Por que Machado de Assis causa tanto incômodo?

Foto: Cris Bierrenbach

1. Numa entrevista de 2018, o poeta e professor Ítalo Moriconi comentou sobre o efeito das mudanças sociais das últimas décadas nas aulas do curso de letras da UFRJ. Lá há um número grande e bem-vindo de estudantes contemplados por bolsas e ações afirmativas, o que redefiniu a visão até então comum sobre certos clássicos da ficção brasileira.

O caso mais curioso é o de Machado de Assis. Uma parte considerável dos novos alunos é evangélica, e para ela a ironia laica do autor – com suas histórias bíblicas citadas de maneira enviesada, por exemplo – não é elogiada como valor. “Brás Cubas é muito cético para eles”, diz Moriconi. “Eles no fundo esperam da literatura algo edificante.”

É fácil considerar filistina esse tipo de visão, já que lições de moral e suas variantes não costumam ser associadas com qualidade literária, mas o fato é que a recepção de um romance, conto ou poema depende muito do vai e vem das guerras culturais. O próprio Machado, que por algumas décadas foi visto como escritor algo alienado, tão oficialesco quanto o seu busto de fundador da ABL, mudou de imagem nos anos 1960 graças a estudos como os da feminista Helen Caldwell e do marxista Roberto Schwarz.

Ambos partiram de questões formais, em especial a escolha da perspectiva em primeira pessoa, para mostrar que em “Memórias póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro” havia um componente subversivo, entrelinhas que diziam o contrário do sugerido pelo valor de face de cada texto. No primeiro caso, a insensibilidade volúvel do narrador defunto, dândi e rentista também é uma crítica à elite em meio à qual ele viveu. No segundo, é a subjetividade radical de Bentinho que ilumina a dúvida sobre o comportamento de Capitu.

Se o critério for a percepção da ironia nesses romances, seu poder de gerar dúvidas narrativas e inquietações políticas, a leitura dos alunos da UFRJ é semelhante às de Caldwell e Schwarz. O que muda, claro, é o juízo de valor sobre o que a ironia acaba gerando. Guerras culturais servem também para isso: determinar quais ataques à sociedade são aceitos, quais utopias – as revolucionárias, as reacionárias – que devem se opor ao imobilismo cético.

2. Como Machado será julgado no futuro, dado o ambiente ideológico que veio para ficar no Brasil? Pensei na pergunta ao me deparar com uma nova edição do conto “Pai contra mãe” (Cobogó, 72 págs.), obra-prima sobre um homem negro que, pressionado pelas dívidas e com a esposa no final da gravidez, busca sorte no “ofício do tempo” que era caçar “escravos fugidos” no século XIX.

Num dos posfácios do livro, a escritora e jornalista Bianca Santana relaciona algumas das frases célebres do conto – “nem todos gostavam da escravidão”, “nem todos gostavam de apanhar pancada” – com uma carta real escrita por Esperança Garcia, mulher negra e escravizada que denunciou a violência a que eram submetidas ela e a comunidade onde sua família vivia no Piauí do século XVIII. O que era ironia corrosiva em Machado agora, no depoimento em que Esperança fala de “grandes trovoadas de pancadas em um filho meu”, vira um registro tragicamente literal.

Para Bianca Santana, como para qualquer leitor instruído de 2023, é evidente que a elegância do texto de “Pai contra mãe” – sua fluidez, suas pausas e alternâncias entre descrições físicas e sociológicas, seus momentos ternos, cômicos e brutais – cobre um fundo de indignação. A novidade é o tipo de afeto ou de tom que é relacionado a essa postura. O posfácio não cita a palavra “cético”, por exemplo. Em vez disso, é quase como se o autor do conto fosse um ativista à maneira de 2023, antecipando de forma enfática, direta, temas que ganharam urgência ainda maior em anos recentes – aborto ilegal, violência contra a mulher, brigas externas e internas de minorias, genocídio.

