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Ari e os mancebos

Era primavera e no calendário marcava dia 25. Cinco dias após o vencimento do aluguel. Como de costume, o reflexo do sol entrava pela fresta da veneziana do pequeno quarto onde Ari tentava dormir o sono dos injustos. O sono era interrompido pelos gritos da criançada indo para a escola e pela buzina irritante do caminhão de gás. Era normal ouvir Ari praguejar o motorista do caminhão, que não tinha nenhum senso em buzinar todos os dias às 8:57 da manhã. Ari retomava a sua rotina matinal: levantar-se, chutar a caneca de água que deixara no chão na noite anterior, para não precisar levantar se desse sede. Soltava uma série de três “putz” e caminhava ao banheiro onde ele se sentia rei.

No rádio, que só sintonizava AM, tocava os flashbacks da Jovem Guarda. Era o seu programa favorito, fazia Ari viajar no tempo e nos pensamentos. Aquele tempo em que ele era feliz e sabia. Sempre vinha em sua mente os dias em que ele e seus amigos pescavam no rio da Pedreira. Nunca conseguiam pegar nada. Não sabiam se era por falta de sorte ou o mercúrio que era derramado por uma mineradora. Lembrava do tempo em que participava nas festas da escola que aconteciam no sábado à tarde. Todos já esperavam pela jarra que Ari levava e os pacotinhos de K-Suco. Bastava pegar água do banheiro masculino e jogar um pacotinho para a tinta ficar pronta. Outros eram encarregados de levar pão Pullman, potes de Amendocrem e, se tivessem sorte, podia pintar até um bolo de fubá, patrocinado pela mãe de algum suplicante.

Para Ari a festa era algo a ser levado a sério. Mesmo tendo apenas 16 anos, ele cuidava do seu visual. Calça de tergal boca de sino, azul piscina, com uma cinta do exército falsificada. A camisa era vermelho framboesa, com uma gola Asa Delta. Além da tinta que Ari providenciava para fazer os pães Pullman descerem goela abaixo da garotada, ele também levava seus bolachões 45 RPM, com os sucessos que tocavam nas rádios. Golden Boys, Paulo Sérgio, Erasmo Carlos e o Rei Roberto eram garantia de sucesso na festa.

Certa ocasião, enquanto tocava Renato e Seus Blue Caps, Ari arriscou lançar um novo passo de dança, o que foi seguido e copiado imediatamente pelos seus leais companheiros. Sem se perceberem, eles estavam criando uma coreografia que até John Travolta poderia usar nos seus filmes de Embalos de Sábado à Noite. O espaço de dança, que era disputado por todos, aos poucos foi se abrindo, deixando somente Ari e os mancebos dançando. Não demorou muito para que eles chamassem a atenção de todos na festa. O que começou com uma simples brincadeira, acabou conquistando o interesse do público, de todos os alunos e até do diretor da escola. Em poucos dias, a conversa era sobre Ari e os Mancebos. Todos estavam empolgados e foi questão de dias para aparecerem convites para animar festas, casamentos e até comício de um vereador do bairro. As coreografias foram tomando formas mais sérias e a cada apresentação um estilo novo era mostrado. O visual virou uma marca registrada do grupo. Foi o suficiente para fazer as prateleiras das Casas Pernambucanas esvaziarem. Todos queriam usar o mesmo estilo de Ari e os Mancebos.

A calça azul marinho de tergal, que era obrigatória na escola, aos poucos foi mudando para azul claro. O diretor fazia vistas grossas, afinal, ele também aderiu à moda do sucesso.

Os anos se passaram e cada mancebo tomou um rumo em sua vida, deixando apenas o Ari, que insistia em aprender um novo passo de dança no chuveiro.

“Seu Ari, seu Ari! Corre, corre. Acabaram de roubar suas roupas do varal”, gritou a vizinha.

Ari acordou e caiu na realidade. Tudo era apenas um sonho. Uma lágrima escorreu pelo seu olho esquerdo. Não sabia se a lágrima era de saudade, de dor por voltar à realidade ou por não ter roupa para ir trabalhar.

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