“A desintegração da Morte”: Saiba quando o mundo cultuaria monstros do passado
A desintegração da morte
De: Orígenes Lessa
(…) Súbito, a porta do laboratório se abriu. A sala foi rapidamente invadida por mascarados.
“Gangsters”, pensou Klepstein, alarmado.
Mas, antes de pronunciar qualquer palavra, dois ou três tiros soaram, e o velho professor sentiu que seu corpo estava impiedosamente crivado de balas.
– Mas o quê? Mas o que há? – Perguntou Klespstein, assustado.
(…) Um dos mascarados aproximou-se do velho sábio, que tiritava de medo. Assestou-lhe tranquilamente o revólver contra o peito.
– É tempo perdido – disse um outro arrancando a máscara. – Chegamos tarde demais. (…)
De fato, era lamentável a situação do pobre homem. Fora metralhado de alto a baixo. Estava coberto de sangue. Mas, curiosamente o sangue já não corria, parecia coagular-se rápido à flor da pele.
– Chegamos tarde demais – insistiu o que parecia o chefe. – O bandido já completou o crime.
– Mas que crime? – perguntou Klepstein, gemendo, afinal descobrindo a razão do assalto, mas sem compreender. – Eu acabo de prestar o maior serviço à humanidade, acabo de desintegrar a morte, de libertar a humanidade do seu mais temível inimigo!
– Não há nada mais burro do que um sábio – disse o chefe aparente, caindo desanimado na cadeira onde minutos antes o Professor Klepstein descansava. (…)
-(…) O senhor não desintegrou a fome, desintegrou professor? (…)
-Há meio milhão de empregados em empresas funerárias nos Estados Unidos, sem falar nos outros países – disse Gladliver, que falava em nome da maior cadeia de funeral homes do mundo. (…)
Dentro de poucos dias a batalha assumia caráter de franco desespero. Sentia-se – e o particular, o homem da rua, não sabia por que nem como – que algo de estranho estava acontecendo no mundo. (…)
As cartas de Trombstone, divulgadas pela imprensa abriram os olhos do mundo e das autoridades. Observou-se então que o fenômeno era geral e o mistério também. Realmente, ninguém estava morrendo. A verificação fazia-se em toda a parte e vinha confirmada dos extremos da Terra. Agora se compreendia. Mais ou menos simultaneamente, em todos os países, tinha parado a venda de caixões e coroas fúnebres, tinham ficado às moscas os cemitérios, multiplicavam-se os prodígios da Medicina em casos ainda há pouco absolutamente perdidos.
(…) O mal, agora, não era a morte. Era o nascimento. Somente sobreviveriam, ou melhor, somente subsistiriam econômica, social e politicamente, os povos que impedissem o agravamento dos males pelo nascimento de novas criaturas. A questão era limitar as bocas. A superpopulação era a miséria sem conserto. E como parecia provado que a descoberta de Klepstein apenas afastava a morte, mas não impedia a doença, e muito menos a velhice, os cientistas russos, mesmo sem ter novos filhos, eram obrigados a trabalhos excepcionais, em pesquisas exaustivas, a fim de prolongar quanto possível a maturidade do homem. Para longe a velhice, era o lema proposto. E, como decorrência da campanha, seus cientistas eram mobilizados para a descoberta de novos processos e remédios contra o câncer, a tuberculose e outras moléstias agora bem mais graves, por que não matavam…
(…) Mais do que nunca a Medicina ia ser indispensável. Porque antes dez cânceres de dois anos que meio câncer para a eternidade. (…)
Agora as religiões se reorganizariam: haveria um Deus. Haveria um Deus capaz de conceder novamente à humanidade o dom supremo da morte. E os profetas surgiam. Um romance vendia-se aos milhões de exemplares, traduzido em todas as línguas: No tempo em que os homens morriam. O sucesso do autor dá lugar a novos livros. Todos os literatos, todos os artistas estão voltados para a morte. Já ninguém se interessa pelo amor. A cópula perdeu toda a capacidade de imantar os pensamentos humanos. É preciso morrer. O marceneiro alemão não fala mais em reconquista da terra. Fez-se profeta. Fundou uma nova religião. Seu Cristo? Seu Maomé? Hitler! (…) Fora ele o grande benfeitor incompreendido! Mais de cinquenta milhões de vidas haviam recebido de suas mãos dadivosas o dom maravilhoso do repouso final.
(A desintegração da morte. São Paulo, Moderna.)
“A Desintegração da Morte”
De: Orígenes Lessa (1903 – 1986)
Editora Moderna, São Paulo, 1948
Organização: Beth Griffi / Márcio Ribeiro
Imagem: Pixabay
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Sobre o autor
Sou Jornalista, Técnico em Turismo, Monitor Ambiental, Técnico em Lazer e Recreação e observador de pássaros. Sou membro da Academia Peruibense de Letras e caiçara com orgulho das matas da Juréia. Trabalhei na Rádio Planeta FM, sou fundador do Jornal Bem-Te-Vi e participei de uma reunião de criação do Jornal do Caraguava. Fiz estágio na Assessoria de Imprensa da Prefeitura de Peruíbe e no Jornal Expresso Popular, do Grupo "A Tribuna", de Santos, afiliada Globo. Fui Diretor de Imprensa na Associação dos Estudantes de Peruíbe - AEP. Trabalhei também em outras áreas. Atualmente, escrevo para "O Garoçá / Editoria Livre" e para a "Revista Editoria Livre."