O que faz um ativista se não, usando a própria ação como exemplo, tentar melhorar as coisas a partir de uma visão inconformada com a realidade? O objetivo aí não é também “incitar ao bem, à virtude”, definição de um dicionário online para o termo “edificante”? A diferença entre Bianca Santana e os alunos da UFRJ é que ela, como Machado, não está feliz com o que vê ao seu redor no dia a dia – e projeta isso nos mecanismos de identificação com aquilo que lê.

Já os alunos, que também não estão felizes, mas por motivos diversos, fazem outra espécie de projeção: por causa do tipo de crítica presente em obras como “Pai contra mãe”, da escolha dos alvos políticos contra os quais a crítica se volta, não querem ou não conseguem enxergar a proposta de ação – daria para chamar assim? – por trás do aparente fatalismo machadiano.

3. Há muitos modos de interpretar um texto, e reelaborar literariamente seu tema é um dos mais interessantes. Em “A água é uma máquina do tempo” (Círculo de Poemas, 144 págs.), Aline Motta mistura poesia, prosa e colagens de documentos e imagens para contar a história da própria família, em especial a sua relação com a mãe, cobrindo um período que vai do século XIX ao XXI.

Há muitas frases de “Pai contra mãe” espalhadas no livro. Algumas traçam na página o mapa de um Rio oitocentista que não existe mais, e ao mesmo tempo – nas ressonâncias culturais, no sofrimento psíquico trazido por lembranças que remetem ao passado – segue existindo: “Pediu então que a soltasse pelo amor de deus”; “Vocês, se tiverem um filho, morrem de fome”.

Como “Pai contra mãe”, “A água é uma máquina…” usa recursos da literatura para descrever uma doença social, o poder que a escravidão (e sua origem/extensão racista) teve de corromper todas as instâncias da vida brasileira. É uma abordagem sistêmica: ao redor dela é que giram as tragédias individuais dos dois textos. Nascida em Niterói, em 1974, Aline teve tataravó, bisavó, avó e mãe que passaram por situações que derivam do cenário histórico: bebês entregues para a adoção por causa da miséria (“havia a esperança de que o leite de primeiro parto pudesse ser alugado para outro recém-nascido”), casamentos forçados para supostamente compensar estupros (“a avenida que corta o bairro do Leblon ao meio tem o nome do juiz de paz do caso”).

O passado define o futuro que um dia se torna presente: criança quase um século depois da abolição formal da escravidão, Aline (ou a voz poética/narrativa do livro) ouve frases esparsas, fragmentos que dão pistas do tempo político que não evolui. No livro, elas estão em poemas (ou em colagens de prosa, no contraste entre as letras negras pequenas e a superfície maior da folha branca): “Uma vez uma senhora me deu dinheiro na rua e disse:/ é para ajudar sua família”; “Meu pai me levava na aula de natação. Um dia ouvi as outras/ crianças se perguntando: será que ela é adotada?”.

Qual a diferença entre o impacto de trechos assim, escritos por uma autora que não esconde sua consciência do problema racial brasileiro, e os de um conto irônico como o de Machado, deixando de lado discussões sobre as qualidades estéticas de um clássico? A própria Aline parece sugerir a resposta complementando os versos antes citados, num dos vários pontos do livro em que escolhas individuais se submetem à história: “Era possível que eu estivesse suja (…). Era possível que eu estivesse descalça. Era possível que meu pai, que me acompanhava, não se parecesse em nada comigo (…) Era possível tanta coisa (…). Eu, pele suja. Tenho raiva por ter aceitado o dinheiro”.

Sobre o autor

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José Fagner Alves Santos é jornalista (MTB 0074945/SP), formado em Letras. Mestre em Educação. Fã de Ernest Hemingway, Tom Wolfe, Gay Talese, Hunter Thompson, John Hersey e Eliane Brum. Faz um arremedo de jornalismo literário. Publica sempre às segundas aqui no Editoria Livre e apresenta o podcast que é publicado às quartas. Colabora com o Portal Café Brasil.


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