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Um panorama

Um panorama das realidades filosóficas e religiosas do início do Cristianismo, as pregações de Paulo e os escritos de Lucas

 

Tornei-me aquele que eu tanto temia me tornar. Um cético. Um agnóstico — sequer com fé suficiente para ser ateu. Um homem que pensa que o contrário da verdade não é a mentira, mas a certeza. E o pior de tudo é que, do ponto de vista daquele que eu fui, até que vou me saindo bem. Assunto encerrado, então? Não de todo, com certeza, pois, quinze anos após ter guardado meus cadernos de comentário evangélico numa caixa de papelão, me veio o desejo de dar voltas novamente em torno desse ponto central e misterioso da história de nós todos, da minha história pessoal. De voltar aos textos, isto é, ao Novo Testamento. O caminho que segui antigamente como fiel, vou segui-lo hoje como romancista? Como historiador? Ainda não sei, não quero decidir, não acredito que o rótulo tenha tanta importância assim. Vá lá, como investigador.

Se não ilumina, a figura de Jesus cega. Não quero encará-la. Disposto a subir o rio até a nascente, prefiro iniciar a investigação um pouco a jusante e começar por ler, tão atentamente quanto possível, as cartas de são Paulo e os Atos dos Apóstolos. Os Atos dos Apóstolos são a segunda parte de uma narrativa atribuída a são Lucas, a primeira sendo o Evangelho que leva seu nome. Normalmente, deveríamos ler, um depois do outro, os dois livros que o cânone bíblico separou. O Evangelho narra a vida de Jesus, os Atos dos Apóstolos, o que aconteceu ao longo dos trinta anos após sua morte, isto é, as origens do cristianismo.

VOLTEMOS A LUCAS

Lucas não era um seguidor de Jesus. Não o conheceu. Nunca diz “eu” em seu Evangelho, que é uma narrativa de segunda mão, escrita meio século após os acontecimentos relatados. Em contrapartida, Lucas era companheiro de Paulo, os Atos dos Apóstolos são em grande parte uma biografia de Paulo, e, em certo momento dessa biografia, acontece uma coisa surpreendente: passa-se, de uma hora para a outra, sem aviso nem explicação, da terceira pessoa para a primeira. É um momento sutil, quase imperceptível, mas, quando reparei nele, quase caí para trás. Ei-lo, está no capítulo 16 dos Atos: “Ora, durante a noite, sobreveio a Paulo uma visão. Um macedônio, de pé diante dele, fazia-lhe este pedido: ‘Vem para a Macedônia, e ajuda-nos!’. Logo após a visão, procuramos partir para a Macedônia, persuadidos de que Deus nos chamava para anunciar-lhes a Boa-Nova. De Trôade, partindo para o alto-mar, seguimos em linha reta para Samotrácia. De lá, no dia seguinte, para Neápolis”.

Quem esse “nós” abarca não é claro: talvez um grupo inteiro, composto pelo narrador e por companheiros que ele não julga suficientemente importantes para serem nomeados. Pouco importa: nos dezesseis capítulos anteriores, líamos uma crônica impessoal das aventuras de Paulo, e eis que de repente surge alguém, que fala. Ao cabo de algumas páginas, esse alguém se esconde. Retorna aos bastidores do drama, de onde ressurgirá alguns capítulos adiante para não deixar mais o palco até o fim do livro. À sua maneira, que é ao mesmo tempo abrupta e discreta, ele nos diz o que o evangelista nunca diz: eu estava lá. As coisas que eu conto, eu as testemunhei. Quando me contam uma história, gosto de saber quem a está contando. Daí eu preferir as narrativas em primeira pessoa, é por isso que escrevo assim e seria inclusive incapaz de escrever o que quer que seja de outra forma. Assim que alguém diz “eu” (mas “nós”, a rigor, já resolve), tenho vontade de acompanhá-lo e descobrir quem se esconde por trás desse “eu”. Entendi que ia acompanhar Lucas, que o que escreveria seria em grande parte uma biografia de Lucas e que aquelas poucas linhas dos Atos dos Apóstolos eram a porta que eu procurava para entrar no Novo Testamento. Não a grande porta, não a que abre para a nave, para o altar, e sim a portinhola lateral, dissimulada: exatamente do que eu precisava.

