“Suspender usinas é ordem de Figueiredo”, noticiava a Folha em sua primeira página de 8 janeiro de 1983. Já O Globo informava “Figueiredo suspende obras de usinas nucleares” enquanto o Jornal do Brasil anunciava “Governo decide cancelar início das usinas atômicas paulistas. Em pleno auge da movimentada temporada de verão em Peruíbe o governo anunciava a interrupção “por tempo indeterminado das obras das usinas Iguape 1 e Iguape 2” (Folha de S.Paulo, p.17) . Após quase três anos de temor, incerteza e muita luta a população de Peruíbe pôde ler nos jornais as manchetes que tanto desejava.

Folha de S.Paulo, 8 janeiro de 1983, capa.

Segundo a imprensa, a necessidade de conter gastos e a capacidade ociosa no consumo de energia elétrica na região sudeste foram os pontos apontados pela Nuclebras como determinantes para a decisão.

Sem dúvida, a situação econômica do país não era nada positiva e o empreendimento atômico mostrava-se um ralo por onde muito dinheiro se esvaía. O governo ditatorial havia enviado uma carta de intenções ao Fundo Monetário Internacional (FMI) em que se comprometia a reduzir o déficit externo, conter os gastos público e reduzir a inflação em troca do recebimento de um empréstimo de 400 milhões de dólares e do refinanciamento da dívida a vencer em 1983.

As eleições ocorridas em 1982 para escolha de governadores também foi um fator desfavorável ao projeto, visto que em São Paulo foi eleito um político da oposição — André Franco Montoro — que mostrava-se crítico às usinas.

Mas um dado que pode ser considerado primordial para barrar o projeto nuclear na Juréia foi, como vimos, a intensa mobilização popular antiusina. Diversos segmentos sociais, não apenas das cidades afetadas mas também da região litorânea, da capital, do estado e até em nível nacional movimentaram-se e articularam-se numa pujante luta contra a ameaça atômica e em defesa da vida, da natureza e da humanidade.

Talvez você, abnegado leitor que nos acompanhou neste sobrevoo sobre um período tão dramático, e ao mesmo tempo interessante, da recente história peruibense, esteja pensando: “Ora, é a história se repetindo! Quase 40 anos depois do temor nuclear, Peruíbe vive agora a ameaça termoelétrica.”

Refletir sobre esta questão exige algumas ponderações. Primeiro, sobre a História e nossa relação com o passado. Marc Bloch, historiador francês, alertou acerca da importância de transformar o presente vivido em reflexão histórica. Walter Benjamin advertiu para o perigo de não se enxergar no passado as vivências sociais contemporâneas, ou seja, é importante compreender o presente para compreender o passado. Assim, a História não se repete, é única, mas os homens podem estar fazendo as mesmas coisas, o que nos dá a ideia de um passado recorrente.

Todos nós que vivenciamos este 2017 em Peruíbe — e todos os embates decorrentes da tentativa de instalação de uma usina termoelétrica e de um terminal offshore na cidade — buscamos, inevitavelmente, estabelecer comparações com os acontecimentos do início da década de 1980, a fim de encontrar semelhanças e diferenças entre ambos. Encontraremos muitas: aquele era estatal, o de agora privado; antes em área de reserva, hoje, urbana; ambos com promessas redentoras para a cidade (empregos, infraestrutura, etc), nos dois, grupos políticos que, pensando exclusivamente em seus interesses pessoais, não se posicionam claramente, com posturas dúbias e acovardadas…

Talvez a relação entre 1980 e 2017 possa ser pensada a partir de três aspectos:

1) A importância da democracia:

O projeto nuclear a ser implantado na Juréia na década de 1980 foi decidido nos gabinetes em Brasília e São Paulo, sem qualquer diálogo com a sociedade, reflexo do sistema político ditatorial que vigorava no país. As mobilizações antiusina ocorriam sob a ameaça da repressão militar e entidades e pessoas eram vigiadas pela rede de controle e correção do DEOPS, um verdadeiro “Big Brother” governamental. Um caiçara entrevistado pelo jornal Cidade de Santos em agosto de 1980 sintetizou o momento: “Não adianta. O governo falou, tá falado, pois há até um clima militar em todas as decisões.”

Hoje, quando o país vivencia uma grave crise política, muitas vozes surgem defendendo “intervenção militar” e a volta de um governo ditatorial ou dizendo que “naquela época não acontecia como hoje”. Desconhecem — ou omitem — que durante a ditadura civil-militar de 1964 a 1985 existiam problemas semelhantes aos que vivemos hoje (violência, corrupção, descaso com a população, etc), que apenas não podiam ser expostos ou investigados porque desagradavam aos déspotas de plantão. Uma rápida consulta aos acervos dos grandes jornais brasileiros permite comprovar isso. Em tempos de intolerância e explosões de ódio — tanto no mundo real, quanto virtual — precisamos ter claro que a discordância e a divergência são pressupostos da democracia, assim como o respeito. Independente do caminho que o país venha a seguir (à esquerda, à direita ou a qualquer outro lado que se queira), o valor maior que deve ser preservado e aperfeiçoado é a Democracia.

