Foto Ronaldo Gutierrez 

Vivemos tempos incertos em que o excesso informacional dificulta ou nos impede de filtrarmos as mensagens realmente relevantes das chamadas fake News – informações falsas. Em meio a essa avalanche midiática, é significativo o número de pessoas que se aproveitam da situação para impor suas ideias e posicionamentos estrategicamente, com o intuito de influenciar e condicionar o pensamento alheio.

Num ambiente onde a criticidade ao que é apresentado é vista como um grande perigo para a hegemonia de determinadas ideias, a resistência a esse pensamento hegemônico se faz cada vez mais urgente e imprescindível se queremos combater a passividade e assim fomentar o olhar para o todo. Questionamentos como esses são apresentados em uma das obras mais influentes do século XX, escrita em 1949 pelo romancista e jornalista inglês George Orwell (1903 – 1950): 1984. A história ganhou adaptação para o cinema e para o teatro e, em São Paulo, está em nova temporada no Teatro Porto Seguro.

Com direção de Zé Henrique de Paula, a peça é protagonizada pelo personagem Winston (Rodrigo Caetano), habitante de uma sociedade fictícia, o Estado da Ocêania, caracterizada pelo autoritarismo e pela doutrinação estatal. Nela, todos são vigiados incessantemente pelo líder supremo do governo, o Grande Irmão, que chegou ao poder após uma guerra mundial, que eliminou as nações e criou três grandes potências totalitárias: burocracia, censura e vigilância.

Num lugar onde o pensar crítico é considerado uma ameaça ao Estado, onde o passado é desconstruído em prol de uma ideia dominante e onde todos são controlados por teletelas, que invadem a mente populacional a fim de que esta não reaja contrariamente, Winston resolve se rebelar contra o partido e a manipulação alheia.  Funcionário do Ministério da Verdade, destinado a apagar arquivos históricos, ele se revela extremamente indignado com a arbitrariedade reinante.

Como forma de inibir cada vez mais a liberdade de expressão, o partido impõe a chamada Nova Fala (novilíngua em algumas traduções) – quanto menor o vocabulário melhor –, e quem ousar rebelar-se será pego, torturado e morto. Mas nada é páreo para Winston, que se apaixona pela colega de trabalho Julia (Gabriela Fontana), e, nos encontros às escondidas, resolvem se opor ao poder estatal.

Uma conjuntura de elementos cenográficos contribui intensamente para nos levar ao mundo do protagonista e vivenciar suas sensações de inquietação, ruptura, medo e angústia. Durante todo o espetáculo, uma série de projeções, luzes e sons surgem inesperadamente para acompanhar as surpresas da trama e nos inquietar ainda mais. O rico diálogo cênico – que a princípio pode parecer confuso para alguns, mas logo se torna familiar ao nos revelar o ambiente de opressão e alienação ao qual os personagens estão submetidos – e a fenomenal interpretação de Rodrigo Caetano são fundamentais para a vivacidade do espetáculo.

Ao longo da peça, Smith vai sofrendo uma profunda transformação marcada pelo aumento da indignação com o partido, a paixão por Julia, a tortura que lhe é imposta por O’Brien (muito bem interpretado por Carmo Della Vechia, cujo personagem joga friamente com Smith), um dos líderes do partido, até atingir o ápice final. A intensidade de emoções vividas pelo personagem à medida que a peça se desenrola para o desfecho contribui para gerar ainda mais apreensão na plateia. Embora a obra de Orwell tenha sido escrita em 1949, é impressionante a atemporalidade da crítica que ela nos propõe.

Considerado um verdadeiro visionário por retratar um período além do seu tempo, Orwell não abordou apenas um cenário típico do ano de 1984, mas uma manifestação hegemônica que se revela atemporal e insiste em fincar suas raízes por meio dos grupos totalitários surgidos em diversas partes do mundo. Estamos no ano de 2018 e a distopia produzida por Orwell, embora totalmente fictícia, traz elementos perfeitamente compatíveis com a realidade, como as estratégias de desconstrução da história, a vigilância constante, a manipulação frenética; tudo para combater o sujeito pensante.

Uma obra, portanto, atemporal, inquietante e questionadora que nos leva a analisar o nosso próprio contexto real para jamais nos conformarmos com informações solidificadas e baseadas unicamente no senso comum; a fim de que nosso espírito crítico possa estar sempre fortalecido para dar luz e voz aos direitos dos seres humanos.

Serviço:

1984

Onde: Teatro Porto Seguro*: Al. Barão de Piracicaba, 740 – Campos Elíseos – São Paulo. Telefone (11) 3226.7300. Bilheteria: De terça a sábado, das 13h às 21h e domingos, das 12h às 19h.

Quando: quartas e quintas às 21h

Quanto: R$ 20 a R$ 60

Até 6 de dezembro de 2018

*O Teatro Porto Seguro oferece vans gratuitas da Estação Luz até as dependências do Teatro. COMO PEGAR: Na Estação Luz, na saída Rua José Paulino/Praça da Luz/Pinacoteca, vans personalizadas passam em frente ao local indicado para pegar os espectadores.