Eu também dei no pé quando vi umas 100 pessoas correndo em minha direção, armados com paus, facas, blocos e outros objetos. Na verdade, todos correram! Toda aquela confusão poderia ter dado em tragédia.

Imagem: Pixabay

Os jogos Estudantis de 1999

Tudo aconteceu em 1999, na Escola Bernardino de Itanhaém (hoje municipal), local onde aconteciam os esperados jogos estudantis da D. E. de São Vicente.

Eu defendia a escola Carmem Miranda e o nosso segundo jogo era contra o Benedito Calixto. O ginásio estava lotado e bonito de se ver. Torcedores cantavam e inventavam gritos de guerra para incentivar as suas escolas. Meninas de outras cidades nos olhavam com mal disfarçado interesse. Garotas desfilavam em frente a arquibancada, aguardando gracejos. Meninos locais tentavam nos intimidar com as suas caras feias. Em algum canto, dois jovens se amassavam…

Na quadra estava jogando a escola do Guaraú, da qual ganhamos pelo placar de 4×1, alguns dias antes e com um gol meu. Lembro que chutei de longe e o goleiro tentou defender com mãos de alface…

Lembrava-me disso quando encontrei o meu professor de dois anos antes, o Celso, do Ottoniel Junqueira, que jogaria logo após a nossa partida. Cumprimentei e comecei um papo com ele, quando a minha professora de então – a Avani (em memória) – chamou…

Despedi-me dele, profissional muito competente, do qual eu tenho muito carinho e apreço, e fui para o vestiário.

Professor Celso. Arquivo

O Ritual de Preleção

Dei aquela enchida de ar no pulmão (em profunda devoção, respeito e veneração ao jogo, coisa que não fazem mais) e caminhei concentrado para o vestiário, aguardando o porvir do certame.

Trocamo-nos. Fizemos um círculo abraçados e com a ponta do pé encostada na ponta do pé do colega ao lado – para não quebrar a corrente – e todos fitavam o meio do círculo, onde estava a bola. Cuspimos palavras de incentivo – aquele papo de jogo pra homem e blá, blá, blá – e rezamos aos gritos o Pai Nosso e a Ave Maria. As mãos se sucediam, uma em cima da outra num círculo concêntrico, e gritamos:

-Um por todos – Todos por um

-Um por todos – Todos por um

-Um por todos – Todos por um

E com palmas e aplausos encerramos o ritual de preleção.

A nossa torcida

Após sairmos do vestiário, aguardamos na lateral da quadra a nossa pequena torcida – que pagou o Breda para nos ver jogar – chamar um a um os seus jogadores.

A música da nossa escola era cantada assim:

“Eu tenho a força, sou invencível, vamos amigos e unidos venceremos a semente do mal.
Lá, láaaa……Car-mem.”

Car-Men, em vez de He-man

Carmem Miranda x Calixto

Entramos na quadra, começamos o aquecimento e os chutes ao gol, para esquentar as mãos do goleiro e testar as fitas cinzas que consertavam os nossos tênis, mas o Calixto não aparecia.

Logo, a Avani surgiu correndo e começou a mandar a gente ir embora. E rápido. Ela estava com a cara marota e feliz. Havia passado o horário de tolerância da partida e nos apressamos para vencer o jogo mais difícil da chave por W.O, já que o adversário não tinha chegado.

Rapidamente trocados, deixamos o ginásio com os pontos da partida na bagagem e caminhamos felizes para o ponto de ônibus com mais uma missão cumprida.

Logo que começamos a caminhada a pé – seriam 500 metros até o local de embarque para o retorno -, um ônibus apareceu querendo nos fechar o caminho, com uma gritaria de alunos. Era o time do Calixto, exigindo a nossa volta para a realização da partida.

O professor deles desceu e pediu para conversar com a Avani. Um de frente para o outro e com os seus respectivos alunos em volta, os professores travaram o seguinte diálogo:

O diálogo

Professor do Calixto: – “Oi, Avani. Deu um probleminha e me atrasei um pouco. Vamos voltar para o jogo?

Avani: “Não posso. Eu tenho horário e a organização do campeonato também. Agora já ganhamos os pontos.”

Professor do Calixto: “Mas, Avani. Eles treinaram bastante para o jogo, não é justo com eles.”

Avani: “Desculpe, professor. Não é justo com os meus alunos. Nós viemos de Peruíbe, chegamos no horário e vocês que moram aqui não conseguem chegar? E se fosse com a gente?”

Professor do Calixto: “Dá uma chance, Avaní, por favor.”

Avaní: “Não tem chance. Eu vou embora e não posso fazer nada.”

Professor do Calixto em tom de deboche: “Você vai embora por que está com medo da gente e sabe que vai perder. Por isso é que vão.”

Avani: …

Quem conheceu a Avani – que sempre foi muito verdadeira com as palavras – sabe muito bem o que ela respondeu naquele momento. Eu presenciei e guardo comigo o final deste diálogo.

E assim vencemos a nossa segunda partida no campeonato da diretoria.

Homenagem feita para a professora Avani, na quadra do Carmen Miranda. Foto de Márcio Ribeiro

A terceira partida que também não aconteceu…

Novamente embarcamos em um Breda, com destino ao terceiro jogo no Bernardino. Desta vez, levamos instrumentos musicais para fazermos um barulho antes e durante a partida. A gente era foda.

