A maioria de nós repudia quando, em alguma parte do mundo, alguém ou um grupo de pessoas decide humilhar um brasileiro. Casos envolvendo famosos como os jogadores Neymar Jr. e Daniel Alves, chamados indiretamente de macacos por torcedores europeus, tiveram significativo repúdio nas mídias e redes sociais.

Porém, na maioria das vezes vemos gente da gente, nascida e criada no Brasil, ofendendo brasileiros. Isso mesmo, brasileiros que não gostam nem respeitam outros brasileiros.

Um exemplo recente é o caso da brasileira, outrora garota de programa nos Estados Unidos e hoje auto promovida a socialite, Day McCarthy, cujo verdadeiro nome é Dayane Alcântara Couto de Andrade, que em 2017 ofendeu por meio de uma plataforma de compartilhamento de vídeos uma criança de apenas 04 anos, chamando-a de “macaca”, “cabelo horrível” e “bico de palha”.

Outro caso envolveu estudantes universitários maranhenses que em 2017, ao participar de um evento voltado a diversidade étnica, no Instituto Federal Fluminense, foram chamados de “macacos” e “macumbeiros”. É quase inacreditável que brasileiros, os mesmos que supostamente se ofendem quando os gringos nos chamam de macacos, sejam capazes de ofender seus pares com os mesmos termos.

São apenas dois exemplos de um universo de casos que ocorrem todos os dias em que brasileiros ofendem brasileiros.

Aqui no Brasil é comum, especialmente em redes sociais, que as pessoas usem características físicas ou específicas das regiões brasileiras para ofender quem tem opinião diferente da sua. Termos como “nordestino”, “paraibano” e favelado são comuns como forma de ofender. De acordo com uma pesquisa realizada pela Comunica que Muda – uma ferramenta digital – outros termos muito usados são: “cabelo ruim, gordo, vagabundo, retardado mental, boiola, malcomida, golpista e velho” entre outros.

Se já parece feio quando brigamos entre nós e lavamos a roupa suja em casa imagina quando expomos nossa vergonha para o mundo.

Em 12 junho de 2014 ocorria a abertura da Copa do Mundo de Futebol no Brasil. A maioria que ali estava pagou ingressos com valores entre R$ 440,00 e 990,00, portanto, provavelmente não se tratavam de assalariados, pois quem sobrevive com salário mínimo possui gastos mais urgentes  do que assistir a uma abertura de Copa do Mundo.

O evento estava sendo transmitido ao vivo para 211 países. De repente, durante a partida entre Brasil e Croácia, em determinado momento começaram os gritos de “Ei Dilma, vá tomar no cu!”. Sem dúvida um momento de auto-humilhação pública e mundial. Dá para imaginar os estadunidenses xingando seu chefe de Estado publicamente?

Mais recentemente, curiosamente também durante uma Copa do Mundo, só que dessa vez na Rússia, um grupo de brasileiros nos expôs novamente ao repúdio mundial ao gravar e publicar, em redes de compartilhamento, material no qual humilhavam uma mulher que de português nada entendia ao fazer com que ela repetisse uma frase com referências ao seu órgão genital.

Nos dois casos, independentemente da cor da pele daqueles que praticaram os atos, será que fomos melhores que macacos?

Então voltemos aos macacos. Eles vivem em grupos e geralmente são subordinados a um líder. Geralmente um macho alfa, que é respeitado pelo grupo até o momento em que for destituído da posição de chefia. Conforme mencionado pelo etólogo Eduardo Ottoni, da Universidade de São Paulo, “eventos de ataque direto ao líder são raros”, não apenas pelo respeito que os subordinados têm a ele, mas também porque perder um confronto contra ele poderia significar a expulsão do grupo.

Isso mesmo. Os primatas vivem em sociedade e respeitam seus pares e especialmente seu líder, pois sabem que um grupo com liderança fragilizada é um grupo vulnerável conforme podemos observar no documentário “O reino dos Primatas” (2015).

Nesse aspecto somos bem menos que macacos. Não honramos aqueles que escolhemos como nossos líderes e, estando insatisfeitos com sua liderança, não agimos como os macacos e os destituímos simplesmente. Não o fazemos não só pela complexidade de fazê-lo, mas principalmente porque não somos, nem de longe, dignos de sermos chamados de macacos.

Macacos obedecem. Nós damos um “jeitinho” de burlar as leis e regras. Macacos insatisfeitos com seu líder o destituem do poder por meio de um combate leal. Nós o expomos ao ridículo e nem nos damos ao trabalho de perceber que ao fazer isso estamos humilhando a nós mesmos.

Macacos protegem suas fêmeas. Nós nos juntamos em grupos de machos para gritar “buceta rosa” e acreditamos que estamos com a bola toda.

Portanto, podemos parar de ficar ofendidos quando alguém nos chamar de macacos, pois os macacos é que certamente ficarão ofendidos se souberem que são comparados com os humanos especialmente se esses humanos forem brasileiros.