitude.

O tempo vai passando e os nervos vão ficando a flor da pele novamente e chegou uma hora que apontamos o nariz para o topo da serra e fomos arregaçando tudo que tinha pela frente, nos grudando no barranco e escalando a parede de mato até atingirmos nosso objetivo e pararmos para um gole de água em meio a uma vegetação um pouco melhor.

Na nossa carta topográfica, víamos claramente que o topo se estendia por uns 300 metros antes que a montanha começasse a despencar de vez em direção ao vale.

A nossa progressão foi rápida e perdíamos altitude numa velocidade incrível, mas a gente sabia que teríamos que enfrentar o inferno de vegetação espinhenta novamente, então decidimos fazer um desvio na nossa rota e começar a tocar rumo ao vale do rio que corria à nossa direita e não demorou muito, lá estávamos nós de volta ao leito das nascentes do Rio do Peixe, onde os mais corajosos, não eu, se pincharam para debaixo de uma cachoeirinha de águas congelantes.

A princípio nos pareceu uma ótima ideia descermos um pouco pelo leito do rio, mas logo uma pequena garganta nos barrou o caminho e fomos obrigados a desviar pela esquerda, subindo à margem. Mas aí descobrimos que tínhamos no enfiado numa roubada dos infernos, dando de cara com moitas gigantes de bambus quase que intransponível.

Não houve o que fazer, não conseguíamos progredir, então abandonamos aquela ideia estúpida e ganhamos altitude novamente para podermos passar longe da margem do rio e fora da linha dos bambus.

A caminhada se tornou um pesadelo, mas avançávamos. Quando percebemos que as gargantas do rio tinham acabado, descemos novamente para o seu leito e fomos caminhando por dentro dele, pulando de pedra em pedra e fazendo pequenos desvios.

Numa dessas subidas de barranco bobeei e, quando percebi, lá estava eu agarrado na beira de um barraco com as mãos pregadas numa espécie de Samambaia-açu com espinhos negros.

Não pude fazer nada, se soltasse cairia de cabeça nas pedras pontudas do rio. Fiquei gritando e amaldiçoando a minha má sorte até que o Potenza me auxiliou e me ajudou a voltar o corpo para trás.

Aquilo tinha sido a gota d’ água. O nosso GPS dizia que estávamos a não mais de 100 metros do encontro com a trilha, mas eu não queria mais saber daquele mato e, ao avistar o primeiro pé de banana no barranco da direita, piquei a mula na direção dele e ganhamos a trilha mais à frente. E por falar em banana, fiz questão de dar uma bem grande para aquela serra, prometendo nunca mais colocar os meus pés novamente lá, mas logo a raiva passou e meus pensamentos já se voltavam para aquele cume espetacular, com uma visão arrebatadora da Juréia.

Antes da uma da tarde, desembocamos novamente no casebre abandonado e ficamos lá o tempo suficiente para reavermos as coisas que havíamos deixado, comemos alguma coisa e descemos à passos largos pela estradinha que nos levaria de novo até a humilde sede da Fazenda Primavera, para reencontrar seu Osvaldo e vê-lo ficar perplexo ao assistir um pequeno vídeo mostrado pelo Natan, de onde se podia avistar o mar. Acho que aquele caboclo perdeu até o rumo pois nunca tinha ouvido falar que um caminho, passando pela sua propriedade, poderia levar alguém as bordas do paraíso.

Sem mais nada para fazer ali, nos despedimos do seu Osvaldo e fomos tomar banho sob a pontinha de troncos, onde um afluente do Rio do Peixe desfila com águas cristalinas e, em seguida, tocamos para Pedro de Toledo, e nos acabamos de tanto comer num restaurante, onde comemoramos o sucesso da expedição.

O ano de 1953 já ia pela metade quando uma expedição militar, capitaneada pelo então Coronel Petená, logrou êxito ao escalar pela primeira vez o Dedo de Deus Paulista.

Terminava assim uma corrida insana para ver quem seria o primeiro a fincar os pés no então “cume de toda a Serra dos Itatins”.

Mas aí é que estava o grande erro geográfico e o Coronel acabou morrendo sem se dar conta de que o Dedo (1.333) passava muito longe de ser o cume da grande cadeia de montanhas.

O mais incrível ainda é que outros montanhistas experientes, até hoje, repetem os mesmos erros geográficos aos 4 ventos mas agora, finalmente, quase 65 anos depois, essa EXPEDIÇÃO totalmente independente, sem ajuda de ninguém e muito menos munidos de previas informações, teve a honra de colocar as coisas no seu devido lugar.

A partir de agora o PICO DESMORONADO (1.425 m) passa a reinar soberano como o CUME de toda a Serra dos Itatins-Juréia.

A conquista INÉDITA nasceu simplesmente da inquietação de alguns velhos montanhistas que nunca se conformaram em ver fatos narrados, dados como verdades absolutas e sem contestação.

Pagaram para ver e voltaram depois de 4 dias, esfarrapados e triturados pela vegetação, comeram tanto bambu que quase se transformaram em pandas, mas com a certeza do dever cumprido de terem consertado um erro geográfico histórico, com a satisfação do privilégio de mais uma vez, desnudar mais uma parte do LADO ESCURO DA SERRA DO MAR PAULISTA.

Texto e Fotos: Divanei Góes de Paula

Adaptação e Edição: Márcio Ribeiro

Postagem: O Garoçá

Apoio: Aventurebox.com

Contato: ogaroca@bol.com.br

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ANEXOS

Parte 2: Confira o relato da aventura inédita rumo ao pico mais alto da Serra dos Itatins

Parte 1: Confira o relato da aventura inédita rumo ao pico mais alto da Serra dos Itatins