Havia um clima tenso no ar. O ginásio estava lotado, mas não tinha a festa e o clima de antes. Havia algo estranho…

Novamente, o Guaraú jogava para mais uma derrota, quando começaram a chutar os portões e as paredes. Pedras eram lançadas no telhado.

Correria, medo e gritaria por toda a parte. Em um piscar de olhos, vi os jogadores do Guaraú saindo de fininho, uniformizados e com sacolas do  Baba e do Ueti na mão. Foram espertos.

As partidas foram interrompidas e rapidamente o ginásio foi esvaziado, mas não deixaram a nossa escola sair. Somente nós ficamos presos naquele lugar. Parecia que o problema era conosco.

Para descontrair, resolvemos tocar o nosso pagode em um canto da arquibancada, mas apareceu uma gorda mulher com cara de apavorada e pediu para pararmos com o som.

“Pelo amor de Deus! Tem centenas de moleques querendo pegar vocês lá fora e vocês ficam aqui tranquilos tocando samba? Estão malucos?”

Sim! O problema era conosco, agora tive a certeza.

O pagode deixou os “terroristas” mais revoltados e gritos de – Vamos arrombar! Vamos invadir! Eram ouvidos com clareza, com mais chutes nas paredes e portões da escola…

Mesmo assim, ignoramos o pedido da suada mulher e resolvemos continuar com o pagode do lado de dentro, enquanto os adultos tentavam negociar lá do lado de fora.

O tempo passava e nada. Creio que uma hora e meia depois, um funcionário apareceu e disse que os “manifestantes” já tinham ido embora e que já poderíamos deixar o local em segurança. E assim deixamos o ginásio…

Ginásio do  Bernardino nos dias de hoje e o trecho até a rodovia. Foto de Márcio Ribeiro

A treta

O Bernardino fica a uns 500 metros da rodovia, como eu já disse, trecho que tínhamos que percorrer a pé para esperarmos o ônibus na pista, que ainda não era duplicada. As ruas eram de terra. Não havia o Atacadão, recém construído. A Rodoviária ficava no Centro e não onde é hoje. Fazíamos o trajeto em silêncio e apreensivos…

No meio do caminho, uma gritaria nos chamou a atenção e vimos uma grande nuvem de poeira vindo em nossa direção: Centenas de pessoas corriam armados com paus, facas, blocos e outros objetos, aos gritos de – Vamos pegar! Vai Morrer!

A Avani, branca, pediu para não corrermos e para ficarmos tranquilos, pois alegava que a confusão não era com a gente, mas na verdade não ficou um. Todos correram e se abrigaram em um posto de gasolina que ficava à beira da Rodovia. Até ela correu…

Por sorte, o dono do posto foi enérgico e disse que ali no posto nada ia acontecer e conteve a invasão…

Os caras, do lado de fora do posto, começaram a ofender e chamaram alguns dos nossos para conversar e “resolver o problema.”

Lembro de um cara armado dizer assim:

“Ei. Você de boné! Pode vir aqui um pouco, só queremos conversar…”

O rapaz tirou o boné na hora e o escondeu dentro da minha mochila, para disfarçar que o assunto não era com ele. Rapidamente, todos que usavam o mesmo acessório repetiram o ato e a minha mochila se encheu de bonés, de um modo que tive dificuldades para encontrar os donos, posteriormente.

O clima ficou tenso e nenhum de nós tentou o diálogo. Cuspes e ofensas viam do grupo que ameaçava invadir o posto.

Algum tempo depois, quando a polícia apareceu, a situação foi normalizada e podemos pegar o ônibus de volta para a nossa cidade…

Felizmente, nada de mais grave aconteceu.

Posto de gasolina desativado nos dias de hoje e cenário para a confusão entre as escolas

 

Os motivos

Duas versões surgiram sobre o caso:

Os alunos de Itanhaém fizeram uma emboscada por conta do W.O. da partida anterior. Não tiveram competência para cumprir o horário, não foram capazes de ler o regulamento e ainda ficaram bravos conosco.

Outra versão é de que um atleta do Ottoniel ficou com uma menina da escola de Itanhaém. A namorada dele descobriu e bateu na moça. Os amigos dela “resolveram descontar”, mas confundiram as escolas.

Falaram também que a intenção era de bater e jogar os nossos corpos na rodovia…

Igreja Católica. Referência para quem ia ao Bernardino. Hoje ofuscada pelo progresso. Foto de Márcio Ribeiro

Como ficou o campeonato?

A fase regional que reunia as escolas de Peruíbe, Mongaguá e Itanhaém foi paralisada e as partidas restantes não aconteceram.

A Delegacia de Ensino tentou marcar alguns jogos em Peruíbe, mas a Avani – prudente e sensata – não aceitou, temendo novas confusões. Ela já tinha percebido que alguns alunos planejavam um revide.

Por um bom tempo a fase regional não aconteceu e nem sei se voltou a acontecer.

Só sei que naquele dia, eu também dei no pé quando vi umas 100 pessoas correndo em minha direção, armados com paus, facas, blocos e outros objetos …

* Em memória da professora, Avani Cano, da qual lembro com muito carinho e saudades.

Professora Avani Cano, em memória, retirado das redes sociais.

Criação e Autoria: Márcio Ribeiro

Imagens e Pesquisa: Márcio Ribeiro (exceto onde indicado)

Contato: [email protected]

Agradecimentos: Bruno Cano e Waniluci

Todos os direitos reservados

There are currently no comments.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.