Depois de levar o Globo de Ouro na categoria Melhor Filme Dramático e ter conquistado também o prêmio da Academia Britânica de Artes e Televisão do Cinema, o BAFTA, considerado o Oscar inglês, como Melhor Filme, 12 Anos de Escravidão vem sendo a principal aposta para encerrar com chave de ouro a grande cerimônia do Oscar que acontece neste domingo (2), levando o maior número de estatuetas, incluindo Melhor Filme. Com nove indicações ao Oscar, esta produção fica atrás apenas de Gravidade e Trapaça, com dez indicações cada uma.
 
A principal “arma” usada para tamanha repercussão desta trama? Abordar um tema histórico, baseado em fatos reais, e que sempre acaba mexendo com o emocional de muitos espectadores: a escravidão.  Ressalve-se aqui não se tratar apenas de mais uma produção destinada a contar a triste história de muitas vítimas da escravidão negra, de modo a ofuscar importantes detalhes que, embora pesados, se fazem necessários para conferir ao público melhor dimensão de uma trágica realidade vivida em tantas senzalas espalhadas pelo mundo.
 
O filme 12 Anos de Escravidãovai muito além de uma retratação cinematográfica mais contida do sofrimento coletivo vivido pelos escravos, ao mostrar intensamente – e ainda assim pode ser considerada uma pequena amostra – as brutalidades impostas diariamente aos negros e também uma realidade não muito discutida nas aulas de História: o sequestro de negros livres, do Norte desenvolvido dos Estados Unidos, para o Sul latifundiário e escravagista daquele país.
 
Dirigido por Steve McQueen, a trama é baseada no livro homônimo publicado em 1853 pelo protagonista dessa história, Solomon Northup (interpretado por Chiwetel Ejiofor) um negro nascido livre e que vivia com a mulher e os filhos em Nova York até ser chamado por dois supostos empresários, num determinado dia, para tocar violino em um circo. Animado com a proposta, ele se despede de sua família e parte para Washington sem imaginar o grande pesadelo real que o aguardaria então. Depois de algumas apresentações na cidade, Solomon acaba sendo preso num porão pelos dois falsos empresários e, tempos depois, é enviado para o Sul, onde passará por alguns donos de escravos que o tratarão como um mero objeto.
 
O sofrimento do protagonista, que se inicia desde o momento em que ele vai parar no porão pelos dois homens que o enganaram – sendo ali mesmo acorrentado e apanhando a pauladas e chibatadas, que chegam a rasgar toda a sua pele na região das costas – vai ganhando contornos cada vez mais pesados e dramáticos ao decorrer da trama, a fim de impactar o público dando uma impressão mais realista deste período.

Há momentos de tirar o fôlego, como a cena em que Solomon se vê obrigado a açoitar as costas nuas de sua colega, a escrava Patsey (Lupita Nyong’o), que já havia implorado a ele que lhe tirasse a vida em razão das humilhações sofridas por ela, entre elas ser objeto sexual de seu amo, Edwin Epps (interpretado genialmente pelo ator Michael Fassbender) e, em razão disso, motivo de ódio da mulher dele (Sarah Paulson), que deixava a pobre escrava muitas vezes sem comer e tomar banho, sem contar outras agressões.
 
A atriz Lupita Nyong’o consegue arrancar lágrimas e gemidos de desespero da plateia na ótima incorporação de toda a brutalidade sofrida por sua personagem, que pode chegar a ir além do que supomos sobre essa época. Lupita concorre ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, prometendo deixar ainda mais acirrada a disputa por essa estatueta, ao lado, por exemplo, da famosa Jennifer Lawrence, que detonou em Trapaça. Entre todas as indicações, o filme ainda concorre ao Oscar nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator (Chitewel Ejiofor) e Melhor Diretor (Steve McQueen).

Não é apenas uma produção cinematográfica, mas uma peça histórica tal, que fará parte do curriculum das escolas da rede pública dos Estados Unidos, segundo o site The Film Stage. Em parceria com os produtores, a National School Boards Association, uma organização sem fins lucrativos formada por 90 mil membros de 13.809 distritos escolares, o filme e o livro atingirão 50 milhões de alunos, conforme desejo manifestado por MCQueen. “12 Anos de Escravidão é um dos trabalhos mais impactantes dos últimos tempos e estou honrado por ter conseguido maximizar o seu potencial educativo. Ao destacar um período vergonhoso na história americana, este longa vai fazer com que os estudantes tenham o desejo de não repetir os males do passado e os inspirará a sonhar com um futuro melhor”, afirmou Montel Williams, líder do projeto. 

Existe apenas um grande pecado cometido nesta produção que pode ser a pedra no sapato para que ela encerre a festa do Oscar com a estatueta de melhor filme: a passagem do tempo que não é refletida nos personagens, de modo que o público somente chega a se dar conta de 12 anos passados nos minutos finais do filme, que acabam sendo tão emocionantes e fortes, ao mesmo tempo, que o tal defeito pode passar despercebido por alguns espectadores, mas não pelos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Agora é esperar para ver!
 
Por Mariana da Cruz Mascarenhas