Tentei dar um zoom, como fazemos com o Google Maps, no ponto preciso do tempo e do espaço em que surge esse personagem que, nos Atos, diz “nós”. No que se refere à época, e, segundo uma dedução de que ninguém ainda faz ideia, estamos, com uma margem de erro de um ou dois anos, em torno do ano 50. Quanto ao lugar, é um porto situado na costa ocidental da Turquia, então conhecida como Ásia: Trôade. Nesse ponto preciso do tempo e do espaço, dois homens, futuramente designados como são Paulo e são Lucas, mas que no momento chamam-se simplesmente Paulo e Lucas, se encontram.

Sabemos muita coisa sobre Paulo, que, talvez mais ainda que Jesus, para o bem e para o mal, configurou vinte séculos de história ocidental. Ao contrário do caso de Jesus, sabemos de maneira segura o que ele pensava, como se exprimia e qual era seu caráter, pois subsistiram cartas suas de indiscutível autenticidade. Sabemos também, o que ignoramos completamente no que se refere a Jesus, um pouco sobre sua aparência. Ninguém gravou seus traços em vida, mas todos os pintores que o retrataram levaram em conta sua própria descrição, carrancudo, corpo atarracado e desgracioso, de compleição sólida, porém ao mesmo tempo enfermo. Concordam em pintá-lo calvo, barba hirsuta, testa protuberante, sobrancelhas juntando-se acima do nariz, e esse rosto é tão distante de qualquer convenção estética que conclui-se que Paulo devia pura e simplesmente parecer com isso.

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O QUE SABEMOS SOBRE LUCAS?

Sobre Lucas, sabemos muito menos. Na realidade, quase nada. Embora uma lenda tardia, à qual voltarei, cite-o como o padroeiro dos pintores, não há tradição pictórica consolidada a seu respeito. Paulo, em suas cartas, menciona seu nome em três oportunidades. Chama-o “Lucas, o médico amado”. Não se falava Lucas, é claro, mas Lukas em grego e, em latim, Lucanus. Da mesma forma, Paulo, cujo nome judaico era Shaul, como cidadão romano usava o nome Paulus, que significa “o pequeno”. Uma tradição considera Lucas sírio, nascido em Antioquia, mas o lugar de seu encontro com Paulo, entre Europa e Ásia, e o fato de lhe ter servido, como logo veremos, de guia na Macedônia, por cidades que lhe eram familiares, sugerem ter sido macedônio. Último indício: o grego em que seus dois livros foram escritos é, segundo os helenistas — não tenho como verificar —, o mais elegante do Novo Testamento. Resumindo: estamos às voltas com um médico instruído, de língua e cultura gregas, não com um pescador judeu.

Esse grego, no entanto, viria a ser atraído pela religião dos judeus. Sem isso, não teria estabelecido contato com Paulo. Não teria compreendido nada do que Paulo dizia.

Um grego atraído pela religião dos judeus, isso quer dizer o quê? Em primeiro lugar, isso era comum. O filósofo romano Sêneca constata com desprezo, o historiador judeu Flavius Josefus, com satisfação: em toda parte no império, isto é, no mundo, há pessoas que observam o Shabat, e essas pessoas não se restringem aos judeus. Em segundo lugar, sei perfeitamente que convém desconfiar das equivalências fáceis demais, mas imagino esse entusiasmo pelo judaísmo, bastante disseminado no primeiro século na costa do Mediterrâneo, um pouco como o interesse pelo budismo entre nós: uma religião ao mesmo tempo mais humana e mais refinada, com o complemento de alma que faltava ao paganismo extenuado.

