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Uma breve introdução ao jornalismo literário – Podcast Editoria Livre

Eu vinha caminhando pela avenida Epitácio Pessoa, na cidade de Santos, na altura do Canal Seis. Ali perto tem uma loja do mercado Pão de Açúcar. Na entrada do estacionamento, quase rente à calçada, havia uma banca de jornal muito sortida.

Como eu não resisto a uma banca ou livraria, dei uma passada esperando encontrar alguma novidade. Essa é uma das coisas que eu mais gosto em visitar livrarias ou bancas: somos surpreendidos por publicações que nem fazíamos ideia de que existiam.

Estávamos no mês de outubro e o ano era 2008. Entre as várias publicações que encontrei, uma me chamou especial atenção. Era a edição 25 da revista Piauí. Confesso que eu nunca havia ouvido falar daquela publicação, mas o tamanho da revista e a cara underground fizeram com que eu tivesse vontade de comprar.

Levei a edição para casa sem saber muito o que esperar. Entre as várias reportagens que encontrei – todas muito longas – havia uma escrita pelo documentarista João Moreira Salles que se chamava O Caseiro. Na época eu não fazia ideia de quem fosse João Moreira Salles, mas depois eu descobri que ele era irmão do Walter Salles, o cineasta que havia produzido filmes como Central do Brasil e Diário de uma Motocicleta, só para citar os mais famosos. Ambos, tanto João quanto Walter, eram Filhos do banqueiro e embaixador Walther Moreira Salles e da embaixatriz Elisa Margarida Gonçalves Moreira Salles. Essa é a família que detém o controle acionário do grupo Unibanco, recentemente fundido ao Itaú.

Walter Moreira Salles, o pai, também é o fundador do Instituto Moreira Salles, uma organização sem fins lucrativos que tem por finalidade exclusiva a promoção, a formação de acervos e o desenvolvimento de programas culturais nas áreas de fotografia, literatura, iconografia, artes plásticas, música e cinema. Em resumo, a família está profundamente envolvida com questões de produção e conservação de obras intelectuais.

A reportagem daquela edição da Piauí tinha o subtítulo: “De como todos os poderes da República – Executivo, Legislativo, Judiciário, polícia, imprensa, governo, oposição – moeram Francenildo dos Santos Costa”. Era uma linha fina bastante descritiva. Eu já tinha ouvido falar do caseiro Francenildo nas reportagens de TV.

A reportagem O Caseiro abria com uma fotografia em preto e branco do Francenildo de braços cruzados, olhando diretamente para a câmera e com um texto que começava assim;

“Francenildo dos Santos Costa era caseiro, tinha 24 anos, quatro bermudas, três calças jeans, cinco camisetas, três camisas, cinco cuecas, três pares de meia, dois pares de tênis, um sapato e um salário de 370 reais quando tudo começou, em março de 2006.”

Eu fiquei espantado. Que tipo de reportagem era aquela? Onde estava o lead jornalístico? Como o redator sabia de tantos detalhes? O texto segue firme em suas exaustivas explicações por páginas e páginas. A reportagem é composta por 15280 palavras, o que dá aproximadamente 25 páginas no formato A4, e levou um ano para ser produzida.

Enquanto escrevo isso aqui, eu consigo lembrar do sentimento que tive ao ler aquela reportagem. Ao contrário do que possa parecer, a história não ficou chata. Na verdade, parecia uma aventura policial, mas com toda a apuração do labor jornalístico. Aquela era uma reportagem em estilo de jornalismo literário, uma vertente que mistura a apuração jornalística com técnicas de escrita vindas da literatura.

A origem do jornalismo literário é um tanto nebulosa, mas convencionou-se que ela fosse americana e que teria surgido entre as décadas de 1960 e 1970. Autores como Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe, Joan Didion, Hunter Thompson e Norman Mailer criaram uma revolução no mercado literário durante o período da contra cultura.

Aqui no Brasil, entre 1966 e 1976, tínhamos a revista Realidade. Essa publicação trazia reportagens no estilo de jornalismo literário, escritas por profissionais brasileiros como José Hamilton Ribeiro, Audálio Dantas e muitos outros.

Em 2006, o cineasta João Moreira Salles teve a ideia de criar uma revista brasileira que trouxesse de volta o bom e velho jornalismo literário. Inspirada na publicação americana The New Yorker, a revista Piauí veio suprir essa nossa carência. Atualmente sou colecionador da publicação e tenho todos os números. A partir dessas leituras, comecei a me inteirar sobre o jornalismo literário ao redor do mundo. Descobri que o México tem uma publicação semelhante chamada Gatopardo, da qual também sou colecionador. Nos Estados Unidos existem várias publicações desse gênero. Argentina, Canadá, Inglaterra, Japão, todos os países possuem suas respectivas publicações e, consequentemente, seus profissionais da área.

Quero te convidar para um mergulho nesse universo do jornalismo literário, também conhecido como Novo Jornalismo. Publicaremos 12 edições do podcast sobre o tema. A cada 15 dias um programa novo.

Críticas, dúvidas e sugestões serão sempre bem vindas.

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