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Objeto misterioso encontrado em praia deserta de Peruíbe pode ter origem indígena

Márcio Ribeiro

Ninguém sabe direito o que é, mas o objeto encontrado em uma praia deserta de Peruíbe divide opiniões e desperta curiosidades. Será um simples pedaço de madeira ou pode ser algo de um inestimável valor histórico? Enquanto um estudo não é feito, a reportagem ouviu historiadores, arqueólogos e um cacique para comentar o assunto.

Encontrado em 2013 na Praia Brava, em Peruíbe/SP, no Parque Estadual do Itinguçú, o objeto foi levado para o Instituto Ernesto Zwarg (IEZ) por um de seus membros, o Itamar Zwarg, que conta como foi o achado:

“Eu fui para a Praia Brava e entrei pela casa da Maria, que estava limpando o quintal. Justamente na hora que eu cheguei, ela soltou essa “raiz” com uma rastelada, olhou, pegou e mostrou para mim, dizendo como aquilo era diferente. Eu disse a ela que parecia uma ferramenta indígena e pedi permissão para levar o objeto. Ela consentiu e desde então eu tenho ele, mas nunca ninguém se interessou por esta história”

-Itamar Zwarg

De madeira maciça, o suposto artefato pesa quase 400 gramas, mede em torno de 40 centímetros e parece que foi trabalhada para ser segurada com uma mão. Dá pra ver marcas, como se fosse esculpido. Mas quem o entalhou? Índios, os caiçaras, algum homem do sambaqui ou simplesmente a natureza?

Praia Brava, Parque Estadual do Itinguçú: Foto de  Márcio Ribeiro

O Diretor Operacional do IEZ e Bacharel em História pela Unisantos, Pedro M. D. Gouveia, opinou a respeito do material e não descartou a possibilidade de ser indígena:

“É possível que seja um material indígena, mas é necessário um estudo. O local foi povoado desde o começo.”

-Pedro M. D. Gouveia

O Doutor e Mestre em Arqueologia – MAE/USP e Bacharel em História pela FFLCH/USP, Placido Cali, que realizou trabalhos importantes na região comentou a foto do objeto, porém com mais cautela:

“Interessante, mas difícil de saber. Normalmente, um artefato de madeira no solo não se preserva por muito tempo. Não tem um desenho bem estabelecido e os tacapes indígenas não se conservam em sítios Arqueológicos. Poderia ser tronco de árvore, uma bengala, ou um tacape deste século, da passagem dos guaranis pela Juréia. Referindo-me a um sítio arqueológico de séculos ou milênios, não conservaria. Mas material do século XX, dependendo das condições ambientais, pode ser conservado.”

-Placido Cali

O Cacique e Pedagogo, Ubiratã Gomes, da Aldeia Bananal, reconhece o tacape como uma ferramenta indígena e disse que eram usados, entre outras coisas, em rituais antropofágicos:

“Existe na nossa cultura Tupi, principalmente, diversos tipos de tacapes para diversas finalidades. O tacapes de corte eram usados no nosso ritual de antropofagia. Neste caso aí ele é mais curto e feito para ser pego com uma mão só. Normalmente, a gente coloca uma corda amarrada na extremidade do cabo que é para enlear na mão. Pode ser que houvesse, neste caso, uma corda destas, mas que acabou apodrecendo com o decorrer do tempo.”

-Ubiratã Gomes

A reportagem consultou também o Mestre em História Social pela FFLCH/USP, Fábio Ribeiro, que também falou da possibilidade de ser alguma ferramenta indígena, mas lembrou que a Juréia é habitada pelos caiçaras há muito tempo, refletindo alternativas a respeito do achado. Após a sua aspas, você terá a oportunidade de conhecer um pequeno histórico a respeito dos indígenas em Peruíbe feito por ele, a pedido.

“Interessante. A presença indígena por aqui é inconteste desde o período pré-invasão portuguesa. Há toda uma documentação que atesta. O artefato pode ser de origem indígena e pode ser um tacape, mas apenas arqueólogos podem autenticar”

-Fábio Ribeiro

Índios em Peruíbe

Dados arqueológicos indicam a presença de povos Tupiniquim no período pré-colonial e início do período colonial na região de Peruíbe.

Durante o período colonial os portugueses estabeleceram o sistema de aldeamentos religiosos e institucionalizaram a exploração da mão de obra indígena. Esse sistema representou um marco importante da colonização lusa no litoral paulista. A política colonial de aldeamentos apresentava três objetivos principais: conversão religiosa dos povos nativos; defesa da estrutura colonial; e exploração de mão de obra que permitisse garantir o sucesso do sistema colonial.

