Qual a sua interpretação de O Poço?

Qual a sua interpretação de O Poço?

04/20/2020 6 Por jotafagner

As obras de arte são ferramentas que nos ajudam na compreensão da realidade e não se esgotam numa única investida interpretativa. Estas se multiplicam ao infinito, demonstrando com isso seu potencial de permanência no imaginário coletivo. De tempos em tempos, essas obras são reinterpretadas de acordo com as pautas do momento. Algumas dessas releituras são bem sucedidas, enquanto outras caem no esquecimento. O filme O Poço está na primeira dessas categorias. Seu resultado é tão bom que a produção ganha vida própria e consegue se descolar da sua principal fonte de inspiração, A Divina Comédia, de Dante Alighieri.

O filme, dirigido por Galder Gaztelu-Urrutia, é uma bela metáfora sociológica que, de tão óbvia, salta aos olhos do mais desatento espectador. O diretor não abre mão das referências abundantes, passando pela antropofagia religiosa, filosofia girardiana, poesia de Oscar Wild, até as alucinações de Dom Quixote e os círculos do inferno de A Divina Comédia – representados pelos níveis do poço. Tudo isso, somado a pitadas de terror e violência explícita, contribui para impactar o expectador logo nos primeiros minutos. O filme, no entanto, não é uma obra didática, quase não apresenta respostas. Pelo contrário, ao final da obra as perguntas são abundantes, contribuindo muito mais para explicar a realidade de forma figurativa do que para ser esmiuçado numa resenha que pretenda desvendar seu significado.

A película conta a história de Goreng (Ivan Massagué), uma figura alta e magra – parecendo uma versão mais jovem do personagem Dom Quixote – que escolhe, por algum motivo que não fica claro (teria sido o desejo de parar de fumar?), passar uma temporada na prisão vertical conhecida como O Poço. Seu primeiro companheiro de cela vai fazendo o papel de orelha da história, explicando os detalhes de funcionamento do lugar:

“Existem três tipos de pessoas: as de cima, as de baixo e as que caem”.

Esse mesmo personagem orelha, Trimagasi, faz questão de mostrar como as metáforas iniciais são óbvias, chegando ao ponto de se achar dono do termo.

Cada cela suporta dois prisioneiros. Um grande buraco no centro serve de caminho para uma plataforma que desce diariamente com alimentos. Essa plataforma para por dois minutos em cada cela vertical. Esse é o tempo que cada prisioneiro tem para comer. Para completar, eles não podem estocar nada. A metáfora está clara, os de cima comem primeiro e os de baixo vão ficando com as sobras. Quanto mais em baixo, menor a quantidade de alimento diário.

A cada mês, no entanto, os presos trocam de andar. Quem está em cima hoje pode estar em baixo amanhã. O confinamento somado às incertezas do futuro mais imediato fazem despertar os instintos mais primitivos em cada um. As referências a Dante são “óbvias”, as metáforas sociais também. A referência a Dom Quixote está dada desde o momento em que Goreng escolhe levar para sua cela um exemplar do livro. Ele planeja ler o romance durante seu período de confinamento.

Semelhante à nova esquerda, o personagem principal faz alusão a livros que nunca leu e romantiza a luta, tal qual a batalha do Cavaleiro da Triste Figura contra os moinhos de vento. O livro de Cervantes é um apanhado de anedotas sobre um esquizofrênico que acredita lutar pela melhora da sociedade. Em resumo, nenhum lado é poupado da crítica feroz.

A história foi escrita originalmente para ser uma peça de teatro, mas nunca foi encenada.

Muitos tentaram esclarecer toda a simbologia e alegoria da obra, eu prefiro deixar que você se divirta procurando os esclarecimentos na sua bagagem pessoal. Essa é uma obra que serve muito mais para explicar do que para ser explicada. As interpretações são infinitas, tal qual A Divina Comédia ou Dom Quixote, você só precisa desenvolver a sua.

Vejam a explicação da própria Netflix: 

Disponível na plataforma de streaming Netflix, com 94 minutos de duração, O Poço é um filme com classificação etária de 16 anos, cheio de violência explícita, linguagem imprópria e nudez, exatamente como a vida real.

 

José Fagner Alves Santos