OS MITOS GREGOS

Imagem de Poseidon no meio do mar, erguendo seu tridente

Ignoro até que ponto os gregos do tempo de Péricles acreditavam em seus mitos, o fato é que cinco séculos mais tarde não acreditavam mais, nem eles nem os romanos que os haviam conquistado. Em todo caso, a maioria deixara de acreditar, no sentido em que a maioria de nós não acredita mais no cristianismo. Isso não impedia a observância aos ritos, nem os sacrifícios aos deuses, mas da mesma maneira que celebramos Natal, Páscoa, Ascensão, Pentecostes, o Quinze de Agosto. Acreditava-se em Zeus brandindo o raio como as crianças acreditam no Papai Noel: não por muito tempo, não de verdade.

Quando Cícero, numa formulação célebre, escreve que dois áugures não conseguem se encarar sem cair na risada, não está exprimindo um atrevimento de livre-pensador, e sim a opinião mais geral — opinião essa que devia ser ainda mais cética que a nossa, pois, por mais descristianizada que seja nossa época, ninguém escreveria a mesma coisa a respeito de dois bispos: sem necessariamente acreditarmos no que eles dizem, acreditamos que eles, ao menos, acreditam. Daí, naquele tempo, como hoje, o apetite pelas religiões orientais, e em matéria de religião oriental o que havia de melhor no mercado era a religião dos judeus.

Seu deus único, embora menos pitoresco que os deuses do Olimpo, satisfazia às aspirações mais elevadas. Os que o adoravam pregavam pelo exemplo. Eram graves, industriosos, totalmente isentos de frivolidade. Até mesmo quando eles eram pobres, e costumavam ser, o amor exigente e caloroso que se manifestava em suas famílias incitava a imitá-los. Suas preces eram verdadeiras preces. Quando alguém estava insatisfeito com sua vida, pensava que a deles tinha mais densidade e peso. Os judeus chamavam de goyim, que traduzimos por “gentios”, todos os não judeus, e de “prosélitos” os gentios a quem o judaísmo atraía. Davam-lhes boa acolhida. Se quisessem realmente se tornar judeus, deviam se submeter à circuncisão, observar a Lei em sua integralidade, era como hoje a maior complicação, e eram raros os que enveredavam por esse caminho.

DAS VARIAÇÕES DO JUDAÍSMO

Muitos limitavam-se a observar os princípios de Noé: uma versão abrandada da Lei, restrita aos mandamentos mais importantes e expurgada das prescrições rituais que servem acima de tudo para separar os filhos de Israel dos outros povos. Esse mínimo permitia aos prosélitos entrar nas sinagogas. Sinagogas havia em toda parte, em todos os portos e cidades de certa relevância. Eram construções insignificantes, quase sempre simples casas particulares e não igrejas ou templos. Os judeus tinham um Templo, apenas um, como tinham um deus, apenas um. Esse templo ficava em Jerusalém. Havia sido destruído, depois reconstruído, ele era magnífico. Os judeus espalhados pelo mundo, os que representavam a diáspora, enviavam anualmente um óbolo para sua manutenção. Não se sentiam obrigados a efetuar uma peregrinação até lá.

Alguns o faziam, para outros a sinagoga bastava. Desde o tempo de seu exílio na Babilônia, estavam acostumados a que suas relações com seu deus tomassem corpo não num edifício majestoso e remoto, e sim nas palavras de um livro, e a sinagoga era aquela morada modesta e próxima onde, a cada Shabat, retiravam-se de um armário os rolos desse livro que não se chamava Bíblia, menos ainda Antigo Testamento, e sim Torá. Esse livro era em hebraico, que é a antiga língua dos judeus, língua em que seu deus se pronunciou, mas mesmo em Jerusalém muitos não a compreendiam: era preciso traduzi-la para seu idioma moderno, o aramaico.