2) A força da mobilização popular:

A interrupção do empreendimento atômico dos anos 1980 na Juréia teve como personagem principal a mobilização popular. Agora, em 2017, mais uma vez parcelas da sociedade peruibense foram às ruas e às redes expor seu descontentamento com o projeto termoelétrico, que parece estar caindo por terra. É a força do povo. Vivemos tempos distópicos, em que sabemos o que não queremos, mas não lutamos por construir um futuro almejado. Seria importante que canalizássemos energias no sentido de lutar pela cidade que queremos.

3) A busca de uma alternativa de desenvolvimento para Peruíbe:

Por que, quase 40 anos depois do temor nuclear, Peruíbe vê-se sob a ameaça termoelétrica, com as mesmas promessas de desenvolvimento, empregos e progresso para a cidade? É possível pensar esta indagação sob vários ângulos. Creio que o cerne da questão reside na ausência de um modelo de desenvolvimento para a cidade. Apesar de inúmeras potencialidades a serem exploradas, Peruíbe permanece — há muito tempo, para não dizer desde sempre — uma cidade que sobrevive do turismo praiano de verão. Assim, estes grandes empreendimentos (a Usina Nuclear, o Porto Brasil, a Termoelétrica), pensados sem levar em conta os anseios da população e as peculiaridades socioambientais da cidade, surgem como a redenção de um município sem norte.

No momento em que uma nova ameaça parece estar sendo afastada, urge que a sociedade peruibense – políticos, comerciantes, cidadãos moradores e turistas, ambientalistas, partidos políticos, entidades — inicie um processo de reflexão e debate a fim de construir uma alternativa de desenvolvimento para a cidade. Existem inúmeras. Apresento algumas:

  • 1) A elaboração de um verdadeiro projeto turístico para o município , em que se explore, durante todo o ano, o potencial das praias, da Juréia, da zona rural, da parte histórica, de eventos culturais organizados pela Prefeitura.
  • 2) A criação de um distrito industrial na cidade, a fim de incentivar a instalação de indústrias não poluentes, não prejudiciais ao meio ambiente e que não afetem o potencial turístico do município.
  • 3) Uma cidade universitária, com a luta pela instalação de uma Universidade Pública na cidade, que atrairia jovens de todo o Brasil e movimentaria a economia local, com aluguel de casas, diversas atividades comerciais (restaurantes, livrarias, cafés, hotéis, repúblicas, etc) sem gerar nenhum tipo de dano ao meio ambiente, além propiciar qualificação profissional e desenvolvimento cultural à região.
  • 4) Uma maior integração com o Vale do Ribeira através da criação de uma rede de transportes coletivos que facilitem a interligação com aquela região e permita a circulação de pessoas entre as cidades. A integração com a região do Vale — para a qual a maioria da população peruibense, soberbamente, vira as costas, julgando-a atrasada — pode representar um ganho econômico considerável para Peruíbe, que se constituiria num polo de comércio , serviços e lazer para os habitantes valeribeirenses.

É fundamental, neste momento, pensarmos que modelo de desenvolvimento queremos para Peruíbe, sob o risco de daqui 30 ou 40 anos estarmos novamente diante da ameaça de um novo empreendimento megalomaníaco que prometa a salvação para a cidade às custas de sua própria destruição.

Texto e Pesquisa: Fábio Ribeiro*

*Professor de História da Rede Pública e Mestre em História Social pela FFLCH/USP

Imagens: Creditadas no local

Publicação: Márcio Ribeiro / O Garoçá

“Agradecemos ao historiador, Fábio Ribeiro, pela enorme contribuição dada ao Garoçá e a história de Peruíbe. Muito obrigado!”

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FONTES CONSULTADAS

Jornal “O Estado de S.Paulo” disponível em http://acervo.estadao.com.br

Jornal “Folha de S.Paulo” disponível em http://acervo.folha.uol.com.br

Jornal “O Globo” disponível em http://acervo.oglobo.globo.com

Outros jornais citados http://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/

Acervo DEOPS http://www.arquivoestado.sp.gov.br/site/acervo/repositorio_digital/escritos

Revista “Veja” https://complemento.veja.abril.com.br/acervodigital/index-novo-acervo.html

ANEXOS

Artigo Usina Penúltima Parte: Usina nuclear: A redenção de Peruíbe?

Artigo usina parte 3: Movimentos antiusina e a vigilância do DEOPS

Artigo Usina parte 2: “Usina Não!” Versão 1980

Artigo usina parte 1: Juréia Atômica – “do boato ao fato”

Ensaio fotográfico: Viaje no tempo e veja fotos históricas e recentes de pichações antiusina