Você tá louco?”, gritei com ele tentando alcançá-lo. O garoto corria com uma desenvoltura tão grande que eu deduzi com quem aquele beagle havia aprendido a correr. Eu me mexia tão rápido que parecia até que o coração sairia pela garganta. Olhei para trás para saber a que distância o perigo já se encontrava. Àquela altura eu não sabia se seria melhor ter apanhando da turma do Tuca ou ter levado umas mordidas dos cães assassinos do Velho Buldogue.

Confesso que era engraçado ver aquela turma se defendendo como podia para se proteger dos cães. Tuca corria em volta das árvores tentando achar uma que pudesse subir. Véio Zuza gritava para o Fofão jogar as bolachas no chão para, quem sabe, os cachorros parassem para comer e os deixassem em paz.

Que bolachas?”, retrucava Fofão com a boca cheia. Dando a entender quais eram suas prioridades. Os outros três pivetes desapareceram da minha vista, mas não da vista dos cachorros, pois, à distância em que eu estava, era possível ouvir os latidos e os gritos desesperados deles. O velho Buldogue não estava nem um pouco preocupado se os seus cães iriam estraçalhar os garotos. Não parava de gritar: “peguem esses desgraçados”. Não sei se os cachorros corriam atrás deles para satisfazer ao seu dono ou se era pelo instinto assassino, reconhecível na expressão dos seus olhos, ou melhor, nas pontas de seus dentes.

Olho para frente e o meu “anjo da guarda” começa a demonstrar sinal de cansaço. Tento imaginar o que deve estar passando pela mente dele, porque há alguns minutos ele estava tranquilo, como que procurando uma sombra para chupar a laranja, aquela que serviu para nos colocar em apuros.

Por aqui!”, gritei para ele, levando-o para um trajeto que só eu conhecia. Não precisei gritar de novo, ele já estava me seguindo. “Corre, corre!”, gritava ele. Num rápido olhar para trás vi os cães nos alcançado. Foi o tempo de fazer uma curva à direita e uma à esquerda para desviar de uma enorme árvore e chegarmos ao barranco que dava para o rio.

Era de uma altura de cinco metros, e todo esse tempo que frequentei o rio, nunca tive coragem de pular. Paramos bem na ponta do barranco, olhamos um para o outro com cara de interrogação, viramos para trás e, sem nos falarmos, chegamos à conclusão de que a coisa certa a fazer seria pular no rio. Mentalmente contamos até três e pulamos, numa sincronia que parecia ter sido ensaiado.

Levou uns quatros segundos até tocarmos a água, mas foi o suficiente para recapitular a minha breve vida. Minha primeira bicicleta; meu pai chorando pela morte da minha mãe; eu na oficina aprendendo a trocar as velas de carro; e a Alessandra, garota de 14 anos que frequentava a mesma escola que eu, por quem eu era apaixonado. Será que nunca mais iria olhar aqueles olhos verdes? E qual seria o nome do “anjo da guarda” que me colocara naquela situação? Obrigado por nada, seu “anjo”. Todas estas perguntas e imagens corriam na minha mente. Foi quando tocamos a superfície da água.

O silencio foi imediato. Não ouvíamos mais os cães, os tiros de espingarda do Velho Buldogue, nem o desespero da turma do Tuca. A única coisa que eu conseguia ouvir era o “tum tum, tum tum” do meu coração. Ele só não saiu pela garganta porque, se eu abrisse a boca, morreria afogado. E morrer ainda não estava em meus planos.

Desesperado começo a nadar para cima até chegar à superfície. Dou várias braçadas e o reflexo do sol foi ficando mais forte. Consigo tirar minha cabeça da água justamente no momento que acabou meu fôlego. Não sei o que aconteceria se eu ficasse um segundo a mais dentro da água. Olho para cima do barranco e vejo um rottweiler e dois pastores alemães com cara de quem acaba de perder o almoço.

Os três retornaram frustrados para o Velho Buldogue. “Estamos salvos.”, falei com um ar aliviado para o garoto, mas não ouvi nenhuma resposta. Um frio correu pela minha espinha e não era a água gelada do rio.

Não vi nenhum sinal do “anjo da guarda” – o termo ficou na minha cabeça desde que o Tuca assim o nomeou. Enchi os pulmões na intenção de mergulhar para procurar pelo garoto, já pensando no pior. Foi neste momento que ele rasgou a superfície da água. Estava, nitidamente, sem nenhum fôlego. Deu umas cinco inspiradas fundas até se recuperar.

Quando finalmente se recuperou começamos a gargalhar como velhos amigos que acabaram de ouvir a melhor piada do mundo. Fomos nadando até a beira do rio e nos deitamos nas pedras. E ainda estávamos rindo. Com certeza iríamos nos lembrar daquele dia por muito tempo. O que seria o fim das minhas férias se tornou o início de uma grande amizade.

Segundo capítulo do livro Tudo que tenho de fazer é sonhar, do Eddie Silva, que está em promoção na Amazon. Adquira já o seu exemplar. A promoção é por tempo limitado.

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