Em todos os outros lugares, aliás, os judeus falavam grego, como todo mundo. Até os romanos, que haviam conquistado os gregos, falavam grego — o que, pensando bem, é tão estranho como se os ingleses, após conquistarem a Índia, se houvessem aplicado no sânscrito e este tivesse se tornado a língua dominante no mundo inteiro. Em todo o império, da Escócia ao Cáucaso, as pessoas cultas falavam bem o grego e as pessoas da rua o falavam mal. Falavam o que chamavam de grego koiné, que significa comum no duplo sentido de compartilhado e vulgar, uma coisa análoga ao nosso broken english.

No século II antes de nossa era, os judeus de Alexandria começaram a traduzir suas escrituras sagradas para essa língua doravante universal, e a tradição reza que o rei grego do Egito Ptolomeu Filadelfo ficou tão encantado com essas primeiras amostras que encomendou uma tradução completa para sua biblioteca. A seu pedido, o sumo sacerdote do Templo de Jerusalém teria enviado a Faros, ilha próxima à costa egípcia, seis representantes de cada uma das doze tribos de Israel, ao todo setenta e dois eruditos, que, embora trabalhando individualmente, teriam chegado a traduções absolutamente idênticas. Viu-se nisso a prova de que estavam inspirados por Deus, e eis por que essa Bíblia grega ganhou o nome de Bíblia Septuaginta.

 

O JUDAÍSMO E AS ESCRITURAS QUE LUCAS CONHECIA

Busto grego de homem barbudo

Era essa Bíblia que Lucas devia ler, ou melhor, ouvir ser lida, quando ia à sinagoga. Conhecia principalmente os cinco primeiros livros, os mais sagrados, chamados de Torá. Conhecia Adão e Eva, Caim e Abel, Moisés e o faraó, as pragas do Egito, a errância no deserto, o mar se abrindo, a chegada à terra prometida e as batalhas pela terra prometida. Perdia-se um pouco, em seguida, nas histórias dos reis que vieram depois de Moisés. Davi e sua funda, Salomão e sua justiça, Saul e sua melancolia, ele conhecia tudo isso como um estudante conhece os reis da França — já é algo se souber que Luís XIV vem depois de Henrique IV.

Mesmo as ouvindo com respeito e procurando tirar proveito delas, ele devia torcer, ao entrar na sinagoga, para não topar com uma daquelas intermináveis genealogias que os velhos judeus escutam de olhos fechados, balançando a cabeça, como se perdidos num sonho. Aquelas ladainhas de nomes judeus soavam como uma cantiga que houvesse embalado suas infâncias, mas ela não tinha embalado a de Lucas, que não via por que se interessar pelo remoto folclore de outro povo, quando não se interessava sequer pelo do seu. Pacientemente, aguardava o comentário que sucedia à leitura e deduzia o sentido filosófico daquelas histórias exóticas e pueris, quase sempre bárbaras.

A trama dessas histórias é a relação passional entre os judeus e seu deus. Esse deus, em sua língua, chama-se Iahweh, ou Adonai, ou ainda Elohim, mas os judeus da diáspora não acham inconveniente que os prosélitos o chamem, em grego, Kyrios, que significa Senhor, ou Theos, que quer dizer simplesmente deus. É a versão deles de Zeus, mas ele não é mulherengo feito Zeus. Ele não se interessa pelas garotas, somente pelo seu povo, Israel, ao qual ama com um amor exclusivista, interessando-se mais de perto pelos seus assuntos do que o fazem os deuses gregos ou romanos.

AS INTRIGAS DAS DIVINDADES GREGAS

Os deuses gregos e romanos vivem entre si, maquinam suas intrigas entre si. Preocupam-se com os homens como os homens se preocupam com as formigas. As relações com eles limitam-se a alguns ritos e sacrifícios fáceis de cumprir: fez, está em dia. O deus dos judeus, em contrapartida, exige dos judeus que eles o amem, que pensem nele incessantemente e executem sua vontade, e essa vontade é exigente. Ele quer o melhor para Israel, o que se verifica ser sempre o mais difícil. Deu-lhe uma Lei cheia de proibições que o impedem de interagir com os outros povos. Quer que ele trilhe caminhos íngremes — na montanha, no deserto, longe das planícies hospitaleiras onde outros povos passam a vida no sossego.

