Apesar de o dia anterior ter sido muito movimentado, eu acordei cedo e com grande disposição, mesmo não sabendo o que o dia me reservava. Uma coisa era certa, eu teria que enfrentar a turma do Tuca.Finalmente chegou o dia. Era quarta-feira, e até hoje me pergunto o motivo de voltarmos às aulas no meio da semana. Lógico que nunca fui reclamar na diretoria. Já pensou se eles resolvessem, no ano seguinte, começar mais cedo, num dia de segunda?

Meu pai ainda estava dormindo e eu não quis pedir para me levar à escola. Como era cedo, resolvi ir a pé. O sol aos poucos, como que tímido, ia aparecendo e o seu brilho ia refletindo nas folhas úmidas de orvalho. A cidade, naquele horário, era sempre deserta. De longe podia se ouvir alguns galos cantando e uns cachorros de rua latindo, isso quebrava todo o encanto daquele lindo cenário. As únicas pessoas que se viam nas ruas eram o entregador de leite e a Dona Maria do Rosário, esposa do Dr. Jorge – o dentista da cidade. A dona Maria gostava de acordar cedo para varrer a calçada em frente à sua casa e a do consultório do marido que ficava ao lado. Muitos falavam que era falta de louça pra lavar. Coitada. Se todos seguissem o exemplo dela a cidade seria mais limpa.

Pela ardência na minha pele, concluí que o dia seria ensolarado, perfeito para nadar no rio. As pessoas começavam a aparecer nas ruas. Muitas se dirigiam ao trabalho, outras só queriam pegar o leite deixado no portão horas antes. Tudo voltava ao normal, inclusive as aulas. E eu, sem perceber, consegui fazer o que seria impossível para um garoto normal: sair cedo e chegar quase atrasado no primeiro dia de aula.

A escola ficava bem no meio da cidade. Eu tive que correr para não dar de cara com o portão fechado. Isso, definitivamente, eu não conseguiria explicar ao meu pai. Em meio a muitos alunos se debatendo, à procura de suas respectivas salas, consegui achar a minha. Eu estava na oitava série e tínhamos apenas uma turma. Assim, foi fácil encontrar.

Ao entrar na sala, antes de achar um lugar para sentar, olhei em volta atentamente. Geralmente, o primeiro lugar em que você sentasse ficaria marcado pelo resto do ano. Não queria cometer os mesmos erros que das séries anteriores. Tentei procurar pela Alessandra- minha princesa – para tentar sentar perto. Queria, ao menos, poder ficar numa posição em que fosse possível observa-la durante as aulas.

Ela ainda não havia chegado. Senti um aperto no coração. Tocou o sinal para o começo da primeira aula.  A professora entrou e, antes de conseguir fechar a porta por completo, uma mão a empurrou na direção contrária, arrancando risos de toda turma. Era o Oliver que, num ato de cavalheirismo, deixou outra aluna entrar. Era a “minha” Alessandra. Naquele momento senti uma fisgada no intestino. Incrível como o meu nervosismo havia mexido com o meu organismo. A dor de barriga foi tão forte que pensei que iria fazer nas calças mesmo. Ao meu lado havia apenas um lugar desocupado. E, naquele momento, não sabia se torcia para a Alessandra ou para o Oliver sentar ali. Como a minha dor de barriga dava indícios de que iria piorar, acabei concluindo que o melhor seria Oliver ocupar o lugar. Foi quando ele me viu e deu um grito: “Léo!”.

Todos olharam pra mim. Era possível ler, naquelas expressões, a pergunta: como foi que esse tímido conheceu o novato? O grito do Léo encerrou todas as chances da Alessandra, sentar ao meu lado. Estava na cara que o Oliver iria querer sentar ali. Naquele momento não sabia se devia agradecer ou dar um chute na canela dele. ‘Obrigado por nada, Oliver’, pensei em falar. Mas como minha dor de barriga e, consequentemente, a vontade de ir ao banheiro tinham passado, agradeci a Deus pelo fato da Alessandra não ter escolhido sentar ali. Não sei o que poderia ter acontecido. Na verdade, nem queria imaginar.

“E aí, Léo, já viu o tal do Tuca e os moleques?”, perguntou Oliver, esquecendo que a sala estava cheia e tinha uma professora de pé esperando os dois últimos atrasados ocuparem seus lugares. Novamente toda a sala se virou para mim, não acreditavam no que acabaram de ouvir. A maioria conhecia a fama do Tuca. E muitos até já haviam sofrido nas mãos daquela turma. Olhei para o pessoal com aquela cara de ‘de que diabos ele está falando?’, mas não pude escapar da professora Rute. Todos sabiam o quanto ela era rígida e o quanto ela ficava nervosa quando algo interferia em suas aulas.

“Então, Sr. Leonardo, não vai responder ao Sr. ‘Cheguei 2 minutos atrasados’?”, Perguntou ela, arrancando novamente risos de toda a turma. Eu não sabia se era retórica ou se ela realmente desejava que eu respondesse.

 

“Desculpa, dona Rute, eu…”, antes que pudesse terminar, ouvi uma pancada aguda da régua de metal batendo contra a mesa de madeira. “Quieto!”, gritou ela, fazendo sua voz ecoar por todo o corredor. O silêncio tomou conta da sala imediatamente. Não se ouvia nenhum ruído vindo de nenhuma das outras cinco salas ao lado. Era sinal de que as aulas haviam começado. Todos na escola, temiam a Dona Rute. Nunca entendi o motivo dela ser tão amarga. De qualquer forma, seria um longo ano.

Olhei para Oliver. Queria observar sua reação diante da professora que acabara de conhecer. Ele sorria como quem bolasse alguma coisa, ou como se estivesse achando tudo divertido. “Definitivamente esse moleque não bate bem das ideias”, pensei.

Enquanto a dona Rute ia dando o seu “sermão dominical” para a turma, mostrando suas exigências e nossos deveres, corri meus olhos pela sala. Queria saber aonde a Alessandra estava sentada. Com todo aquele tumulto que o Oliver havia armado, esqueci de acompanhá-la com os olhos até seu local assento.

Ela estava na segunda fileira à minha direita e três cadeiras à minha frente. Não era um angulo perfeito, mas o suficiente para ficar observando sem chamar a atenção.

“Sr. Leonardo, vai prestar atenção no que eu estou falando, ou vai ficar admirando a ‘Sra. dois minutos atrasados’, que está sentada aqui na frente?”, denunciou a professora, apontando para a Alessandra. A sala continuava em silencio. A Alessandra nem cogitou olhar para trás. Mas eu sabia que ela não havia ficado nada contente com aquele comentário.  O único que achava toda essa situação divertida era o Oliver. Eu já começava a achar que o sobrenome de Oliver era ‘Encrenca’, pois nunca vi tantos problemas num espaço tão curto de tempo. O pior é que o dia estava apenas começando, e mais encrencas iriam aparecer quando encontrássemos com o Tuca e seus comparsas. Algo me dizia que aquele não seria um bom dia.

Quando a dona Rute se virou para o quadro, olhei rapidamente para a Alessandra. Ela teve a mesma ideia e me pegou em flagrante. Tentei disfarçar mas já era tarde demais. O jeito que ela me olhou destruiu todas as esperanças que eu tinha de um dia puxar assunto..

 

Quinto capítulo do livro Tudo que tenho de fazer é sonhar, do Eddie Silva, que está em promoção na Amazon. Adquira já o seu exemplar. A promoção é por tempo limitado.