Cuidado! Uma crônica de bosta

Receber a sogra é foda, né? Luana vivia este dilema!

Estava preocupada com a chegada dela e não sabia o que fazer para agradar a véia.  Era a primeira vez que recebia a mãe daquele com quem pretendia dividir as dívidas, em breve.

No último encontro, quando foi visitante, Luana deu vexame! Chegar de cabeça erguida e nariz em pé (como bem orientou uma amiga) lhe causou problemas, pois foi assim que não viu as fezes que o “Otto”, antipático cão da família, deixou no quintal.  A sogra não afagou a nora – como já era esperado – porém, os dejetos caninos abraçaram forte a sola do sapato da visitante e o aguardado encontro foi uma bosta. Ou melhor: era merda para tudo quanto é lado da casa, além daquele fedor característico. Luana, criada em bons modos e educada, não sabia onde se enfiar de tanta vergonha. Para piorar mais ainda e na hora de ir embora, a noiva voltou a pisar no mesmo excremento que pisara outrora e se “enfezou” pelo carro, quarto e tudo quanto era lugar…

Vale lembrar que pisar no cocô é sinal de dinheiro, de acordo com a crença de alguns (frase criada na certa por um pobre para aliviar a dor da vida, no caso, o cheiro) mas a regra não se aplica no sucesso de pisar duas vezes no mesmo dejeto:  é um baita azar mesmo ou alguma disfunção cerebral grave, digna de internação.

Mas chegava a hora de retribuir a visita e Luana estava apreensiva. Preparou tudo o que a idosa gosta e fez até uma playlist caprichada no youtube, com as principais músicas de Roberto Carlos, de quem a anciã era fã.

Dentro de casa foi perfeito e tudo ocorrera como o planejado: Ela já tinha tirado a nota 10 e não precisava de mais nada para receber a aprovação da obsoleta. Porém, como a vida não é só de bom hálito, resolveu levar a mulher decrépita para passear em uma praça recém-inaugurada, pois haveria naquele dia uma apresentação de um cover do Reginaldo Rossi e depois o show do cearense Falcão.

Enquanto a antiquada mulher chupava um sorvete e contava maravilhas da sua ultrapassada juventude, Luana, já aperreada com azucrinante discurso, se preocupava com a velocidade com que um brinquedo instalado na praça girava, mesmo sem qualquer motivo para tal desassossego. Havia crianças sentadas no gira-gira e o sangue começou a ferver, enquanto coração dela batia cada vez mais forte…

Ignorando todo o discurso arcaico da moribunda e de repente, como se tentasse interpretar algum herói de gibi americano, Luana corre para tentar parar o brinquedo com as próprias mãos, mas não consegue. A velocidade era tanta que ela ficou grudada com as duas mãos no gira-gira, repetindo a pose do superman, só que voando de lado. Alguns acharam engraçado a cena, mas outros julgaram um disparate uma adulta se intrometer no brinquedo dos pequenos, enquanto faziam cara feia de reprovação. Por incrível que pareça e pelos ossos ofídicos que a vida nos injeta, foi a sogra – aquela mulher com a data de validade vencida – que percebeu a agonia da futura consorte de seu filho e tentou ajudar. Até o Falcão, que cantava desafinado e sem vontade, percebeu e parou o som, chamando a atenção de todos para que olhassem o outro show particular.

Foi neste momento que a Anaksunamum de outrora (ou melhor: outra era) distraiu-se com o cantor e passou perto demais do brinquedo fazendo com que as pernas aladas de Luana fossem encontrar os membros terrestres envelhecidos da caduca. Com a batida e o rapa, o rosto daquela senhora, que já faz hora extra no mundo, caiu em cima de um tolete de merda deixado por algum animal, chocando a todos…

Criação e Autoria: Márcio Ribeiro

Imagem: openClipart-Vectors por pixabay

Contato: [email protected]

Data: 02/10/2021

Percorrendo as praias de Peruíbe e região

Sobre o autor

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Sou Jornalista, Técnico em Turismo, Monitor Ambiental, Técnico em Lazer e Recreação e observador de pássaros. Sou membro da Academia Peruibense de Letras e caiçara com orgulho das matas da Juréia. Trabalhei na Rádio Planeta FM, sou fundador do Jornal Bem-Te-Vi e participei de uma reunião de criação do Jornal do Caraguava. Fiz estágio na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Peruíbe e no Jornal Expresso Popular, do Grupo "A Tribuna", de Santos, afiliada Globo. Fui Diretor de Imprensa na Associação dos Estudantes de Peruíbe - AEP. Trabalhei também em outras áreas. Atualmente, escrevo para "O Garoçá / Editoria Livre" e para a "Revista Editoria Livre."


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