Vez por outra Israel refuga, gostaria de repousar, interagir com os outros povos, levar uma vida tranquila como eles. Seu deus então fica colérico e ou lhe impõe provações, ou lhe envia homens inspirados e rabugentos para lembrar-lhe sua vocação. Eles se chamam Oseias, Amos, Ezequiel, Isaías, Jeremias. Eles mordem e assopram, sobretudo mordem. Irrompem diante dos reis para lhes exprobar a conduta. Prometem ao povo herege terríveis catástrofes a curto prazo e, mais tarde, se ele voltar ao bom caminho, um happy end que se resume ao reinado de Israel sobre todas as outras nações. Tal reinado não passaria de uma restauração, pensam os judeus, que vivem na nostalgia de uma época lendária em que seu reino era poderoso.

Um grego como Lucas é capaz de compreendê-los. Por mais diferentes que fossem, judeus e gregos alinham-se, sob o jugo romano, na mesma coluna. Suas cidades outrora gloriosas tornaram-se colônias romanas. Nem a ágora dos gregos nem o Templo dos judeus detêm mais qualquer poder. No entanto, uma vez que se situam num outro plano, alguma coisa de suas glórias passadas subsiste. Depois de Alexandre, os romanos são os melhores conquistadores que o mundo conheceu, administrando o que conquistaram com muito mais discernimento do que ele. Isso não impede que gregos e judeus não conheçam rivais em seus terrenos, que constituem o que hoje chamaríamos, de um lado, a cultura, do outro, a religião.

No que se refere aos gregos, os romanos não pensam duas vezes: puseram-se a falar sua língua, a copiar suas estátuas, a imitar seus requintes com zelo de arrivistas. Quanto aos judeus, eles sobressaem menos nitidamente na massa dos povos orientais briguentos e bizarros que os romanos subjugam sem frequentar, mas nesse aspecto os judeus não estão nem aí: sabem-se superiores, eleitos pelo deus verdadeiro, campeões do mundo de amor a ele. Exaltam-se ante o contraste entre a obscuridade de sua condição presente e a incomensurável grandeza a que são conclamados.

EXISTIAM GREGOS E GREGOS

Alguns gregos, como Lucas, impressionam-se com isso. Atenção: quando eu falo “os gregos”, quando são Paulo fala “os gregos”, o termo não designa só o pequeno povo de aristocratas que, no século V antes de nossa era, inventou a democracia, mas todos os povos dos países conquistados por Alexandre, o Grande, duzentos anos mais tarde e que falavam grego. A partir do século III, a pessoa tornava-se grega por assimilação cultural, o que não tinha nada a ver nem com o sangue nem com o solo. Na Macedônia, na Turquia, no Egito, na Síria, na Pérsia e até na Índia, desenvolveu-se uma civilização que denominamos “helenística”, parecida com a nossa em muitos aspectos e que, como a nossa, poderíamos qualificar de globalizada.

Era uma civilização submissa, frívola, inquieta, viúva de ideais. Aquela da cidade, que fizera a grandeza da Grécia no tempo de Péricles, ficara na poeira do tempo. Não se acreditava mais nos deuses, mas havia quem acreditasse na astrologia, na magia, nos maus augúrios. Ainda se invocava o nome de Zeus, mas isso se fazia, em meio ao povo, para amestiçá-lo num sincretismo super New Age com todas as divindades orientais que estivessem ao alcance da mão e, entre os eruditos, para transformá-lo em pura abstração.

