O Caminho do Imperador: Uma travessia pelo coração da Juréia-itatins

O Caminho do Imperador: Uma travessia pelo coração da Juréia-itatins

03/04/2021 0 Por Márcio Ribeiro

Por: Pedro Delázari (Instituto Ernesto Zwarg)

Frequentado desde os primeiros anos da colonização e possivelmente uma ramificação da lendária rota do “Peabiru“, o “Caminho do Imperador” já era utilizado como interligação entre Santos e Cananeia desde a época de Martim Afonso de Souza.

O caminho – que por muito tempo fora utilizado para a passagem do “Correio del Rey” e que frequentemente servia de rota para atividades comerciais, como o arroz de Iguape, produto que rapidamente conquistou os mercados europeus – só fez justificar seu nome a partir do século XIX, quando o imperador D. Pedro I autorizou a primeira pavimentação rústica da estrada, construída pelas mãos de indígenas e africanos escravizados.

Pavimentos, degraus, ruínas e lendas são indícios de uma trágica memória, povoadas de marcas que remontam o período da escravidão. Ainda no século XIX, já no segundo reinado, D. Pedro II, justificando os acordos comerciais entre Brasil e Inglaterra, instalou postes de telégrafo pela via. Seu objetivo era criar uma comunicação rápida entre a capital do império, Rio de Janeiro, e o sul do país. Nesse momento, o “Caminho do Telégrafo” fora muito utilizado durante a Guerra do Paraguai. Ainda hoje, em seu trajeto, é possível ver os postes da inglesa Siemens Brothers London no caminho.

Poste do telégrafo no Caminho do Imperador (Foto: Márcio Ribeiro)

No decorrer do tempo – e ao longo do percurso –, a miscigenação entre africanos, indígenas e europeus deu origem a diversas comunidades caiçaras, que foram fundamentais na preservação e na construção da história e da cultura do território que hoje compreende o Mosaico da Jureia. Essas pessoas transitavam pelo “Caminho do Imperador” constantemente, para comprar, vender, reunir-se nas rodas de “Fandango” e para participar das atividades religiosas.

Entre as diversas histórias e lendas que envolvem o roteiro, destaca-se a do “Bom Jesus”. Trata-se de uma imagem de santo que, vinda de Portugal para o Brasil, foi lançada ao mar e achada na Praia do Una por dois indígenas. No momento do ocorrido, ambos estavam a caminho da Vila de Nossa Senhora da Conceição de Itanhaém a mando de um senhor que vivia na Praia da Jureia.

Tal imagem teria se recusado a ir para Itanhaém, tornando-se pesada para aqueles que a carregavam. O santo só voltava ao seu peso original de barro quando os seus possuidores seguiam rumo a Iguape. Assim, a imagem se tornou o “Bom Jesus de Iguape” – o santo que escolheu o seu destino. Essa lenda deu origem à romaria do “Caminho do Imperador”.

Atualmente, o Instituto Ernesto Zwarg mantém a tradição e realiza anualmente o percurso em comemoração às festas do “Bom Jesus de Iguape”.

Para além das questões religiosas, o percurso, de aproximadamente 28 km, permite aos romeiros uma chance de contemplar a história, a cultura e a beleza de uma das mais conservadas unidades de preservação. O percurso começa às margens do Rio Una e atravessa a Estação Ecológica Jureia-Itatins – um dos remanescentes mais preservados de Mata Atlântica.

Praia do Rio Verde (Foto: Márcio Ribeiro)

A criação da EE Jureia-Itatins é um marco na história do ambientalismo brasileiro – e mundial –, garantindo a conservação de um patrimônio socioambiental de valor incalculável. A participação do professor Ernesto Zwarg nesse processo é inquestionável. Nesse sentido, o instituto promove a oportunidade de os romeiros contemplarem esse solo sagrado ao percorrerem o “Caminho do Imperador”.

Ernesto Zwarg (Foto: Acervo IEZ)

O Trajeto

Após atravessar o rio, o romeiro caminhará por aproximadamente 15 km nas areias da Praia do Una. Deserta, nessa praia é possível encontrar destroços de naufrágio, resíduos trazidos de diversas partes do mundo e restos de animais – como golfinhos, focas e até mesmo baleias. Percorridos dois terços da praia, o romeiro chegará ao antigo cemitério caiçara. Lá, foi erguido por iniciativa do projeto “Viola Peregrina” e pela ong MONGUE, um monumento homenagem ao professor Ernesto Zwarg.

Monumento erguido no antigo cemitério caiçara (Foto: Márcio Ribeiro)

Retornando alguns metros, serão percorridos 7 km de trilha em mata de restinga. No caminho, casas rústicas de antigos moradores formam a paisagem. No final da trilha, contornar-se o morro do Grajaúna. Para aquele que estiver disposto a se desviar do caminho, será possível ir até a encantadora Praia do Itacolomi e ter uma vista incrível da Praia do Rio Verde.

Praia do Itacolomi e Rio Verde em dia nublado (Foto: Márcio Ribeiro)

Após contornar o morro, o romeiro pegará uma trilha paralela à Praia do Rio Verde. É possível realizar parte do percurso de 6 km pela areia ou pela trilha. A praia é de tombo e a areia é fofa – o que atrapalha bastante para caminhar –, mas o visual é incrível! Logo à frente, é possível avistar o imponente maciço da Jureia e o deslumbrante Rio Verde. Este rio, é formado pelas águas que descem o maciço e o Itatins; nos dias de sol, apresenta um tom verde-esmeralda que salta aos olhos de quem o vê pela primeira vez.

Praia do Rio Verde e o maciço da Juréia (Foto: Márcio Ribeiro)

Após se banhar nas águas do “Jordão” da Jureia, o romeiro iniciará o trecho mais difícil: aproximadamente 2 horas de subidas e descidas desafiadoras. Contudo, a beleza compensa o cansaço… É nesse trecho que o romeiro poderá ver os postes do telégrafo e as escadas construídas pelas mãos de indígenas e africanos escravizados. À parte a triste história, as quedas da água ao longo do morro são de tirar o folego. E, nessa etapa do trajeto, mesmo cansado, o romeiro se sente energizado diante de tanta beleza!

Quedas d’águas pelo caminho (Foto: Márcio Ribeiro)

Superado o maciço, anda-se mais 3 km pelas areias da Praia da Jureia, até um veículo de transporte, o qual será utilizado para percorrer o último trecho, de aproximadamente 17 km, pela areia. No percurso, passa-se pela Vila do Prelado, até o destino final: a Vila da Barra da Jureia e Iguape – onde o romeiro poderá jantar comida típica caiçara e descansar em uma das pousadas da vila. No dia seguinte, o transporte levará o romeiro até Iguape, para conclusão da romaria.

Do “outro lado” da Juréia sentido Iguape (Foto: Márcio Ribeiro)

Observação: Não é permitida a entrada na Estação Ecológica sem a autorização expressa do órgão gestor. A romaria do Bom Jesus de Iguape está suspensa por conta da pandemia de Covid-19. Este texto foi publicado originalmente no site do IEZ.

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Texto: Pedro Delázari

Imagens: Márcio Ribeiro e Acervo do IEZ

Agradecimentos: Pedro Delázari e Instituto Ernesto Zwarg

Publicação original: iez.org.br

Contato: [email protected]