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Morando em São Paulo

Como em várias outras manhãs, acordo com dor de cabeça pela noite mal dormida. Quando o despertador do celular toca, sinto como se uma agulha perfurasse a minha nuca e sangue jorrasse da parte superior do meu cérebro até o globo ocular. Meu corpo tem tentado avisar, preciso de mais algumas horas de sono, mas tenho horário marcado com uma fonte do outro lado da cidade. Estou elaborando uma matéria para uma agência de notícias e não posso furar.

Trabalho como freelancer há alguns anos. Tem sido difícil conseguir emprego de jornalista com carteira assinada. Com muita sorte dá para trabalhar como pessoa jurídica (PJ) ou freela. Há alguns meses em que o trabalho como freelancer é extremamente vantajoso, mas outros nos jogam no buraco mais fundo da dificuldade financeira.

Somando os gastos com aluguel, água e luz, internet, alimentação, transporte, gás, assinaturas de serviços, revistas e jornais, desembolso pouco mais de dois salários mínimos. E olha que não sou esbanjador.

São Paulo é uma cidade incrível. Aqui você encontra restaurantes de todos os cantos do planeta, as maiores livrarias do país, shows e espetáculos para todos os gostos, cinema, teatro, pintores e músicos de rua, eventos, universidades, lojas para todos os bolsos, contato com pessoas de várias partes do país e do mundo. É tudo muito intenso, muito dinâmico, mas custa muito caro, ao menos para mim, que faço parte da base da pirâmide.

Aluguel, transporte e alimentação, apesar de pesarem muito no orçamento, são só o começo da brincadeira. Abandonei o doutorado em Educação porque a mensalidade era de 3770 reais e a previsão de bolsa era para depois de seis meses de mensalidades quitadas.

É comum sair cedo e voltar tarde para casa.  Além do trabalho como jornalista e revisor, dou aulas para complementar a renda. Assim como eu, milhares de outras pessoas se desdobram em dois empregos para conseguir pagar as contas do mês. A maior parte dos eventos culturais são aproveitados por uma minoria dos cidadãos. Não é só a questão do dinheiro, mas a falta de tempo e dificuldade no transporte. Quem já pegou um engarrafamento por aqui sabe do que eu estou falando.

E tem também o problema da poluição. Uma matéria da Superinteressante esclarece que respirar o ar de São Paulo é como fumar quatro cigarros diários. Sofro de problemas respiratórios desde que nasci. Bronquite, sinusite e tantas outras “ites” que seria difícil enumerar.

Mas estou em São Paulo, o centro econômico e cultural do País. É aqui que as coisas acontecem. E eu sou apenas uma engrenagem na grande máquina que faz tudo isso funcionar. Se eu fosse embora agora, que diferença faria? Nenhuma. Nem para mim, muito menos para a cidade. Mas eu gosto de acreditar que existe certa importância em estar aqui. E que importância seria essa? Não sei explicar, porque, na verdade, não existe importância nenhuma.

Não consigo ir à maioria dos eventos que são do meu interesse; meus livros são comprados pela internet; minha vida social é quase inexistente; minha saúde está mais debilitada a cada dia; não consigo juntar dinheiro; as possibilidades de eu voltar para o doutorado são quase nulas e mesmo assim eu continuo em São Paulo.

Vou pensando tudo isso enquanto pego o metrô lotado. A cabeça ainda dói, os olhos permanecem semicerrados por causa do sono. Sou empurrado, bolinado e esnobado no meio do vagão.

Chego à conclusão de que tudo isso é fruto de narcisismo, talvez seja essa a força que me prende à grande capital. Morar aqui faz com que eu tenha a sensação de estar melhor do que alguns dos meus amigos que ainda moram no interior, apesar de todas as vantagens que eles têm em relação a mim.

Torço para que a fonte apareça. Odeio quando somem sem avisar. Ainda mais com a dor de cabeça que estou sentindo. Até gostaria de tomar o café para aliviar, mas a gastrite que me consome não permite.

Mais um ano e meio e eu saio daqui.

 

José Fagner Alves Santos

 

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