PRÓLOGO

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Algumas décadas atrás, em um dos rios que formam a bacia do Congo, foi libertado um vírus que dizimou muitos habitantes africanos e assombrou o mundo…

Avançou por diversas cidades…

Kikwit, no antigo Zaire, foi isolada e quem tentasse fugir era fuzilado.

Dizem que o vírus vivia nos macacos e foi transmitido aos humanos após a ingestão de sangue destes animais. Outros acreditam que foi transmitido por mosquitos.

Na cultura de algumas tribos africanas, bebe-se o sangue dos macacos…

Se é tradição nas tribos milenares, por que só agora o vírus apareceu?

Será que o vírus veio mesmo dos macacos?

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PARTE I : A gruta dos sacrifícios

Em um certo lugar escondido da Serra dos Itatins, litoral de São Paulo, existe ainda hoje um local que cheira sangue e exala um odor de morte, apesar dos quase mil anos passados após o último sacrifício macabro feito no local

O horror e os rituais eram feitos por uma pequena tribo que vivia nas terras baixas da Juréia e se utilizava de toda a área ladeada pela Serra dos Itatins. Moravam em um pequeno flanco e não pertenciam às etnias conhecidas.

Eles acreditavam na existência de demônios e o bem estar de todos estava diretamente ligado a obediência a estes seres malignos.

Moravam entre o semicírculo de montanhas onde é hoje o Guaraú, com limite máximo até o Rio Preto de Peruíbe, onde temiam encontrar os índios Tupiniquins. Ao sul, suas terras chegavam até o Rio Verde, onde rivalizavam com os Índios Carijós de Cananéia.

Os índios tinham medo de aparições demoníacas

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A tribo vivia uma época de crise, onde a colheita não era boa, a caça rareava e a pesca estava amaldiçoada por forças obscuras. Segundo o Pajé, Pero-yba, demônios poderosos trouxeram cobras venenosas do espaço e as inseriram nas quatro ilhas existentes no mar, o que impedia a pesca farta que alimentava a tribo. Eram as ilhas do Guaraú, de Peruíbe, Itaíta e Itaúna (atuais ilhas Queimadas Grande e Pequena). As cobras pestearam o mar e o rio.

De acordo com as tradições daquela tribo, tudo isto se deu por conta da índia Pogoçá (seios de Brejaúva) que envergonhou toda a tribo e enfezou os demônios. A índia, prometida do filho de Pero-yba, fugiu com um índio Carijó, escapando por um morro, chamado hoje de Pogoçá, desde aquela época…

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Somente após três anos de intensa pajelança, as duas ilhas próximas e mais os rios foram libertados da maldição. Tudo voltou ao normal, exceto nas ilhas mais afastadas, onde as cobras malignas permanecem até os dias de hoje.

Durante o período obscuro, macacos eram sacrificados em cada noite de lua cheia e o seu sangue bebido por todos da tribo. No local escolhido ficou o cheiro de morte acumulando eternas energias negativas, chamado pelos nativos de Gruta dos sacrifícios.

O local foi fechado para sempre e coberto por um monte de conchas , feitiços e encantamentos. E coitado de quem tentasse entrar!

O encantamento foi tão poderoso que alguns anos depois surgiu um povo que fez montes iguais por todo o litoral para despistar bruxos, adivinhos e outros conhecedores, para que ninguém se atrevesse a soltar a grande praga. Essa gente ficou conhecida como homens do sambaqui.

Uma frase, com caracteres de sangue, podia ser vista por aquele que se aproximava do verdadeiro local, dizia assim: “Que seja fechada para sempre, sob risco de libertar uma peste que fará mal aos habitantes em um raio de cinco mil léguas…”

Continua…

PARTE II: A Serra dos Itatins

Os anos se passaram e a história da Gruta dos Sacrifícios foi virando lenda. Apesar de muitos conhecerem o passado, poucos acreditavam na veracidade das informações e ainda zombavam dos mais velhos, quando diziam que um grande mal mataria à todos, caso o local fosse profanado…

Vieram os portugueses, os índios se foram, chegaram os caiçaras, os tempos atuais e alguma coisa ainda guarda a região dos Itatins.

