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Fugir – O Relato de um Refém

Fugir é uma publicação da editora Zarabatana, sendo a sexta obra do autor Guy Delisle

O autor tem livros publicados no Brasil desde 2007, quando a editora Zarabatana lançou a obra “Pyongyang – Uma Viagem à Coréia do Norte”. Entretanto, ele ainda é desconhecido da maioria dos leitores de quadrinhos do nosso país. Guy Delisle é canadense, cursou faculdade de animação, e é casado com uma administradora da organização Médicos Sem Fronteiras. Através do trabalho de sua esposa, conheceu Christophe André, francês que trabalhava em uma ONG humanitária no Cáucaso. A partir dos relatos deste francês, Guy escreveu essa obra.

Como o próprio título já diz, esse quadrinho é baseado em uma história real e, conforme o autor declara na segunda página, “relata a história tal qual ele me contou”. Cristophe havia contado ao novo amigo todos os fatos do seu sequestro, que aconteceu em 1997, na cidade de Nazran.

O livro mostra, com riqueza de detalhes, como aconteceu o sequestro de Cristophe, bem como a sucessão dos dias no cativeiro. O autor consegue transmitir de forma muito delicada e clara a angústia e os pensamentos do prisioneiro, que vão se intensificando com o passar dos dias.

Percebemos, de forma muito objetiva, que a angustia do refém é não saber quando sairá do cativeiro; de toda noite ir dormir esperando algum tipo de intervenção que o levará à liberdade, mas acordar e perceber que nada aconteceu.

Os desenhos mostram as mudanças físicas no francês ao longo dos meses. Não somente  as mudanças mais perceptíveis como a perda de peso gerada por má alimentação ou a barba grande, mas a mudança na fisionomia, causada pela perda gradual da esperança de ser resgatado, pela perda de datas importantes como o casamento da irmã e o Natal. Tais pensamentos nos levam a criar uma grande empatia com o personagem e torcer por ele.

A narrativa visual é excelente, com diversas páginas sem texto escrito, mas sem  prejuízo à compreensão. A história é contada de forma a induzir o leitor a tentar imaginar o desfecho, mas em momento algum conseguimos prever qual será o real destino do refém.

Os desenhos são no estilo minimalista, o que dá à narrativa gráfica um contraste muito grande com o tema da história. Por diversas vezes os desenhos singelos nos permitem esquecer que se trata de uma história real de sequestro. As cores utilizadas, em tons de cinza e azul, foram muito bem acertadas, causando toda uma atmosfera de prisão e cárcere.

O livro nos faz refletir sobre situações que geralmente não compõem nosso arcabouço reflexivo. Sempre vemos nos noticiários da televisão reportagens sobre sequestros, mas isso é tão distante da nossa realidade, que quando lemos o relato de um refém e todas as suas angústias no cativeiro, somos levados a nos colocar em seu lugar. “E se fosse comigo?” Esta é uma das perguntas que essa obra imprime em nossos pensamentos conforme vamos virando as páginas. “O que eu faria no lugar dele?”, “Será que eu aguentaria passar por tudo isso?”, “De onde tirar forças para continuar?”. Enfim, tais perguntas são muito difíceis de se responder, e lendo este quadrinho, percebemos que nem o próprio Cristophe saberia vebalizar.

Leio livros e quadrinhos desde que me entendo por gente. Já li obras de todos os gêneros, de autores de diversos países, de todas as idades, mas poucas tiveram a capacidade de me impactar tanto quando “Fugir: O Relato de um Refém”. Quando li, estava de férias numa praia no Sul da Bahia e tinha acabado de estrear meus novos equipamentos de mergulho. Ao virar a última página já era noite, 23 h e 30 min para ser mais exato. Fui para a beira da praia e pensei: como um ser humano pode simplesmente raptar e prender uma pessoa? Por mais que possam ter sido influenciados por ideologias religiosas,  é muito desumano. Fiquei pensando nisso por uns 30 minutos, enquanto olhava para as ondas. Até agora não sei responder

A edição brasileira tem 432 páginas, capa cartão e preço de R$ 98,00. Apesar de um pouco caro, a edição é muito bem feita e o papel utilizado no miolo tem alta gramatura e deixa a história muito mais bonita e prazerosa de ler. Sem contar que sempre podemos encontrar em promoções.

Vale muito a pena ler esse material.

 

“Ser refém é pior que estar na prisão. Na cadeia você sabe porque está preso. Sabe o dia que vai sair, a data precisa…

Mas aqui você pode apenas contar os dias que se passaram sem saber quando isso vai terminar.”

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