Foto Divulgação 

“A carne mais barata do mercado é a carne negra”, canta Elza Soares, em alto e bom tom, repetidas vezes, em sua música A Carne. A canção faz uma forte crítica à exploração racial ainda tão perpetrada no Brasil e que trata o negro como “mão-de-obra barata”. Se a escravidão foi abolida, em 1888, seus resquícios insistem em assolar tantos negros marginalizados, vítimas das injustiças sociais. Numa sociedade opressora que persiste em tentar calar a voz das minorias, é preciso, mais do que nunca, que elas sejam resistência. E uma das brilhantes formas de sê-la é por meio da Arte, que, através da palavra, da música, do poema e da imagem ecoa para o público os clamores sociais.

É, justamente, o que acontece no espetáculo Gota D’Água (Preta), em cartaz no teatro do Centro Cultural até o dia 24 de março de 2019. A peça é uma adaptação da versão original Gota D’Água, de 1975, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes, inspirada no mito grego de Medeia, o qual é trazido para o subúrbio do Rio de Janeiro.

Nesta nova versão, os fragmentos de Chico Buarque se complementam com trechos de rap e de funk tocados e cantados pelo elenco, predominantemente negro. A peça traz a história de Joana (Juçara Marçal), mulher madura, sofrível, mãe de dois filhos pequenos e que está prestes a ser despejada do lugar onde mora, na Vila do Meio-Dia. Sua vida mudara completamente após ser traída por Jasão (Jé Oliveira), homem robusto, atraente, bem mais jovem do que ela, sambista conhecido da região, que resolve deixá-la para se casar com Alma (Marina Esteves), filha do empresário Creonte (Rodrigo Mercadante), dono da vila. Quando este decide investir na carreira artística de Jasão, o rapaz se empolga e começa a desvincular-se de suas raízes.

Mas aqui não se trata apenas de um conflito pessoal entre Joana, Jasão e Creonte. Eles são a personificação de todo um povo sofrido, explorado e oprimido pelos grupos hegemônicos. Em Joana vemos a mulher negra secundarizada por sua condição social, racial e sexual, cujo grito é calado a todo o momento, até mesmo pelos demais moradores da vila por receio de sofrerem maior opressão. Em Jasão vemos o jovem vigoroso, sonhador, cuja ilusão o permite ser manipulado e persuadido por Creonte. Este se configura a representação clara da elite branca hegemônica, que ilude muitas minorias com suas falsas promessas de melhoria social.

Um exemplo são as próprias melhorias propostas por Creonte aos moradores da vila, além do perdão dos aluguéis atrasados, que acaba agradando a muitos. No entanto, eles não se atentam para as altas taxas que o dono continuará cobrando pelos imóveis.

O realismo presente na atuação de Juçara é comovente e inspirador. Com um trabalho cênico e vocal excepcionais, a atriz traz vivacidade para a transformação de sua personagem, marcada fisicamente e emocionalmente pelos golpes que a vida lhe dá. Assim, ela vai envelhecendo, cada vez mais rápido, de modo inversamente proporcional a Jasão, que se torna mais enérgico e cheio de brio. Além de interpretá-lo com brilhante realismo, o ator também é o diretor da peça.

Enfim, Gota D´Água (Preta) é um grito, expresso por meio da arte, de tantos negros, pobres e mulheres, inferiorizados a todo instante, numa sociedade exploratória que se revela a Gota D’Água para tantos injustiçados.

Serviço:

Gota D´Água (Preta)

Onde: Centro Cultural São Paulo: Rua Vergueiro, 1000, Paraíso

Quando: sexta e sábado, às 20h e domingo às 19h

Quanto: R$ 30 (inteira). Vendas na bilheteria do teatro (horário de funcionamento: terça a sábado, das 13h às 21h30 e domingo, das 13h às 20h30) ou pelo site Ingresso Rápido.

Até 24 de março de 2019

No dia 31/03, às 15h, acontecerá um debate sobre a peça com Jé Oliveira e Juçara Marçal no Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149).

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