Foto João Caldas

O que seria da compreensão do presente se não fosse, primeiramente, a compreensão do passado? Tal contestação um tanto óbvia parece ser cada vez mais desvalorizada diante do excesso informacional midiático que dificulta uma pesquisa aprofundada sobre qualquer tema atual.

O porquê de determinados comportamentos do passado ressuscitarem na contemporaneidade, de determinados regimes totalitários voltarem a imperar em algumas sociedades, entre outros aspectos, são questionamentos complexos que só podem ser melhor compreendidos a partir de um estudo detalhado da história; e do passado e do presente como tempos interligados e jamais isolados um do outro, o que explica a atemporalidade de alguns fenômenos. Um deles é o totalitarismo, muito bem explorado no espetáculo Estado de Sítio, em cartaz no teatro do Sesc Vila Mariana.

A peça foi publicada, originalmente, em 1948 pelo autor franco-argelino Albert Camus, que se consagrou com a obra O estrangeiro. Agora com direção de Gabriel Villela, a história se passa numa cidade da Espanha, onde tudo parece seguir normalmente até que a passagem de um cometa abala a todos por indicar um mau agouro: é a chegada da peste, que começa a dizimar a população. Como ela se espalha, primeiramente, nas áreas mais periféricas da região, o Governador (Arthur Faustino) busca esconder o cenário com o intuito de não causar alardes em toda a população.

Mas suas tentativas revelam-se em vão quando a própria Peste (Elias Andreato) surge personificada diante de seus olhos, acompanhada de sua secretária, a Morte (Claudio Fontana), e assume o posto de Governadora, para assombro da região. A partir de então, todos terão que seguir o duro regulamento imposto por ela, que ameaça espalhar a peste cada vez mais rápido, à medida que mais cidadãos se rebelarem contra as novas leis. Com diversas mortes acontecendo pela cidade, o jovem e corajoso Diego (Pedro Inoue) surge como uma esperança, devido a sua ousadia e a sua energia. Apaixonado pela jovem Vitória (Mariana Elisabetsky), ele se revela cheio de vida e não teme a Morte.

O texto denso de Camus ganha vida na brilhante atuação do elenco e no figurino sombrio e chamativo, muito bem produzido, para externar o medo e os tempos sombrios instaurados pela Peste. A sintonia entre Andreato e Fontana no decorrer do espetáculo e a atuação envolvente de ambos contribui para inquietar a plateia e transportá-la para o cenário da peça, com a mesma sensação dos habitantes da cidade espanhola. A expressividade corporal e a vocal muito bem trabalhadas por todo o elenco contribuem para mostrar a grandiosidade do texto do autor. Destaque também para o ator Chico Carvalho, no papel de um narrador bêbado, o qual vai revelando a história aos espectadores.

O texto de Camus trazido para o teatro, com a excelente direção de Villela, ganha ares de obras shakespearianas, dada a densidade contextual, e nos inquieta sobre a atemporalidade do totalitarismo que segue a se manifestar de diferentes formas nos dias atuais, cuja proximidade com determinados aspectos da obra pode ser maior do que imaginamos.

Serviço:

Estado de Sítio

Onde: Sesc Vila Mariana: Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, São Paulo – SP. Tel.: (11) 5080-3000. Bilheteria: terça a sexta-feira, das 9h às 21h30; sábado, das 10h às 21h; domingo e feriado, das 10h às 18h30 (ingressos à venda em todas as unidades do Sesc).

Quando: quinta a sábado às 21h, domingos e feriados às 18h

Quanto: R$ 12 (Credencial Plena) l R$ 20 (meia entrada) l R$ 40 (Credencial de Atividades e não credenciado)

Até 16 de dezembro de 2018