Mitos, lendas e fábulas não surgem simplesmente do nada. Eles surgem de nossa tentativa de explicar coisas que ainda não compreendemos ou com o objetivo de propagar uma ideia sobre uma pessoa ou determinado comportamento. Seja como for, mito, lenda ou fábula trazem consigo muito pouco de realidade e sobram as fantasias e a imaginação.

Os mitos foram usados principalmente pelos gregos na antiguidade para explicar todos os fenômenos que não pudessem ser explicados pela ciência até então existente. Compostos por relatos de heroísmos, elementos sobrenaturais e simbologias, os mitos mesclavam-se ainda a fatos e pessoas reais. Alguns mitos eram tão grandiosos que se tornavam deuses ou semideuses.

Entre os mitos mais conhecidos popularmente até nossos dias, estão o de Narciso, o Mito da Caverna e a Caixa de Pandora que é apenas outra versão para o mito bíblico de Eva comendo o fruto proibido e trazendo as desgraças para o mundo.

As lendas, por sua vez, possuíam a mesma função do mito, porém, diferentemente deste, as lendas envolvem muito mais fantasia e o imaginário popular, pois, uma das características da lenda é que ela é repassada oralmente. Por consequência disso, cada vez que é contada ela é prenhe das imaginações do contador inclusive por conta de suas vivências pessoais.

Algumas pessoas consideram que a maioria dos livros sagrados, incluindo a Bíblia, surgiram de lendas que foram se cristalizando entre um povo e seus personagens acenderam à divindade. Alguns pesquisadores afirmam que, a Bíblia é nada mais que a reunião de lendas dos povos sumérios, egípcios e judeus, reunidos a partir do séc. X antes de Cristo.

Por fim, temos a fábula. As fábulas tiveram sua origem entre os povos do oriente e têm como características principais possuir o caráter moralizante e geralmente usa animais, plantas ou objetos inanimados como personagens.  As fábulas são um recurso muito utilizado por pais, professores e, é claro, políticos.  Em ambientes opressivos ela é muito utilizada para fazer críticas de forma velada.

Curiosamente, alguns dos significados para fábula são mentira ou farsa.

Em comum os três: mito, lenda e fábula, dependeram ou dependem de a capacidade do indivíduo imaginar e fantasiar surgir e sobreviver ao passar do tempo.

Em 1º de janeiro de 2019 tomou posse o 38º presidente da República Brasileira, o qual já há alguns anos vinha sendo chamado por seus fãs de “mito”. A maioria desses fãs e outros que durante a campanha eleitoral de 2018 vieram a se tornar adeptos daquilo que dele se propagava nas redes sociais e conversas de boteco, embora não conhecessem muito de sua vida prática, criaram grandes expectativas em torno dele.

Se tivessem se dado ao trabalho de pesquisar um pouco sobre o mito (?), talvez tivessem descoberto que em suas quase três décadas ocupando uma cadeira na Câmara dos Deputados, Bolsonaro conseguiu aprovação de apenas míseros dois projetos. Um desses projetos levou à liberação da comercialização da falsa pílula de combate ao câncer, atualmente proibido pela ANVISA.

Quando se trata mesmo de significância política o nome de Jair Messias Bolsonaro sempre pertenceu ao chamado baixo clero da política brasileira. Os componentes do baixo clero geralmente ocupam-se dos interesses voltados para impactar seus eleitores e manter sua fidelidade, bem como captação de recursos para suas regiões. A maioria dos seus partidos copõem o chamado “centrão”.

Outros dois políticos do baixo clero que alcançaram um momento de destaque na política brasileira foram: Severino Cavalcanti, em 2005; e Eduardo Cunha, em 2015.

Mas, voltando ao nosso “mito”, em menos de um mês de atuação como presidente da república ele deve ter causado algumas decepções aos seus seguidores fiéis.

Onyx Lorenzoni, seu ministro da Casa Civil, admitiu ter recebido dinheiro de caixa 2 da JBS. Aí o cara fez uma tatuagem no estilo tatuagem de cadeia, no braço, pediu desculpas e foi desculpado pelo paladino da justiça Sergio Moro, que é ministro da Justiça e Segurança Pública.

Outro ministro que chamou a atenção

Mas o próprio Bolsonaro já havia dado sinais de que não era nenhum exemplo de pessoa, que não era tão correto quanto se imaginava, em casos como o da “funcionária Wal”, que era lotada como secretária parlamentar em seu gabinete, mas que, na verdade, vendia açaí em Angra dos Reis.Misteriosamente após denúncias da fraude, Waldelice, supostamente pediu demissão. Preferiu arder ao sol escaldante de Angra em vez do conforto do gabinete e o salário de R$ 1.416,33 para separar correspondências.

E teve a história do auxílio moradia que, segundo ele, era usado para “comer gente”. Tem a contradição de um partido claramente liderado por ele e cujo discurso é promover os valores tradicionais da família, mas que possui entre seus integrantes um ator pornô.

Mas tudo isso é nada comparado ao até então maior escândalo relacionado com Bolsonaro.

Trata-se de ninguém menos que seu filho, Flavio Bolsonaro. E para aqueles que diziam que Lula não podia ficar dizendo que não sabia o que seus companheiros de partido faziam, tampouco um pai deve não saber o que um filho tão próximo faz com sua carreira política.

Flávio, antes mesmo que o pai tomasse posse, já em meados de dezembro, estava se vendo às voltas com as denúncias de suspeita de lavagem de dinheiro realizadas em parceria com um assessor que atuava como motorista e segurança de Flávio Bolsonaro. O detalhe importante é que o cara mantém uma notória relação pessoal com a família Bolsonaro.

Diante desses pequenos e brevemente citados casos fica a questão: Bolsonaro é “mito”?

Não. Porque, embora goste de explodir irado e falar toda sorte de asneiras em público, não detém tanto poder a ponto de concretizar suas ameaças como um deus mitológico. De ameaças de bomba a estupros, felizmente a ira de Zeus ou Cronus eram muito mais terríveis.

Então, talvez ele seja uma lenda!

Tampouco o é. Isso porque, aos poucos, a lenda ou “mito” – se preferir – que foram construídos ao redor de Bolsonaro estão se revelando frágeis. Além disso, assim como no caso do mito, enquanto possível lenda, lhe falta o heroísmo diante das adversidades. Um herói não foge a debates ou desaparece para não ser entrevistado em um Fórum Mundial de Economia.

Um verdadeiro herói, daqueles que viram lendas, não foge.

Resta-nos, portanto, a fábula.

Ele não é inanimado, mas isso todos já sabemos. Além disso, seus comportamentos públicos não possuem nenhum efeito moralizante. Imagine se as pessoas começassem a gritar e ameaçar sempre que fossem contrariadas?

Mas, como vimos, fábula pode também significar “farça”.

Se olharmos para os discursos do sujeito em questão, sobre valores familiares, respeito, tradição, anticorrupção e compararmos com suas atitudes diante das adversidades (foge pra não falar) e escolhas de parcerias de governo (atores pornô e fichas suja), concluiremos que o cara é mesmo uma bela fábula.

Resta saber por quanto tempo o imaginário e os anseios populares o sustentarão de pé, pois como os humores de Hera, os temperamentos do povão mudam de rumo mais fácil que se pode imaginar.

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