“… e eles viveram em paz e felizes para sempre.”

A frase acima é comum em historias que seguem o modelo dos contos de fadas. Mas não são só os contos de fadas que nos prometem um final feliz para sempre, a maioria dos filmes de antigamente exibia, em determinado momento, a palavra “FIM”, com objetivo de que o público percebesse que ali se encerrava a narrativa, era daquele jeito que a vida continuaria – sem problemas para resolver.

Na vida real, porém, sabemos que depois do fim tudo o que existe é o restart. Recomeçam os desafios, surgem novos antagonistas, os sonhos se reeditam e as necessidades mudam. Na vida real o fim é apenas o recomeço.

A crença de que um mundo próspero e seguro é possível sempre foi a mãe de todas as ideologias.

Oferecendo segurança e prosperidade, Moisés supostamente teria conseguido convencer milhares de pessoas a segui-lo, caminhando errantes através de um deserto durante longos quarenta anos. Imagine quantos velhos morreram, quantas crianças se tornaram adultos sem lar enquanto seguiam cegamente seu profeta.

Prometendo recuperar a economia e gerar empregos, portanto segurança e prosperidade, bem como combater a criminalidade, Hitler acendeu ao poder na Alemanha. Hipnotizados por suas promessas e pela aparente grandeza de suas conquistas iniciais o povo ignorou o fato de que o preço a pagar talvez fosse alto demais.

Com discurso xenofóbico, machista e voltado para as velhas questões relacionadas à geração de empregos (prosperidade) e segurança nacional, Donald Trump conquistou público suficiente para tornar-se o 45º presidente dos Estados Unidos.

Outro exemplo recente ocorreu nas Filipinas, onde em 2016, sob promessas de “eliminar” criminosos e acabar com a corrupção Estatal, foi eleito presidente o senhor Rodrigo Duterte. Explicitamente contrário aos direitos humanos, Duterte prometeu também que iria reduzir a taxa de pobreza do país, ou seja, gerar prosperidade.

Nos quatro casos mencionados, que não são, nem serão os únicos, existe uma coisa em comum, O método usado para divulgar as ideias de forma eficiente.

Vejamos: Moisés falava em nome de um deus que seria capaz de destruir todos os inimigos de seu povo e suprir todas as suas necessidades; Hitler é mencionado por dez entre nove historiadores como sendo homem de oratória singular, convincente e até messiânica. Além disso, contava com um eficiente setor de publicidade.

Quanto a Trump e Duterte agiram diferente da maioria dos políticos em suas campanhas à presidência. Abusaram do uso de palavrões, não se importaram em parecer arrogantes, mostraram que estavam dispostos a fazer o que fosse possível para que o povo se sentisse seguro e prospero. Suas ações repletas de polemicas foram seu maior e mais eficiente agente publicitário.

Portanto, tão importante quanto a estratégia de apresentação das promessas, são as promessas em si.  Como gado que ao ser transportado ao matadouro imagina estar apenas mudando para um pasto melhor, o povão deve acreditar que alguma mudança boa vai lhe acontecer logo.

Segurança e prosperidade. Todo político promete.

Desconsiderando a corrupção, em nosso contexto atual nenhum tema vem ganhando tamanha relevância quanto as questões relacionadas à “insegurança pública”. Estamos nos esquecendo de saneamento básico, economia, educação e até trabalho tem ficado em segundo ou terceiro plano.

Mas, se segurança pública, assim como a prosperidade econômica, sempre estiveram presentes nos discursos dos políticos, então por que nos últimos anos a questão da segurança pública tornou-se tão notória?

O fato é que, desde a metade dos anos 80, começou a surgir no Brasil programas televisivos voltados exclusivamente para apresentar notícias sobre crimes. Com isso, algumas pessoas, especialmente as mais pobres, passam horas diárias cultuando estupros, assassinatos, sequestros e toda sorte de desgraças possíveis apresentadas em matérias cheias de detalhes e comentários dos apresentadores supostamente indignados.

