Alguns programas televisivos, independente de sua total inutilidade e insignificância, continuam sendo reeditados ano após ano como é o caso dos programas: A Fazenda e Big Brother Brasil. Juntamente com os programas de fofocas e os jornalísticos voltados para notícias sobre crimes e sem falar nas redes sociais, suas audiências revelam um Brasil repleto de mexeriqueiros.

Afinal, o que é que prende a atenção de milhares de pessoas por horas diante da TV todos os dias, e especialmente com objetivo de saber sobre a vida alheia? O que leva um indivíduo a gastar cada precioso minuto de seu dia verificando status de Whatsapp, atualizações de Facebook e Instagram em alguns casos de pessoas que nem conhecem realmente?

E por último, por que alguém passaria horas semanais assistindo exclusivamente noticias sobre desgraças de toda sorte quando poderiam gastar as mesmíssimas horas para fazer algo divertido, aprender alguma nova habilidade ou simplesmente fazer uma autorreflexão?

A primeira edição do Big Brother Brasil foi ao ar em janeiro de 2002 e desde então, todos os anos, emplacou novas edições. O programa no estilo reality show que já teve diversas denúncias de indícios de armação, consiste em reunir um grupo de rapazes e moças, geralmente sarados, e confiná-los por uns noventa dias regados a muita bebida alcoólica e gincanas premiadas, além das disputas para ir acompanhado para debaixo de um edredom.

Após 19 reedições, o programa continua de pé graças ao prazer que alguns de nós tem em ver um grupo de pessoas se dilacerando de todas as formas para alcançar o prêmio que atualmente é de R$ 2 milhões. Um nada se compararmos aos lucros da edição passada quando a emissora lucrou cerca de R$ 210 milhões.

Se a Rede Globo importou o Big Brother, sua principal concorrente demoraria longos sete anos para apresentar sua atração concorrente – A Fazenda – a qual estreou em 2009.

O Programa A Fazenda consiste em confinar um grupo de subcelebridades ou famosos decadentes, num ambiente que parece tentar imitar uma fazenda. A partir daí são diariamente alimentados por trocas de farpas e fofocas, bebidas alcoólicas (pode isso bispo?) e disputas de egos que só perdem em tamanho para a vontade de ganhar o prêmio.

Mas não pense que estes dois programas foram os primeiros. Entre 2001 e 2004 a TV dos Abravanel exibiu um reality show chamado Casa dos Artistas, cujo nome já explica tudo.

O que os três programas têm em comum é a possibilidade de o telespectador exercitar seu voyerismo sem culpa. Milhares de pessoas pagam o sistema pay per view com o objetivo de ter acesso ao máximo de intimidade dos confinados.

Tudo pelo prazer de ver alguém tomando banho num cubículo transparente, acompanhar câmeras subaquáticas numa piscina, o desenrolar de uma briga acalorada ou ficar imaginando o que acontece sob os edredons enquanto fazem aquelas ondas de sobe e desse.

De acordo com uma pesquisa apresentada em 2018 pela plataforma Hootsuite, os brasileiros passam em média 9h diárias conectados à internet, sendo que, desse tempo gastam cerca de 3h e 39min utilizando redes sociais.

 A mesma pesquisa revelou que as três redes sociais mais utilizadas são o Facebook, Instagram e o Whatsapp, sendo as mulheres a maioria dos usuários dos dois primeiros, especializados em compartilhar imagens.

Segundo a mesma pesquisa, 92% dos usuários dessas redes sociais os acessam por meio de redes móveis, ou seja, smartphones.

Mas o que alimenta esse comportamento de postar conteúdos diariamente em busca de views, likes e comentários como se deles dependesse nossa sobrevivência e felicidade?

Quem publica, busca uma gratificação rápida e efêmera que logo ao ser saciada precisa ser novamente alimentada para que se repita e depois seja novamente alimentada (…) e parece que estamos falando de um usuário de crack.

Trata-se de um monte de gente “famosa”, alguns com milhares de “amigos” e “seguidores”, o que os faz experimentar uma frágil ilusão de que são importantes para os outros. Ao mesmo tempo ele tem acesso a fragmentos da vida dessas outras pessoas com as quais troca likes e views.

No futuro seremos pessoas depressivas, quando nossos recortes da vida, por mais que usemos enquadres e filtros, não atrair mais a atenção tão almejada. A tênue ilusão criada por quem publica seu mundo perfeito e é idolatrada pelo feedback de quem acessa, curte e comenta, nada mais é do que o culto  a algo fadado a desaparecer.

Como diria Salomão: “Antes da sua queda o coração do homem se envaidece…”

Os dias atuais têm oferecido combustível de sobra para a vaidade e auto ilusão inconsequentes.

Os programas televisivos que se arvoram em supostamente apresentar os acontecimentos sem nenhuma maquiagem ou economia de detalhes, geralmente apresentam quase que exclusivamente notícias de assassinatos, estupros e espancamentos.

Se for uma prisão, eles dão um jeito de expor o suspeito da forma mais humilhante possível, fazendo indagações num tom sarcástico e expondo-lhe a face diante das câmaras desconsiderando os danos causados aos familiares do acusado.

As pessoas que gastam horas diárias assistindo tal programação tendem a pensar que as violências à sua volta são algo normal, algo do cotidiano. Aos poucos suas percepções vão ficando calejadas e já não se chocam mais com as desgraças do dia a dia.

Por outro lado, devem sentir-se aliviadas observando o infortúnio sobrevir a outras pessoas enquanto elas mesmas continuam aparentemente ilesas.

Em comum, a atração pelos reality shows, o uso excessivo das redes sociais e  o culto aos programas do chamado jornalismo policial, possuem os fato de que constituem verdadeiras fugas.

Poucas perguntas – e olha que esta já está batida – incomodam tanto numa entrevista de emprego como quando o recrutador pergunta ao candidato: Três áreas em que você precisa melhorar?

Diabos! Perguntasse sobre a vizinha ou seu companheiro, a gestão econômica do Paris Saint German ou o final do Game of Thrones seria fácil responder, mas falar de si é complicado.

Isso porque a cada dia praticamos menos introspecção. Sabemos de nossa fragilidade e imperfeição, sabemos que precisamos corrigir umas trezentas coisas, mas não queremos nos predispor a tal trabalho interno.

A solução é voltar-se para fora. Falar dos “brothers” se digladiando publicamente, e lutando diariamente para ocultar suas imperfeições enquanto permanecem como animais num zoológico expostos para o deleite do público.

Podemos também propagar um mundo perfeito e repleto de “kkks” nas redes sociais e postar recados indiretos para aqueles a quem queremos causar inveja.

Ou ficar boquiabertos com as maldades expostas sob discursos indignados nos programas policiais vespertinos, imaginando-se tão melhores que aquelas pessoas, quando na verdade também nós possuímos nossas próprias doses de maldade na alma.

Portanto, trata-se de muito mais do que meramente sair fuçando o melhor e o pior da vida alheia. É o caso mesmo de fugir do ato de olhar-se a si mesmo e fazer uma pequena autocrítica, por menor que seja. E em vez disso, ir “empurrando a vida com a barriga”, como se diz.

Num mundo cada vez mais rico de informação e desinformação, a forma com a qual trabalhamos nossa curiosidade pode ser o diferencial entre navegar ou naufragar no oceano de conteúdos disponíveis na TV, nas redes sociais e na web como um todo.

Imagem: Criatives
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