Ao contrário do que muita gente possa pensar, eu também leio ficção. Esse tipo de leitura deve ocupar entre 30% e 40% das leituras que faço todo mês. Sei que parece pouco, mas, diante do meu volume de leitura, não é algo a se desconsiderar. Inclusive, na fase final do mestrado – há pouco mais de um ano – voltei a ler histórias em quadrinhos. Não leio Marvel ou DC, mas voltei a comprar algumas edições de Tex, Zagor, Lobo Solitário, Akira. Até tentei ler algo no nicho dos super-heróis, mas não me senti tão confortável. Aquela era outra fase.

Conto tudo isso na esperança de mudar parte dessa imagem que algumas pessoas têm de mim, de que sou uma criatura chata e pedante. Acho que até sou, mas não na proporção que se imagina. Minha chatice e misantropia ainda está num nível suportável, ao menos é o que eu gosto de acreditar. Minha implicância não é contra este ou aquele tipo de leitura, o que reclamo é da falta de variedades.

Já comentei isso outras vezes, mas é bom reforçar. Alguns amigos leem histórias em quadrinhos de super-heróis e nada mais. São pessoas que se negam a dar uma chance para qualquer coisa que esteja fora do universo dos seres superpoderosos.  Tem também aquele grupo que é fã do Nicholas Sparks e similares, mas evita ler qualquer outro autor ou estilo. Do ponto de vista do entretenimento não há nada de errado. O indivíduo gosta de determinado estilo, é aquilo que lhe dá prazer. Não há motivos para se forçar a ler algo que não gosta.

Minha implicância começa quando esses mesmos indivíduos se propõem a seguir carreira como escritor. Tente seguir minha linha de raciocínio: o profissional precisa conhecer bem sua área de atuação. Mesmo que ele se especialize em determinado recorte, é preciso que ele tenha uma boa noção das variações possíveis. Autores como Frank Miller são diferenciados por beberem em outras fontes, trazer essas referências para o seu trabalho e tornar tudo mais palatável.

Não conheço as referências do Nicholas Sparks, mas duvido que ele leia apenas um estilo específico de histórias. Todo bom autor traz parte de sua bagagem naquilo que produz. Uma bagagem muito vasta não é garantia de uma grande obra, mas já é um primeiro passo interessante. E é exatamente por isso que também recomendo obras que não sejam ficcionais. Não fará mal a nenhum escritor conhecer um pouco de sociologia, política, economia, culturas diferentes da sua. Essas informações podem ajudar a compor melhor o pano de fundo da história que está sendo contada.

Vejo muitos aspirantes que ensaiam narrativas situadas em Nova Iorque, Londres ou qualquer outra capital cosmopolita, em situações que nunca experienciaram, com resultados que soam falsos e improváveis. Suas experiências de vida são limitadas e suas leituras insuficientes. Mesmo assim, insistem nesse caminho. Acham que a emulação canhestra daquele livro que tanto os agradou irá lança-los ao estrelato. Doce ilusão.

Escrever sobre aquilo que se conhece é sempre uma opção mais viável. Mesmo os autores de ficção científica, ou de fábulas intergalácticas, são pautados por uma realidade pré-existente. Faça uma pesquisa e descubra as influências de Tolkien, J. K. Rowling ou qualquer outro autor do seu interesse. O que há de comum em todos eles é o fato de terem bebido nas mais diversas fontes. Se serviu para eles, talvez sirva para você.

 

José Fagner Alves Santos

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