O arquivo de referências é essencial para jornalistas, escritores, desenhistas ou qualquer outro profissional que trabalha com a criatividade

Hoje já não é mais preciso usar o jornal impresso – Imagem de kai kalhh por Pixabay

A primeira vez em que montei um arquivo com recortes de jornais eu estudava desenho. O professor sugeriu que eu recortasse e colasse, em folhas de sulfite branco, fotografias de veículos, paisagens, rostos, armas, sapatos e tudo mais que eu pudesse. A ideia era ter um referencial para quando fosse preciso desenhar alguma dessas coisas.

Recordo que o meu desenho deu um salto. Eu não precisava mais decorar esses objetos, o arquivo ajudava bastante nesse sentido.

Em paralelo ao desenho eu treinava a escrita. Minha mãe tinha – acho que ainda tem – uma velha máquina de escrever da marca Olivetti. Ela me ensinou a colocar e alinhar o papel, como colocar acento nas palavras – era preciso teclar o sinal de acento antes da letra –, o uso da tecla de retrocesso e mais algumas coisas. Logo que me senti apto vivia a datilografar todo tipo de ideia maluca que me vinha à cabeça.

Percebi que era mais fácil escrever sobre algo quando havia uma referência textual. Da mesma forma que as fotos serviam como referência para tornar o desenho mais realista, os textos serviam como referência quando era necessário buscar uma informação que não estava disponível em minha memória.

Eu recortava páginas inteiras de jornais e revistas para guardar num arquivo em pasta, divido por assuntos. Existia uma pasta para assuntos religiosos, outra para assuntos astronômicos, outra para matérias sobre histórias em quadrinhos e desenhos animados. Eram várias pastas divididas por categoria. Com o passar do tempo as temáticas foram aperfeiçoadas.

Eu fazia tudo isso de forma instintiva. Havia adaptado o método do desenho. Logo meus textos começaram a ficar mais densos e bem estruturados. Eu lia e relia a mesma matéria várias vezes, e isso fazia com que eu internalizasse a própria estrutura do texto. Eu ia copiando o estilo de um jornalista, depois de outro e mais outro, até que essas diversas influências foram se transformando no meu atual jeito de escrever. Posteriormente descobri que aquilo que eu estava fazendo recebia o nome de clipping.

Clipping é uma expressão idiomática da língua inglesa, uma “gíria”, que define o processo de selecionar notícias em jornais, revistas, sites e outros meios de comunicação, geralmente impressos, para resultar num apanhado de recortes sobre assuntos de total interesse de quem os coleciona.

O tempo passou e os computadores começaram a ficar mais baratos, a internet começou a ficar mais acessível. Eu já não mantinha meu arquivo em formato físico. Além de ocupar muito espaço, dava muito mais trabalho para mantê-lo organizado. Agora meu arquivo estava todo em formato digital. Comecei digitalizando todo o material que já tinha. Com o passar do tempo os próprios jornais e revistas começaram a disponibilizar todo seu conteúdo em formato digital.

Até hoje, quando encontro alguma matéria que é do meu interesse salvo num arquivo PDF. Para fins de organização, é preciso que se anote o título da matéria, o nome do autor – ou autores –, nome do fotógrafo ou ilustrador, título da publicação, data em que foi publicada, número da página e editoria. Dessa forma fica mais fácil organizar em diretórios – pastas digitais – nomeados de acordo com a temática ou assunto. Além do mais, fica mais fácil dizer de onde você tirou a informação sobre a qual está escrevendo. Tenho várias pastas com assuntos que são do meu interesse.

Para entender melhor a função desse arquivo, façamos o seguinte exercício mental: supomos que dois repórteres vão entrevistar um vereador para uma matéria sobre o buraco na rua. O primeiro repórter tem um arquivo e, antes de ir para a entrevista, leu todas as matérias que foram publicadas sobre aquele buraco específico. O segundo repórter não tem o arquivo, ou não leu nada sobre o assunto antes da já citada entrevista. Qual dos dois se sairá melhor? O grande segredo é o preparo. Não importa a área de atuação, o ideal é que o profissional esteja sempre preparado. É dessa forma que aumentamos nossas chances de realizar um bom trabalho.

José Fagner Alves Santos

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