Em tempos de redes sociais, ainda é grande o número de pessoas que dedicam seu tempo à escrita. Mas qual seria o motivo disso? O que será que os motiva a escrever?

De quando em vez sou abordado por algum aspirante a escritor. Invariavelmente as pessoas tendem a achar que o contato com um jornalista é o primeiro passo para uma carreira de sucesso no mundo literário. Estudar literatura ou estruturas narrativas está fora de questão.

Na cabeça de alguns desses aspirantes, basta copiar a fórmula do livro mais vendido do momento. O cidadão é fã do Nicholas Sparks, John Green, J. K. Rowling ou E. L. James e acha que basta plagiar o último lançamento para atingir o sucesso.

Recentemente li algumas páginas de uma história que se passava no Brasil e que os personagens principais se chamavam James e Violet. Também invariavelmente, esses autores ficam ofendidos se não damos continuidade à leitura de suas obras depois da segunda página. “Como você pode julgar minha obra lendo apenas duas páginas?”, questionam indignados.

Estou longe de ser um grande autor, mas acho necessário tentar ajudar os menos experientes. Começo fazendo indicações de leituras, dando dicas de cursos a fazer, comentando sobre a importância da estrutura textual. A resposta é quase sempre a mesma: “gosto de escrever livremente, sem amarras ou estruturas”. Sobre as indicações de leitura, sempre questionam de o porquê ser necessário ler Goethe, “um autor desconhecido e que não vende tanto quanto Cinquenta Tons de Cinza”.

Essas pessoas não conseguem compreender que Os Sofrimentos do Jovem Werther continua sendo reeditado desde 1774, ao passo que Cinquenta Tons de Cinza é apenas um sucesso de massas que pode não perdurar.

Não se lê um clássico para saber o final, mas para entender melhor a si mesmo.

Não discrimino livro nenhum, mas acho que ler sempre o mesmo estilo pode limitar sua visão do que é literatura. Ler de tudo é o melhor investimento que um escritor pode fazer.

Quanto maior a sua bagagem, maior será o domínio sobre a própria literatura. O mito do escritor genial, que cria tudo a partir do nada, não deveria mais existir, mas muita gente ainda acredita nesse engodo. Essas mesmas pessoas acham que os clássicos são chatos, sem nunca ter ao menos tentado trilhar por esse tipo de leitura.

Quanto àquilo que esses pretendentes a escritores produzem, não estão abertos a críticas. A arrogância e o ego impedem o aperfeiçoamento. O apego ao texto não permite que aceitem sugestões. Acreditam piamente que o primeiro livro que escreveram será um grande sucesso, basta que sejam descobertos por um bondoso editor.

E o que é pior, os textos são apresentados sem a devida revisão. Não digo que devam estar perfeitos logo de cara, mas seria importante, ao menos, passar pelo corretor ortográfico do editor de texto. Em resumo, o indivíduo acredita que ganhará a vida escrevendo sem precisar aprender a escrever.

Eu gostaria muito de ajudar, mas o que tenho para oferecer não é do interesse dessa turma. No entanto, isso não me impede de ficar impressionado com a falta de noção. Cada um deles acha que será o novo Paulo Coelho, e isso me faz questionar quais os motivos que os levam a escrever. Se você escreve procurando fama e fortuna, já começou errado.

José Fagner Alves Santos

Imagem de Ichigo121212 por Pixabay

  • Alexandre Nagado

    Olá, Fagner, há quanto tempo!

    Estava lendo seu texto e lembrando coisas parecidas que vivenciei na época em que trabalhava ativamente com quadrinhos e dava aulas sobre o assunto. Muitos jovens entusiasmados querem criar seus próprios quadrinhos (hoje, a maioria quer fazer especificamente mangá) e tentar a sorte em um mercado restrito e competitivo. Independente dos meandros do trabalho profissional, eu via – e vejo muitas deficiências não apenas narrativas ou de arte, mas de construção de história e personagens. Mesmo para gerar uma aventura escapista, uma leitura ligeira, deve haver um trabalho intelectual para se criar algo. Ter uma cultura e um vocabulário razoável, saber sustentar uma argumentação, saber ver uma questão por diferentes ´ângulos, tudo isso ajuda. E não tem jeito melhor de conseguir isso do que lendo, tanto ficção quanto não-ficção.

    Na verdade, conheci aspirantes a quadrinista que sequer liam muitos quadrinhos ou sabiam enumerar roteiristas favoritos.

    Fazendo um paralelo com o final de seu texto, eu diria a jovens aspirantes que “se está tentando contar histórias e não é um leitor de tantas outras, está começando errado.”

    Grande abraço!

    • Fagner

      Nagado, infelizmente essa é a realidade do nosso país. Fico muito triste com tudo isso, mas não há muito que possamos fazer. Recentemente percebi que alguns colegas estão colecionando as edições em capa dura sem ler. Dizem não ter tempo para tal. Eu realmente não sei o que esperar. Obrigado pelo comentário. Estou devendo algumas visitas ao seu blog. Quero saber se já fizestes resenha do Virgem depois dos 30. Vou dar uma olhadinha por lá.

  • Alexandre Nagado

    Fala aí!
    Tem muito colecionador que faz isso mesmo. A compulsão pelo colecionismo é maior que o gosto pela leitura.

    Então, eu fiz sim essa resenha que perguntou. Achei um mangá muito interessante e um pouco perturbador para quem conhece mais a cultura japonesa.

    O Virgem de 30 Anos: http://nagado.blogspot.com/2019/08/virgem-depois-dos-30.html

    Abraço!

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