Veja bem, prezado leitor: As cobras trazidas por demônios poderosos ainda estão aqui, fruto de uma maldição lançada aos índios mil anos atrás. Será possível que a gruta oculta ainda guarda a tal peste? E o que poderia existir de tão mal com a capacidade de dizimar humanos? Remexendo a história local, alguma coisa realmente guarda a região dos Itatins: Diversos relatos ufológicos; A Porta de Pedra na Serra do Guaraú; A natureza preservada perto de uma das maiores cidades do mundo; A aparição de um Santo nas areias da Praia do Una; A cidade de Iguape que preserva construções antigas e a Mata Atlântica; Lendas, Histórias; Contos…Como se pode ver, a região possui uma atmosfera sinistra e mágica, apesar da mecanicidade dos tempos atuais…

O que será que há por trás de tudo isso? Por que que um local com tanta coisa boa pode guardar algo que pode fazer mal para aqueles que moram no seu entorno?

O mal de que falavam os índios ainda está lá, neste certo ponto na Serra dos Itatins e algum dia alguém irá encontrá-lo. Escrito está, na alma dos antepassados indígenas, que de tempos em tempos, estes seres minúsculos conseguem sair da gruta, quando há chuvas fortes na serra. Também que um vegetal é portador do mal e que esta planta serve de alimentos para alguns mamíferos…

Em uma certa expedição realizada no ano de 1947, algo chamou a atenção de uma pessoa, ao avistar…

Continua…

PARTE III : A Arte Rupestre

Em uma certa expedição, realizada no ano de 1947, um grupo com cinco integrantes resolveu andar na crista da Serra dos Itatins.

O local era ainda mais preservado do que é hoje. Lá em cima, a visão geral era indescritível, pois a imensidão verde fazia com que os olhos sorrissem, com os diversos tons de cores variadas. O azul do céu era tão límpido quanto uma gota de orvalho secando ao sol nascente em uma mata distante. O ar puro enchia os pulmões e revigorava a alma daqueles que estivessem ali, naquela data, pois aquele dia era especial. E muito!

A riqueza mineral e a farta biodiversidade criaram o ambiente propício para que diversos microrganismos se desenvolvessem somente naquele lugar. Alguns deles tiveram êxito e são associados à pequenos vegetais endêmicos ou encrustados em rochas, embebidos por pequenos filetes de água e luz.

Foi então que um dos integrantes resolveu procurar água para beber. Ao entrar em uma gruta, escondido em um dos flancos das serras e oculto por conchas, ficou impressionado com certos desenhos pintados na rocha. Atraído pela arte rupestre daquele mágico local, este homem resolveu explorar um pouco mais, chamando os outros quatro companheiros para acompanhá-lo. Havia ali desenhos estranhos que contavam a história de macacos sacrificados sob o olhar da Lua cheia.

Certos frutos nunca vistos e uma água com um gosto especial foram consumidos pelos cinco expedicionários…

Continua….

PARTE IV : A Montanha de um olho só

Os cinco expedicionários que exploraram a crista da Serra dos Itatins e se atreveram a profanar a Gruta dos Sacrifícios começaram a passar mal já no caminho da volta. Tontura, náuseas e uma forte dor de cabeça torturava o ânimo dos cinco amigos.

Intoxicados pelos vegetais comidos na gruta, contaminados pela água que beberam lá dentro ou teriam eles contraído algum vírus?

Um deles, o mais velho, estava delirando muito. Ao olhar para a montanha de um olho só, viu diversas luzes coloridas que entravam e saíam da montanha. Teve até a impressão de que o olho o observava.

Relinchos, bufares, roncos e susurros chegaram aos ouvidos dele. Foi, como por encanto, no auge de sua alucinação, que viu diversos índios nus correrendo em sua direção, como se ele fosse o inimigo maior de toda a tribo ou como se carregasse uma grande praga.