A filosofia, que três séculos antes cuidava da melhor maneira de governar as cidades, sabia que, nesse terreno, não apitava mais nada. Transformara-se em mera receita de felicidade individual. A cidade não podendo mais ser autônoma, cabia ao homem sê-lo, ou tentar sê-lo. A escola estoica, que foi a ideologia predominante na época, incitava o indivíduo a se proteger do mundo, a ser uma ilha, a cultivar as virtudes negativas: a apatia, que é a ausência de sofrimento, a ataraxia, que é a ausência de inquietude e dá seu nome a um ansiolítico do qual tomei doses cavalares num momento de minha vida, o Atarax.

Nada é mais desejável, diz o estoicismo, que a ausência de desejos: só ela proporciona a tranquilidade da alma. O budismo não está longe. Não teria por que a longa cena conjugal entre Israel e o deus de Israel interessar a Lucas se ele não a interpretasse como uma alegoria das relações entre o homem — preguiçoso, inconstante, disperso — e alguma coisa, dentro ou fora dele, maior que ele. Essa alguma coisa, os escritores antigos chamavam-na indiferentemente de deuses ou deus, ou natureza, ou destino, ou Logos, e a instância secreta da vida de cada indivíduo é a relação que ele mantém com essa força.

O PLATONISMO DE FÍLON

Havia em Alexandria um rabino muito festejado chamado Fílon, que tinha como especialidade ler as escrituras de seu povo à luz de Platão e assim compor uma epopeia filosófica. Em vez de imaginar, como o primeiro capítulo do Gênesis, um deus barbudo indo e vindo num jardim, que teria criado o universo em seis dias, Fílon dizia que o número seis simbolizava a perfeição e que não era à toa que, contrariando toda lógica aparente, havia nesse mesmo livro do Gênesis dois relatos da criação contraditórios: o primeiro conta o nascimento do Logos, o segundo, a modelagem do universo material pelo demiurgo já mencionado no Timeu de Platão.

A cruel história de Caim e Abel colocava em cena o eterno conflito entre o amor de si e o amor de Deus. Quanto à tumultuosa ligação entre Israel e seu deus, ela era transposta para o plano íntimo, entre a alma de cada um e o princípio divino. Exilada no Egito, a alma definhava. Conduzida por Moisés ao deserto, ela aprendia a sede, a paciência, o desânimo, o êxtase. E quando chegava diante da terra prometida, tinha de guerrear contra as tribos que se haviam instalado e massacrá-las selvagemente. Essas tribos, segundo Fílon, não eram verdadeiras tribos, e sim as paixões funestas que a alma devia domar.

Da mesma forma, quando Abraão, viajando na companhia da mulher Sara, é hospedado por beduínos sinistros e, para não arranjar confusão com eles, lhes sugere que eles durmam com Sara, Fílon não culpava os costumes rudimentares de outrora, ou do deserto, por aquela cafetinagem: não, afirmava que Sara era o símbolo da virtude e que era muito bonito da parte de Abraão não conservá-la apenas para si.

Esse método de leitura que os retóricos chamavam de alegoria, Fílon preferia chamar de trepein, que significa passagem, migração, êxodo, pois, sendo perseverante e puro, o espírito do leitor saía dela modificado. Cabia a cada um realizar seu próprio êxodo espiritual, da carne ao espírito, das trevas do mundo físico ao espaço luminoso do Logos, da escravidão no Egito à liberdade em Canaã.

FÍLON E JESUS

Fílon morreu já ancião, quinze anos depois de Jesus, de cujo nome certamente nunca ouviu falar, e cinco anos antes de Lucas encontrar Paulo no porto de Trôade. Lucas o leu?, não faço ideia, mas acho que o que ele conhecia do judaísmo era uma versão fortemente helenizada, que tendia a traduzir a história desse pequeno povo exótico, quase imperceptível no mapa, em termos acessíveis ao ideal grego de sabedoria.

Ao ir à sinagoga, não tinha em absoluto a impressão de abraçar uma religião, e sim, muito mais, a de frequentar uma escola de filosofia — exatamente como, praticando ioga ou meditação, nos interessamos pelos textos budistas sem nos julgarmos obrigados a acreditar nas divindades tibetanas ou a nos debulharmos em orações.

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