Além disso, alguns jornais impressos chamados de “populares” dedicam-se quase que exclusivamente a noticiar escândalos e crimes como é o caso dos jornais Massa – na Bahia – e Meia Hora, do Rio de Janeiro.

Outro fator que influencia a opinião do público, no sentido de perceber uma maior insegurança pública, é o fato de ser possível compartilhar toda sorte de lixo por meio das redes sociais conforme geralmente acontece. Entre as porcarias compartilhadas estão desde mentiras sobre políticos e outros assuntos, popularmente conhecidas como fake News, até fotos e vídeos de assassinatos.

Para se ter uma ideia do potencial de compartilhamento de sujeiras, o Whatsapp, que atualmente é a segunda rede social mais usada no Brasil, possui cerca de 120 milhões de usuários. São cento e vinte milhões de pessoas que podem – primeiro através de seus smart phones e depois de boca em boca – repassar toda sorte de maldades, achismos e é claro, relatos de desgraças.

Não é de admirar que, falar sobre segurança pública esteja tão em alta.

Diante disso, pode ser verdade que a insegurança pública tenha aumentado. Mas assim como é mentira dizer que estamos vivendo a maior crise econômica da história do Brasil, porque isso indicaria que não temos conhecimento da situação econômica do país ao fim do período ditatorial, também é ridículo dizer que estamos vivendo os dias mais violentos, quer consideremos apenas o Brasil ou quer consideremos o mundo como um todo.

Partindo do princípio de que os relatos bíblicos sejam mais que mera alegoria, e considerando que, neste caso, houve um dia em que existiam apenas quatro pessoas em cima da Terra: Adão, Eva, Caim e Abel – Ninguém mais –, um desses quatro indivíduos acidentalmente¹ matou o irmão. Logo, 25% da população acabava de cometer um crime, embora nem existissem leis à época. Havendo um criminoso entre quatro habitantes os índices eram alarmantes.

Brincadeiras e estatísticas à parte, já ocorreram duas Guerras Mundiais (tem violência de todo tipo e à vontade). E se pensarmos exclusivamente no Brasil, tivemos um período ditatorial do qual os verdadeiros dados sobre violência jamais serão conhecidos.

Talvez seja verdade que a violência tenha aumentado. Mas temos de entender que também aumentou o número de pessoas no planeta. Aumentaram os meios pelos quais podemos tomar conhecimento de um crime. Mesmo que ocorra no Alasca, poderemos sabê-lo em questão de minutos. E principalmente, aumentam a cada dia os diversos fatores causadores da violência.

Em vez de pensarmos que a única forma de resolver o problema da insegurança pública é partindo para o “tiro, porrada e bomba”, talvez devêssemos parar de cultuar e repassar atos de violência. Mudar do comportamento reativo para uma cultura de perguntar, ouvir e raciocinar primeiro e somente se for inevitável, atirar depois.

Hoje e amanhã, assim como ontem foi, continuaremos buscando as mesmas coisas. Segurança e prosperidade. Mas, pensando bem, prosperidade também é parte da segurança. E não importa quem promete, o que importa é o quão convincente ele será. Se você acreditar que ele poderá te levar para a terra que mana leite e mel, você o seguirá cegamente através do deserto.

Não. Nem o “poste”, ou aquele que se permite chamar de “covarde”, farão os milagres que esperamos e quanto maiores as expectativas, maiores também serão nossas decepções.

Mesmo os países mais ricos do planeta, como a Irlanda, sofrem com problemas como violência doméstica, racismo e criminalidade. Portanto, se alguém pensa que o “poste do Lula” ou o “poste do Edir Macedo” tem a fórmula mágica, que se prepare, pois a decepção é garantida e o choro é livre.

¹ - Não havia como Caim saber que ao agredir mataria seu irmão Abel.