As dores começaram a tomar conta , como se ele tivesse levado flechadas por todo o corpo.

Caído, com o rosto em cima de um formigueiro, começou a babar. As formigas surpreendentemente não atacaram, pois fugiram desesperadas!

Morreu indigente, devorado pela lei implacável da Mata Atlântica de que tudo circula e se movimenta.

E assim foi acontecendo o mesmo com os seus amigos. Um a um dos expedicionários foi morrendo pelo caminho, com o mal que contraíram na gruta dos sacrifícios. Outro deles, o mais novo, ainda olhou para a montanha caolha e entendeu que a salvação está lá dentro em algum local, compreendendo alguns desenhos rupestres vistos anteriormente.

Mas não teve tempo de praticar a sua descoberta, pois encontrou-se com o único mal irremediável que existe na face da terra, sob os olhares de três magros urubus-reis que aguardavam pacientemente a sua refeição…

continua…

PARTE V : O fim é só o começo

Os corpos dos expedicionários mortos ficaram jogados na mata, nas proximidades do Rio Una do Prelado. Após alguns dias, o cheiro forte atraiu os moradores da redondeza que procuravam caça pelo local.

Três corpos ainda estavam lá. Os outros dois sumiram. Provavelmente comidos pelas onças da região, ou teriam eles desaparecidos por alguma força maior?

Benedito Maia foi o encarregado de levar os corpos em sua canoa, feita por ele mesmo, do tronco de um Guapuruvu.

Chegando na “Vila” onde morava, localizada em uma volta do Rio Una, tratou de mandar o mensageiro, via Estrada do Telégrafo, para contatar as autoridades de Peruíbe sobre o ocorrido.

Este intervalo de mensagem ir e autoridade chegar durou aproximadamente seis dias, pois não deram a devida atenção ao caso.

Quando as autoridades chegaram na Vila, encontraram os moradores muito debilitados, contaminados pelo vírus que habitava os corpos dos defuntos expedicionários. Alguns deles já estavam mortos.

Crianças, jovens e mulheres. O desespero era grande e a situação de calamidade pública. As autoridades, com medo, não ousaram se aproximar. O único que teve o contato com os caiçaras moribundos foi o professor Mario Lochela, que ajudou de perto os moradores do jeito que podia.

A Secretaria de Saúde do Estado foi acionada e logo a Vila foi isolada. Nenhum morador tinha permissão para sair de lá e o contato com outras pessoas foi proibido. A vila foi dizimada!

Após este episódio, nunca mais se ouviu falar do vírus na Juréia. Mas os registros oficiais apontam que ele ainda está lá, em alguma volta do rio e também em alguma gruta, pronto para ser despertado. Qualquer um pode acessar estes documentos que está em posse do governo paulista.

O Governo do Estado, com medo de que o vírus se espalhasse, afastou o professor Mario Lochela, mesmo sendo ele o único que podia dar alguma pista ou informação sobre a mortandande ocorrida.

Graças ao trabalho do consulado brasileiro na África, o professor recebeu uma proposta e foi trabalhar no Zaire, atual Congo, na fronteira com a República Centro Africana. E por lá, trabalhando e vivendo entre os Rios do Congo, Ubangi e seus afluentes, viveu o resto de sua vida, que infelizmente não durou muito…

EPÍLOGO

Algumas décadas atrás, em um dos rios que formam a bacia do Congo, foi libertado um vírus que dizimou muitos habitantes africanos e assombrou o mundo…Apareceu do nada e repentinamente não se ouviu mais falar dele…

Não culpem a África pelo aparecimento de diversas doenças. Só mesmo em um continente rico em biodiversidade e com a natureza exueberante pode pulsar vida em abundância e brotar com facilidade diversas criações da natureza…

Criação e Autoria: Márcio Ribeiro

Fotos e Textos: Márcio Ribeiro

Citação: Hans Staden

Publicação original: Jornal Bem-te-vi impresso

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