Durante a semana passada, entre o primeiro dia de fevereiro até o dia 06, precisei – por motivos pessoais – me ausentar do trabalho. Avisei aos meus empregadores. Expliquei que, tão logo resolvesse meus problemas, estaria de volta para dar continuidade aos projetos. “Claro. Pode ir, não precisa se preocupar”, disseram eles. Trabalhando como correspondente para um periódico do litoral e como revisor para uma pequena editora, acreditei que realmente estaria amparado, que não perderia meu emprego.

A verdade é que o mercado editorial brasileiro não vai muito bem. A Folha de São Paulo voltou a demitir, muitos outros veículos de comunicação seguem o mesmo rumo. Não é que os editores sejam pessoas malévolas, é que não há recursos para bancar todo o corpo de profissionais de antes. Para piorar, a crise que atinge o Brasil está crescendo. A inflação vem tirando qualquer possibilidade de novos investimentos.

Voltei aos meus afazeres no domingo – dia 08 – e descobri que havia sido demitido. Não de um, mas dos dois empregos. O choque foi grande. Como todo cidadão, tenho minhas contas para honrar. Mas, até aí tudo bem, são coisas que acontecem. A crise está feia, o mercado editorial não vai bem. O problema se deu quando, hoje pela manhã, recebi proposta oficial do jornal em que eu trabalhava. Eles querem que eu volte a escrever para o diário, mas não como repórter. Calma, eu explico: para reduzir custos, o jornal cortou a maioria dos repórteres. Agora eles compram as matérias das agências de notícias e pagam a um grupo de redatores para “cozinhar” todo o material. Aí, você me pergunta: pagando bem que mal tem? E eu respondo que o problema é exatamente o fato de não pagarem bem. A proposta é de oito reais por cada “cozinha” de 600 palavras. Que tal?

Mais uma vez cito Dom Quixote. Em determinado trecho do livro, quando o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro são amparados numa estalagem após terem sofrido uma sova de pauladas, o nobre fidalgo pergunta a Sancho Pança se ele poderia guardar um segredo. “Mas tens de jurar que manterás segredo até a minha morte o que quero te dizer agora”, exige o cavaleiro. E Sancho responde ironicamente, “(…) juro que calarei até o fim dos dias de vossa mercê, mas, se Deus quiser, que eu possa contar amanhã”.

Quem entendeu, entendeu.