Expor ou compartilhar ideias defendidas por determinado autor não é o mesmo que concordar com elas. Concordar com um ponto ou outro não é abraçar o argumento como um todo. Acho necessário fazer essa ressalva já que estou expondo aqui algumas teorias argumentativas sobre o início da religião (v. O nascimento da religião, segundo Freud e O nascimento da religião, segundo René Girard). A verdade é que, sabemos muito pouco sobre as motivações psicológicas que nos levaram a construir narrativas religiosas. Muito já se escreveu sobre o assunto, mas sempre com documentação insuficiente.

É comum encontrarmos revistas ou documentários garantindo esclarecer o passado secreto de Jesus, mas são sempre as mesmas informações requentadas. A documentação que temos sobre essa figura histórica é quase nula. Foco aqui no cristianismo pelo simples fato de ser essa a religião dominante em nosso país. Há similaridades entre os vários credos, mas existem também diferenças significativas mesmo entre as variadas ramificações do cristianismo. As interpretações são subjetivas, e é por isso que as modificações vão acontecendo. E isso sempre foi assim.

Ressalto aqui, portanto, que o intuito deste conteúdo sequencial é falar sobre como essas variações afetaram o modo como nós, seres humanos, temos de enxergar o mundo. Grosso modo, antes do cristianismo era comum acreditar que os deuses eram seres vingativos e mesquinhos. Zeus, o deus supremo do Olimpo, traiu sua esposa várias vezes, teve vários filhos fora do casamento, inclusive com humanas. Tal atitude seria impensável na crença cristã. Mas não é só isso. A figura do diabo – uma criatura que é o mal encarnado – não existe em muitas religiões. A própria visão de dualidade, a eterna guerra entre o bem e o mal, começa com a religião maniqueísta. Santo Agostinho (354-430 d.C.) era seguidor da religião criada por Mani, só depois se converteu ao cristianismo. Essa religião propunha que a guerra entre a luz e as trevas continuariam para sempre. Os seguidores do cristianismo, Agostinho incluso, apontavam que haveria um momento final no qual o bem prevaleceria e destruiria o mal definitivamente.

Alguns séculos depois, movimentos revolucionários começaram a negar a verdade das religiões. Propunham, no entanto, que a sociedade avançava para uma forma única de governo, o livre mercado ou a sociedade comunista, o modelo dependia de quem estava defendendo o argumento. Mas essa crença de que a sociedade estava para se transformar numa estrutura em que todos os problemas seriam resolvidos é uma variação explícita das crenças religiosas mais antigas. É a esse tipo de crença que o filósofo John Gray chama de religiões políticas. E é sobre esse assunto que vamos conversar.

José Fagner Alves Santos

P.S. Os podcasts sairão a cada 15 dias.

 

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