O Aldeamento São João Batista de Peruíbe foi, durante o século XVII, o único aldeamento no litoral de São Vicente. Era conhecido também como São João do Peruíbe ou São João de Itanhaém ou, ainda, São João do Cai*, e ficava cerca de 12 km ao sul de Itanhaém. Em 1692 o Aldeamento de Peruíbe foi entregue aos franciscanos e contava com 119 indígenas e diversos que viviam fora do aldeamento.

Geralmente, as populações indígenas dos aldeamentos eram bastante heterogêneas. O pesquisador, Pasquale Petrone, contudo, ressalta que:

“Os Carijós provavelmente devem ter contribuído em proporções bastante grandes para a formação dos quadros demográficos iniciais dos aldeamentos. A sua presença deve ter-se feito sentir em Peruíbe, junto com os Itanhaém, estes provavelmente Guaianá.”

Em 1831, a freguesia da Aldeia de São João Batista é extinta, mas a presença indígena permanece na região até os dias atuais.

*São João do Cai

Um dos antigos nomes pelos quais a aldeia São João Batista era conhecida. De acordo com a pesquisa do historiador, caí (com acento), em tupi, significa macaco, podendo ter outras variações: Água de macaco, por meio das junção dos termos ka’i (“macaco”) e y (“água”) ou  Água da mata, através das junção dos termos ka’a (“mata”) e y (“água”).

Ruínas do Abararebebê, em Peruíbe/SP. Foto de Márcio Ribeiro

Antropofagia

Muita gente confunde antropofagia com canibalismo, principalmente pelo fato de que em ambas as situações há o consumo de carne humana por humanos. Mas as duas coisas são bastante distintas, a ponto de serem categorias de análise de áreas completamente diferentes: Enquanto a antropofagia é um conceito das ciências humanas sobre as práticas religiosas e de guerra na América indígena, o canibalismo pertence ao campo da biologia e das práticas de consumo de alimentos.

O principal relato escrito sobre o canibalismo dos tupinambás é de autoria do aventureiro alemão, Hans Staden (1525-1579), e está registrado na obra “Duas Viagens para o Brasil”, publicada em 1557.

Outro europeu que se dedicou a refletir sobre o canibalismo dos índios brasileiros foi o filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592).

No século XVI, multidões de pessoas tiveram a oportunidade de ver índios tupinambás em cidades como Lisboa e Paris, que foram capturados no Brasil e expostos à corte dos monarcas europeus, como uma “Mostra Exótica”.

Ilustração feita por Théodore de Bry, baseado no relato de Hans Staden

A engorda e o tacape

No ritual tupinambá, a vítima nunca era morta na mesma hora que chegava à aldeia. A preparação para sua degustação podia levar dias, até meses.

Na chegada, o inimigo era levado para uma cabana só com mulheres e crianças. Elas o agrediam e cantavam canções de vingança. Depois, penas cinzentas eram coladas ao seu corpo e suas sobrancelhas eram raspadas. Amarrado no centro da aldeia, ele tinha à sua volta uma roda com todos os índios, que cantavam e dançavam por horas.

A partir daí, o prisioneiro era tratado como rei. Davam-lhe uma mulher para servi-lo. Se ela tivesse um filho dessa relação, os índios o criariam até a idade adulta – para então dar-lhe o mesmo destino do pai. A tribo convidava amigos de outras aldeias para participar do banquete. O ritual em si começava quando as vasilhas estavam cheias de uma beberagem à base de raízes fortes e todos os convivas estavam presentes. O prisioneiro participava da farra da taba, que atravessava a noite com danças e bebida farta. Enquanto isso, em uma das cabanas, era pendurado o tacape que daria o golpe fatal no pobre coitado.

Descrito pela revista Super Abril,  de acordo com o relato de Hans Staden.

A peça está no acervo do Instituto Ernesto Zwarg e a à disposição para estudos. O Garoçá estará atento às novidades.

Artefato encontrado pode ir para estudos. Foto de Márcio Ribeiro

Texto, Reportagem e Fotos: Márcio Ribeiro

Pesquisa: Márcio Ribeiro e Fábio Ribeiro

Fonte: Revista Super Abril, Aventura na História Uol e Historia do Mundo.com.br

Agradecimentos: Itamar Zwarg, Instituto Ernesto Zwarg e Fábio Ribeiro

Contato: [email protected]

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