Durante o período da Copa de 1990 nos mudamos para o Bairro Popular. Minha mãe alugou uma casa na rua Aurora. Alguns meses depois nos mudamos para outra casa, do mesmo lado da rua. Até que, finalmente, dona Norma comprou um terreno na parte alta, na rua Roberto Moraes, onde mora até hoje.

Se falta infraestrutura no bairro nos dias de hoje, na época a situação era bem pior. A quantidade de casas existentes por ali era bem menor. Não havia calçamento nem sistema de esgoto. É preciso dizer, no entanto, que até o momento em que escrevo estas linhas, o calçamento ainda não existe e o sistema de esgoto foi improvisado pelos moradores. A atual prefeita até ensaiou desenvolver o calçamento, mas parou logo depois das eleições de 2018. Coisas de cidade do interior.

Como minha mãe havia gastado todo o dinheiro na compra do terreno, os recursos escassearam. Não seria possível continuar pagando aluguel e construindo a casa. A solução encontrada foi armar um barracão no terreno comprado, para o qual nos mudamos. O dinheiro não deu para todo o telhado. Metade do barraco ficou descoberto. Como o piso era de terra batida, toda vez que chovia ficava um lamaçal dentro de casa.

O barraco foi construído no fundo do terreno. Enquanto isso, a construção ia se desenrolando na parte da frente. O primeiro pedaço a ficar pronto foi o meu quarto. Na verdade, aquele deveria ser o quarto da minha mãe, mas ela ficou preocupada com meu estado de saúde naquele barraco. Sempre tive sérios problemas respiratórios e alérgicos.

Tão logo o cômodo ficou pronto eu me mudei para lá. Para resolver o problema do sistema de esgoto, minha mãe pagou a alguém para que cavasse uma fossa na frente da casa, já que a parte dos fundos estava ocupada com o barraco.

Depois de um ou dois dias de trabalho, lá estava uma cavidade retangular com dois metros e meio de profundidade. Algumas tábuas foram colocadas em cima para sinalizar o perigo. No dia seguinte começaria a construção da estrutura interna da fossa.

Durante a noite eu fiquei no quarto vendo TV, minha mãe havia saído para algum lugar que não me recordo. As trevas da rua eram rompidas pela iluminação dos postes elétricos. Alguns cavalos, mulas e jumentos pastavam soltos pela vizinhança. Eram animais de tração, puxavam carroça durante todo o dia. À noite os donos os deixavam soltos pelo bairro.

Uma dessas mulas era cega. Continuava sendo brutalmente explorada pelo carroceiro durante o dia e pastava solta com os outros animais depois do anoitecer. Se você acha isso muita crueldade, saiba que fatos como esses continuam a acontecer naquela região.

Enquanto eu assistia TV, ouvi um animal se aproximar. A janela estava fechada. De repente veio o barulho de tábuas quebrando, seguido de uma grande pancada. Abri a janela para ver, mas a profundidade da fossa estava escura. Lá de dentro escapava um barulho de respiração ofegante. Quando minha mãe chegou, contei o ocorrido. Tentamos localizar o dono do animal, mas isso só foi possível no dia seguinte. A velha mula cega havia caído ali.

Cordas foram amarradas ao redor do corpo do animal. Vários homens puxaram até conseguir tirar o pobre muar. O bichinho agonizou por alguns dias antes de morrer. O dono do animal queria que minha mãe pagasse o prejuízo. Ela, por sua vez, argumentou que um animal cego não deveria ser explorado daquela forma, nem deixado ao léu durante a noite. Uma inimizade foi criada.

As coisas não mudaram muito depois de vinte e oito anos. O número de casas e moradores aumentou, é bem verdade. A ignorância e o clima insalubre, que te dão a impressão de viver na Idade Média, continuam muito forte. A falta de infraestrutura é a cereja do bolo.

Mas alguma obra sempre é iniciada durante os períodos de eleição. No dia seguinte à votação as obras param. Coitado de quem reclamar da prefeitura.

 

José Fagner Alves Santos